Consagrado como vencedor da secção “Un Certain Regard” do Festival de Cannes de 2024, Cão Preto, de Guan Hu (nascido em Pequim, em 1968), é um filme com tanto de transparente como de inclassificável. Transparente porque há algo de universal na saga do seu anti-herói, de nome Lang, regressado à sua cidade natal no noroeste da China, depois de ter cumprido uma pena de prisão de dez anos. Inclassificável porque os cenários da cidade em decomposição definem uma “terra de ninguém” em que tudo parece contaminar-se, dos atribulados destinos dos humanos até às convulsões do mundo animal. No plano histórico, Cão Negro é mais um exemplo de uma produção chinesa que ecoa as problemáticas sociais geradas pela preparação do país para os Jogos Olímpicos de Pequim de 2008, prolongando, por exemplo, um filme como 24 City (2008), de Jia Zhang-ke— curiosamente, Jia Zhang-ke surge, aqui, como actor, interpretando o Tio Yao, líder do grupo de homens contratados para capturar os cães vadios que ameaçam a comunidade a que Lang regressa. 24 City era uma crónica dramática sobre os contrastes do crescimento urbano na cidade de Chengdu, capital da província de Sichuan. Agora, Cão Negro dá-nos a ver a decomposição de uma geografia comunitária, num espaço que vai adquirindo os contornos de uma verdadeira cidade fantasma, a pouco e pouco abandonada pelos seus habitantes para dar lugar às novas construções que o regime promove através de uma instalação sonora omnipresente em todas as ruas. Dir-se-ia a pintura surrealista de um pesadelo: a cidade parece decompor-se como uma utopia para sempre adiada. As casas e as ruas vão sendo esvaziadas, sem que haja qualquer decisão clara sobre o futuro dos seus habitantes (aconselhados a organizar os seus haveres e... partir). Ser ou não ser engolido pelos sinais agitados do “progresso”, eis o cruel programa de vida que Lang enfrenta através da mais inesperada das tarefas: ajudar a recolher os muitos cães vadios que circulam pelas ruas cada vez mais vazias. Tudo isto confere a Cão Preto a dimensão pedagógica de uma crónica histórica em que, através das singularidades da experiência da sua personagem central, pressentimos a dramática complexidade do momento de uma comunidade e um país. Ainda assim, evitemos cair no cliché televisivo que promove qualquer visão histórica como uma “tese” moralista de purificação dos factos (e do próprio espectador). Na sua prodigiosa sensibilidade formal, e também na delicadeza da sua textura emocional, este é o retrato da solidão radical de Lang, de algum modo reforçada pela morte iminente do pai, só partilhável com o cão que o título refere. Natureza primitiva Rezam as crónicas que Eddie Peng, o brilhante intérprete de Lang, acabou por adoptar o cão preto com que contracena. É apenas um pormenor à margem do filme, mas podemos associá-lo a algumas palavras do realizador (incluídas no respectivo dossier de imprensa): “Se há animais nos meus filmes, é, antes de mais, porque acredito que existe em cada um de nós uma dimensão animal. Uma animalidade que se pode manifestar quando precisamos de demonstrar coragem ou desafiar a autoridade. Como uma espécie de natureza primitiva que muitas vezes escolhemos manter adormecida.” A encenação cinematográfica de um animal, em particular de um cão, pode ser um teste esclarecedor da capacidade de um autor para lidar com o misto de evidências e mistérios da condição humana — para nos ficarmos por dois exemplos excepcionais, lembremos O Cão Branco (Samuel Fuller, 1982) ou O Turista Acidental (Lawrence Kasdan, 1988). A obra-prima de Guan Hu pertence à mesma categoria de narrativas capazes de desafiar as certezas da nossa razão — sem esquecer que a beleza selvagem do Deserto de Gobi atrai, aqui, o esplendor de uma verdade anímica a que, na falta de palavras mais eloquentes, poderemos chamar um estado de alma. .De Mastroianni e da maioridade: está aí a boa Festa italiana do cinema