Valter Hugo Mãe: "O PS é um governo de direita em matéria cultural"

O escritor português mais adorado no Brasil está confinado nas Caxinas e escreveu as suas memórias de infância. Lamenta a inexistência do Ministério da Cultura em tempo de covid e uma política de direita nesta área do Governo PS.

Quando se esperava do escritor um novo romance, Valter Hugo Mãe apresenta aos leitores Contra Mim, uma viagem de regresso à infância e uma investigação sobre o que o fez tomar a profissão da escrita. Num "ano introspetivo", diz, foi à descoberta de "tudo o que na vida de alguns escritores parece conspirar para a inevitabilidade da escrita".

Se não fosse a pandemia, Contra Mim não existiria: "Neste ano fomos todos convidados a repensar-nos. Não acredito que a humanidade vá mudar e o usarmos uma máscara não estabelece uma mudança de paradigma humano, pois é um acessório que até as modas estão a absorver."

Dito isto, explica que o novo livro resulta de "termos sido todos convidados a uma reflexão acerca de quem somos, do que fazemos e do queremos fazer, portanto, mais do que esperar dos outros quero esperar de mim e garantir que após esta experiência não voltarei aos mesmos erros". Por essa razão, explica que sentiu a "necessidade de voltar aos meus elementos iniciais." O livro, garante o autor, "não é uma exposição de mim, até porque o livro termina há 36 anos".

Contra Mim é um livro bastante diferente dos anteriores, em que não se proibiu de usar a palavra "Não" como em Homens Imprudentemente Poéticos, em que já se emancipou de uma narrativa sem maiúsculas.

Contra Mim vai precisar de uma continuação?
Não acho essencial. O que justifica este livro é uma reconstrução dos passos dados até que a escrita se torna o compromisso fundamental da minha vida. É a invenção do escritor, o que acontece depois perde o lado de espanto e de oficina.

Já dissera que todos temos um livro dentro de nós mas que a sua vida não dava um livro...
Estou com 49 anos, talvez aos 80 possa olhar para alguma coisa que aconteceu entretanto com o mesmo assombro com que olho para a minha infância.

Muitos autores aproveitam este género de livros para fixar a posteridade. Foi esse o caso?
Não, pelo contrário, e enquanto escrevia mais dúvidas se levantaram. Uma autobiografia é uma coisa impossível pois nunca é uma garantia de verdade, antes a memória de uma construção e de um modo de pensar. Só nesse aspeto vale como testemunho.

Os leitores não perdem parte do interesse no escritor quando o conhecem melhor?
Creio que não, e esta criança acabou há muito - não existe mais. Por mais que o livro possa ter de ingénuo, de irritante, de infantil ou de maravilhoso, nada disso serve além de ponderar no que acontece quando envelhecemos. Esta criança não pode ser sentada num tribunal.

O confinamento nas Caxinas tem sido inspirador?
Devo dizer que sou um privilegiado porque posso confinar e trabalhar em casa, por isso não alterei os meus métodos.

Viver sem festivais literários e com as livrarias fechadas não é uma situação fácil para um escritor?
Sim, sobretudo o não poder manter certas rotinas culturais como frequentar o teatro, estar nas apresentações dos livros de colegas... Isso faz-me falta. Por outro lado, como estou com a minha mãe, este tempo também intensificou muito as conversas que tenho tido com ela e recuperou uma herança que ela me entrega nas conversas.

Ia muito ao Brasil encontrar-se com os seus muitos leitores. Como fica essa parte?
Fica uma saudade, mesmo que o frenesi gerado nessas viagens profissionais dificilmente me permite curtir as coisas do lugar. Mas tenho falta de caminhar nesses locais, de ir às livrarias a que me habituei, de comprar os autores brasileiros que não chegam aqui e que adoro e dos autores estrangeiros que lá se traduzem e cá não. Aquilo que o Brasil oferece é preciosíssimo e custa-me estar à distância.

A crise editorial é gigantesca. O livro vai recompor-se ou a covid destruirá a literatura?
Algumas coisas vão ficar destruídas para sempre porque a atenção das pessoas está a ser desviada e não será fácil criar novos leitores. Já era difícil a relação dos mais novos com o livro e agora, com o afastamento das livrarias, esse desafio aumentou. É impossível que não baixem em muito os níveis de leitura e quando se inventar a vacina duvido que as pessoas desatem a comprar e a ler livros. Tal não irá acontecer.

Os que fazem cultura são muito críticos em relação ao Ministério da Cultura e à resposta à pandemia. O governo esteve à altura da resposta ao setor?

Sou muito crítico da sua atitude e considero que o Ministério da Cultura praticamente não existiu durante esta pandemia. Fez uma certa cosmética, teve duas ou três ideias abstrôncias que os envolvidos e convidados decidiram nem participar. Temos ido de cocktail em cocktail, não passa disso e é triste o que se observa. Mesmo que eu não esperasse de um governo do Passos Coeho ou de Rui Rio qualquer auxílio para a cultura, tal não era a minha opinião sobre um governo PS. Ainda vamos com alguma ilusão de que possa existir alguma sensibilidade para a cultura neste partido, infelizmente, uma vez e outra, o PS acaba por mostrar que é um governo de direita em matéria cultural.

Entre as recordações que desfila está a da infância em Angola, na qual refere que não se apercebera que os habitantes eram negros.
Quando me deparei com o racismo era algo para que não tinha tradução para mim e foi com um certo espanto que me o ensinaram. É das coisas que mais me mete nojo e tenho a convicção que todos nós em Portugal fomos ensinados de alguma forma para sermos racistas. Não precisa de existir má-fé nesta educação, basta a ignorância e uma certa distração, porque precisamos de estar mais conscientes do passado negreiro do país e sobretudo ter a noção de que esse tempo deixou sequelas na vida dos povos negros até hoje.

Também descobre que Portugal era um pequeno pedaço no mapa. Essa perspetiva sobre a nossa pequenez mudou?
O viajar muito leva-me a países ínfimos e que têm culturas deslumbrantes. Não foi por acaso que escrevi sobre a Islândia em A Desumanização. Tem sido fácil compreender que a grandeza dos povos não vem da quantidade dos habitantes ou do tamanho dos países, mas tem que ver com o tamanho da imaginação. É mais à medida do que sabemos imaginar e que nos leva a um sonho e à construção dos próprios mitos. Sinceramente, acho Portugal um país admirável. Temos um património cultural e um pensamento maduro o suficiente para produzir uma tremenda maravilha, existe é o problema de claudicarmos em momentos importantes. Eventualmente, a economia faz com que claudiquemos e a primeira coisa a sofrer é logo a autoestima.

Sublinha que a primeira memória que tem é do dia 25 de Abril. Mantém-se uma boa recordação?
Nunca esqueci esse data e é com muito orgulho que escrevo no livro que naquele dia nasce o Portugal que me seria suportável: o democrático e vocacionado para integrar toda a gente. Para alguém da minha idade é uma fortuna poder ter um clarão do que foi aquele dia. Acredito na sua importância e que é o grande dia do ano.

Recorda que havia muitos poucos livros em casa e o principal era a intocável Bíblia. Isso mudou?
Sim, e é curioso que essa mesma Bíblia está no meu quarto, agora sem qualquer Santo Sudário a envolvê-la. Aliás, tenho várias bíblias e outros livros pelos quais tenho um respeito meio sagrado, no entanto com esta Bíblia tenho muito cuidado por ser um objeto que representa o mais delicado da família

O que ficou escondido ou por contar em Contra Mim?
Não tenho problemas com o passado, mas neste livro foquei-me na minha vida em vez daquilo que sei da dos outros. No início tenho episódios sobre os meus pais, mas apenas as histórias que se contam no Natal e na Páscoa, nada mais. Poderia ter romantizado muitas outras coisas que diziam respeito aos meus pais ou irmãos, mas a edição dessas memórias tem mais que ver com o ir ao encontro do que sei de mim e do que me forma e não ao que é circundante. Como já disse, talvez aos 80 anos possa fazer uma edição mais completa - ou mais desnecessária.

Contra Mim

Valter Hugo Mãe

Porto Editora

281 páginas

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