Distinguido em Cannes com o Grande Prémio (2.º na hierarquia do palmarés do festival), agora lançado nas salas portuguesas, Valor Sentimental surge na corrida para os Óscares numa posição invejável. Com nove nomeações, a realização do norueguês Joachim Trier integra os candidatos a Melhor Filme e Melhor Filme Internacional - não é uma situação inédita, mas não deixa de ser uma proeza a registar.Talvez ainda mais surpreendente, e também pouco frequente, são as suas quatro nomeações para prémios de interpretação: Renate Reinsve, para Melhor Atriz, Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleas, ambas na categoria de Melhor Atriz Secundária, e Stellan Skarsgård, para Melhor Ator Secundário. Os Óscares, ou apenas as suas nomeações, não serão uma lista “científica” para justificar, nem sequer para descrever, as qualidades de um determinado filme. Seja como for, este destaque para os atores - sobretudo para as atrizes - não podia ser mais revelador do efeito mágico de um elenco realmente excecional. Com alguma ironia, apetece dizer que o talento acumulado nesse elenco seria suficiente para fazer um filme a que, no limite, bastariam os grandes planos dos rostos.Claro que um ator não se resume a um rosto “expressivo”. Mesmo quando um filme aposta nos grandes planos como figura nuclear da sua narrativa - veja-se a admirável primeira longa-metragem de Kristen Stewart, A Cronologia da Água, estreada a semana passada -, os movimentos dos corpos e as singularidades dos cenários estão longe de ser indiferentes para os resultados finais.Dito isto, importa sublinhar algo de mais complexo e envolvente: se a questão da performance dos atores é tão decisiva na dramaturgia de Valor Sentimental, isso decorre também do facto de estarmos perante um filme sobre... atores. Ou mais exatamente: sobre a procura de uma atriz.Quem procura uma atriz é um cineasta, precisamente, chamado Gustav Borg (Skarsgård). O filme que está a preparar, para lá dos problemas de financiamento, reflete histórias familiares traumáticas, enraizadas em memórias da Segunda Guerra Mundial. Borg tem duas filhas, Nora (Reinsve) e Agnes (Lilleas). Nora é atriz e seria a escolha “natural” para o papel central, mas as tensões entre pai e filha levarão Borg a convidar uma atriz americana, Rachel Kemp (Fanning), de algum modo fazendo reaparecer aquelas memórias que todos parecem querer contornar... . Por vezes, Trier não resiste a fazer uma cena “simbólica” mais ou menos dispensável para expor uma determinada mudança no curso da ação; outras vezes, acrescenta canções na banda sonora cujo efeito tem algo de redundante - eram, aliás, problemas que marcavam o seu filme anterior, A Pior Pessoa do Mundo (2021), também protagonizado por Renate Reinsve, ainda que Valor Sentimental me pareça francamente mais consistente. O seu tema fulcral será, afinal, a pertença de cada ser humano a um determinado lugar.A casa e o mundoO lugar decisivo de Valor Sentimental é, assim, a casa de família que funciona como um refúgio ambíguo, uma espécie de gruta secreta, ainda que exposta à luz do mundo exterior, recheada de tudo aquilo que as personagens partilham, mesmo (ou sobretudo) quando resistem a dizê-lo. Aliás, essa casa mobiliza tanto mais a curiosidade do espetador quanto, nas suas formas insólitas (tropicais?), parece existir como uma entidade que recusa diluir-se na paisagem urbana.Fundamental é, por isso, a forma como todas as ações do filme estão pontuadas por uma teatralidade que nasce do modo como cada personagem tenta, muitas vezes, mascarar-se perante a personagem que tem à sua frente. Fará mesmo sentido dizer que o confronto de Borg e Nora se decidirá (ou não) quando pai e filha arriscarem retirar as suas máscaras... Com uma nuance que a realização de Trier sabe explorar com assinalável pudor: cada uma dessas máscaras já contém uma dimensão vital da própria verdade..'Living the Land'. Nostalgia e dor em paisagens chinesas.'Frankie e os Monstros'. Frankenstein regressa em desenhos animados