Como descrever um filme como Billie Eilish: Hit Me Hard and Soft? Mesmo sabendo que a música pop e os jovens (ou alguma ideia de juventude) são duas faces de uma mesma moeda, convenhamos que Billie Eilish está longe de poder ser classificada através dos padrões tradicionais da cultura popular.Daí a interrogação clássica, de uma vez factual e poética, que reaparece: de que falamos quando falamos de Billie Eilish? Afinal de contas, ela é um verdadeiro fenómeno global nascido em 2019 com o seu primeiro álbum, When We All Fall Asleep, Where Do We Go?, tinha 18 anos. Entretanto, entre as dezenas de prémios que foi acumulando, correspondentes a mais de uma centena de nomeações, contam-se dez Grammys e dois Óscares para as canções No Time to Die e What Was I Made For, respetivamente dos filmes 007: Sem Tempo para Morrer (2021) e Barbie (2023). Sem esquecer que, entre os seus recordes registados no Guinness, se inclui o de artista musical mais pesquisada na internet durante o ano de 2019.O filme agora estreado tem como matéria central um concerto da digressão Hit Me Hard and Soft (título do seu terceiro álbum, lançado em 2024), realizado na Co-op Live, uma arena coberta de Manchester com capacidade para mais de 23.000 espectadores. A maior parte dos momentos de bastidores é feita com diálogos entre Billie Eilish e James Cameron. E não se trata apenas do realizador de Titanic e Avatar enquanto admirador, mas também como parceiro de trabalho - a realização de Billie Eilish: Hit Me Hard and Soft é mesmo assinada pelos dois.A inevitável classificação de “filme-concerto” suscita alguma discussão. Desde logo, porque o modelo de encenação, além de dispensar o espaço cénico mais clássico, explora todos os efeitos resultantes do facto de estarmos, realmente, numa arena. Mais do que isso: a plataforma retangular em que Billie Eilish evoluiu, em cujo centro aparece e desaparece um gigantesco cubo que pode ser também um ecrã de várias faces, tem tanto de pista de atletismo (correr e cantar são, para ela, atividades que se confundem) como de altar de uma cerimónia de infinitos arrebatamentos.Há outro modo (entenda-se: modo cinematográfico) de dizer isto. Assim, lembramo-nos que o “filme-concerto” é um género que tende a tratar a audiência como uma entidade exterior à performance do artista, mesmo quando os espetadores se manifestam de forma cúmplice face às nuances dessa performance - para nos ficarmos por um exemplo emblemático, lembremos a energia anímica de Na Cama com Madonna (1991), de Alek Keshishian. Ora, com Billie Eilish, os espetadores são muito mais do que observadores - fazem parte da performance. . Duas componentes definem semelhante cumplicidade. A primeira envolve a imagem do público como paisagem de telemóveis, instalando uma dúvida bizarra: os espetadores (sobretudo espetadoras, já que a maioria da audiência é feminina) estão a ver Bille Eilish ou a imagem dela que vão registando? A segunda reforça a ideia de cerimónia religiosa: da primeira à última canção, a assistência canta com Billie Eilish, não exatamente como um coro de milhares de vozes, antes como uma entidade de muitos rostos, gritos e lágrimas unificada pelo próprio espectáculo.Perguntamo-nos, por isso, que fenómeno é este que faz com que as canções de Billie Eilish a transformem em sacerdotisa de um “povo” musical. As entrevistas com raparigas e rapazes que assistem ao concerto justificam que lhe atribuamos tal papel - afinal de contas, todos (e todas!) a celebram como um guia espiritual. Há uma beleza estranha, ao mesmo tempo sensual e angustiada, em tudo isso: numa época de banalização mediática das emoções, Billie Eilish acorda em nós a ânsia do sagrado.