Entre os países que nunca ganharam um Óscar de Melhor Filme Internacional (ex-Melhor Filme Estrangeiro), a Colômbia surge na lista dos que obtiveram uma única nomeação — aconteceu em 2016, com O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra. Um Poeta, agora chegado às salas portuguesas, foi o título apresentado à Academia de Hollywood em 2025, depois de, em maio desse ano, ter ganho o Prémio do Júri da secção “Un Certain Regard”, no Festival de Cannes. Se nos lembrarmos do lugar-comum que proclama a escrita poética como uma matéria que “liberta” o seu autor das agruras do mundo concreto em que vivemos, talvez se possa dizer que, na beleza agreste do seu estilo quase documental, esta é uma ficção para desmontar e, sobretudo, desmentir tal ideia. A figura central, Oscar Restrepo (Ubeimar Rios), é um poeta premiado que vive marcado por uma solidão radical. As suas ações conduzem a sucessivas ruturas com os familiares, em particular com a filha. Em boa verdade, Oscar tende a criar conflitos com todos os que com ele se cruzam, a ponto de poder encarnar outro cliché: o poeta maldito que, se não está contra o mundo, tem sempre o mundo contra ele. O argumentista e realizador Simón Mesa Soto, nascido em Medellín, em 1986, filma os ziguezagues da existência de Oscar nos cenários mais pobres da sua cidade. Com um efeito paradoxal, isto é, conseguindo expor uma pulsão de vida que tem tanto de amargo como de contagiante. Dir-se-ia que estamos perante um realismo à beira do surreal, de tal modo tudo parece (e aparece) próximo de uma trágica decomposição material ou emocional. As coisas mudam quando Oscar, cada vez mais desamparado, se vê compelido a dar aulas para garantir a sua sobrevivência. Uma das suas alunas, Yulardy (Rebeca Andrade), vai funcionar como uma “aparição” para o que poderá ser o seu despertar. Porquê? Porque Yulardy como que duplica as angústias de Oscar: também ela escreve poemas, também ela parece condenada a uma solidão sem alternativa. Sem sentimentalismos fáceis e, sobretudo, sem esmagar as personagens sob o peso de um qualquer “simbolismo” mais ou menos redentor, Mesa Soto é um cineasta que, realmente, acredita nas suas personagens. Que significa acreditar? Pois bem, deixá-las existir e evoluir sem rasurar as suas contradições, evitando encaixá-las em estereótipos para satisfazer a boa consciência do espectador. Neste contexto de abertura da “temporada de verão”, Um Poeta é um objecto não alinhado que merece ser descoberto. .O cinema não desiste do sagrado.'O Barqueiro'. Realismo e minimalismo em tom português