A “produção” literária de Mário Cláudio pouca interrupção tem tido neste terceiro milénio e desde o ano 2000, com Ursamaior, o escritor tem vindo a publicar uma vintena de títulos entre romances, novelas, contos, teatro, ensaio e memórias, bem como várias biografias no seu estilo muito próprio, sendo de destacar a dedicada a Tiago Veiga, em 2011, na qual recria em 800 páginas o percurso de um minhoto arredio da vida pública que conviveu com grandes figuras das artes.Chega agora às livrarias um conjunto de três novelas sob o título Pôr-do-Sol com Leão Deitado, um volume que vem renovar a prova de que Mário Cláudio é um dos mais importantes trabalhadores da literatura nacional e da língua portuguesa, bem como um dos autores menos bissextos. Três situações literárias, entre muitas outras que se poderiam apontar, que obrigam o bom leitor a voltar a Mário Cláudio sempre que este regressa. Até porque o autor renova-se, como explica quando se questiona sobre este registo se desviar ligeiramente do habitual enquanto o estilo se mantém. Sintetiza: “Aquilo que eu sou é inseparável do que escrevo”.O trio de histórias que compõem o livro datam de 2023, 2024 e 2025. Apesar de escritas em tempos diferentes, existe uma ligação entre elas: “Embora não seja visível à primeira vista, está em todas uma tentativa de abordar o tema da clausura. Ou seja, todos nós estamos prisioneiros do bairro em que vivemos, como acontece na primeira história; da jaula onde nos põem, como é o caso do leão da segunda; ou num confinamento como viveu o poeta António Nobre devido à doença na terceira. A justificação que dou por haver esta constante na temática dos três textos é de que só pela imaginação é que se conseguem ultrapassar esses cativeiros.” Não estará a imaginação muito fraca nos tempos que correm para se fugir às prisões, pergunta-se a Mário Cláudio. Responde: “A imaginação continua a ser o grande motor da criatividade em qualquer parte do mundo. É inevitável não falar agora das capacidades da Inteligência Artificial e de que parece que a imaginação deixou de ter voz, afinal é um estado subjetivo e diferente de pessoa para pessoa. No entanto, creio, que sem a imaginação humana nem sequer a Inteligência Artificial conseguiria ser criada.”De um modo ou de outro as três histórias juntam-se no mesmo objetivo de preservar um tempo, uma vida e um lugar; a vida de um bairro, a memória do leão que veio para a Exposição Colonial Portuguesa no Porto em 1934, e o périplo emocional de António Nobre. Como surge, ou escolhe, o tema de cada um destes textos é a questão que se coloca. Mário Cláudio desvenda: “As três histórias pertencem a períodos diferentes daquilo que é Portugal: a primeira decorre na contemporaneidade, a segunda faz parte daquela euforia colonialista dos anos 1930 e 1940 em que o Império era invencível, e a terceira passa-se na transição do século XIX para o XX e do confinamento que era a doença para o poeta. Tal como no caso de António Nobre, em que a saúde o obriga ao nomadismo, também os restantes personagens fazem da sua situação uma espécie de fuga para a frente.”A revisitação de António Nobre tem existido em Mário Cláudio com alguma frequência e, desta vez, o escritor escolhe os anos finais da vida do poeta para o ficcionar: “Se todas as pessoas se prestam à ficção, no caso de António Nobre ainda mais porque é um homem cuja existência tem bastantes lacunas em termos de conhecimento público da sua biografia e é interessante preencher-se esses vazios. Pode não ter acontecido, mas é provável que tenha acontecido. Foi a situação que sucedeu nesta história, pois sabe-se pela abundante correspondência dele como estava a reagir à doença, que era num estado de alternância e de maravilhamento pelo mundo - ele está em Paris, na Suíça, na Madeira, em Nova Iorque - e o que vivia fascinava-o. No entanto, há também o outro lado, aquilo que na época se chamava o spleen, o tédio de viver e uma melancolia permanente porque tinha consciência de que a sua vida estava por um fio.”Apesar de ter escolhido o poeta António Nobre como protagonista da terceira novela, incluída em Pôr-do-Sol com Leão Deitado, Mário Cláudio não lhe faz a vida fácil. Logo na epígrafe deixa um pensamento pouco elogioso do escritor/Presidente Manuel Teixeira-Gomes: “O António Nobre atingiu o último grau do lirismo… insuportável”. Será essa também a opinião do escritor? Garante que “até certo ponto não é”, mas que o último escrito/rascunho que o poeta deixou, e que está na base da novela Os Regressos de Anrique, é “um texto menor na sua poesia, contudo capaz de apontar direções que ainda não tinham sido contempladas em Nobre: é um regresso ao nacionalismo numa altura em que este estava em queda. Não penso que Nobre tivesse uma ideologia política, era um bocado imaturo nesse aspeto, a não ser a monárquica - mais por estética do que por convicção -, nem tinha nenhuma relação com o movimento republicano quando morre em 1900. Em suma, não estava a par do que se passava no país real, antes enquadrava-se num Portugal idílico”. Daí que Mário Cláudio insira no seu texto que a visão mais correta sobre Nobre era a de ser adolescente perpétuo, que se levava muito a sério como se pertencesse a uma casta superior e um caso perfeito de narcisismo, o de quem até falava de si na terceira pessoa. Acrescenta: “Também era um poeta da visualidade e como poeta era um grande pintor, capaz de um grande arroubo, muitas vezes rebelde e insubmisso, até fazendo lembrar em certos versos o seu contemporâneo Walt Whitman”.Se de António Nobre Mário Cláudio sabe tudo, já o protagonista da segunda novela, o leão Sofala, exigiu muita pesquisa: “Havia que saber como era a captura do animal, o transporte de África para o Porto, como era tratado em cativeiro, bem como o relacionamento que a população teve com o leão. Pergunta-se ao escritor se se pode dizer que o leão Sofala é uma metáfora de como os impérios tratavam as colónias, a que responde: “Sim, pode representar isso. O leão era o símbolo do império e foi metido numa jaula, como aconteceu ao regime que o criou enquanto símbolo. O regime viu o leão transformar-se num fantasma, que não chegou a «cair» da cadeira, mas acabou por morrer depois de tudo aquilo que foi acontecendo ao próprio regime que inventou. Curiosamente, a pessoa que estava à frente da Exposição e era a sua grande alma foi Henrique Galvão, um anti-salazarista convicto.”O leão da novela é também outra metáfora, como refere Mário Cláudio: “Uso a imagem do leão deitado ao pôr-do-sol porque essa experiência coincide com a atual fase da minha vida, em que não sendo propriamente um leão, nem estando corroído pelo tempo como ele, aos 85 anos sinto muito daquilo que aquele leão sentiria. Não só ao nível do corpo, mas também no julgamento dos outros.” Foi uma tentação autobiográfica, questiona-se: “É um autorretrato, mesmo que só no título”, garante. Quanto ao texto inicial, esse sim, será em muito autobiográfico, afinal trata-se de um exaustivo deambular por um Porto que a maioria desconhece, mas o melhor cenário para colocar em paralelo as simbologias das vielas e as contradições dos amores. .PÔR-DO-SOL COM LEÃO DEITADOMário CláudioD. Quixote339 páginas.Mário Cláudio. Suicídios e Portugal: um tríptico do mal .Respeitar o leitor é publicar menos para Milton Hatoum