Um cozinhado musical com sabor a tradição

As portuenses Sopa de Pedra apresentam amanhã em Lisboa, no Cineteatro Capitólio, a sua visão muito própria do cancioneiro popular português, que desde há sete anos cantam à capella.

Mais que um grupo musical, são uma família, tanto metafórica como literalmente. Entre as dez elementos do grupo há um "par de irmãs", um "trio de primas" e "muitas colegas de liceu e de faculdade", que se conhecem desde sempre. "Somos quase todas amigas de infância com uma grande ligação à música", explica ao DN Mariana Gil, uma das fundadoras das Sopa de Pedra, um grupo musical feminino, à capella, formado no Porto em 2012.

Desde então, já tocaram em festivais como Bons Sons, Andanças, Primavera Sound ou Músicas do Mundo e, há dois anos, lançaram o aclamado disco de estreia Ao Longe Já se Ouvia, que, coisa rara nos tempos que correm, esgotou a edição física e será reeditado este mês. O concerto no Capitólio, em Lisboa, marcado para este sábado à noite, serve também para assinalar o feito, mas, acima de tudo, o que realmente se pretende é celebrar a música popular portuguesa, como sempre têm feito quando sobem a um palco ou simplesmente se juntam para cantar.

Umas já eram profissionais, outras não, mas em comum tinham todas "o amor pela música", como sublinha Mariana, que fez parte do coro dos Amigos da Academia de Espinho. Algumas foram alunas do Colégio dos Gambuzinos, no Porto, um estabelecimento de ensino artístico, onde nomes como Sérgio Godinho, José Mário Branco ou Amélia Muge foram em tempos vistas regulares. "A música tradicional surge com uma escolha natural, porque todas partilhávamos esse gosto desde pequenas", afirma Mariana, recordando que, antes, ainda tentaram ir até Espanha ou ao Brasil, mas depressa regressaram a Portugal. "Mal começámos a cantar as músicas da nossa infância tudo fez sentido", garante.

O repertório das Sopa de Pedra inclui, sobretudo, música de tradição oral das várias regiões portuguesas, dos cânticos mirandeses de Trás-os-Montes às baladas açorianas, das cantigas de adufeiras da Beira Baixa ao Cante Alentejano, mas também temas de cantautores como Zeca Afonso, Amélia Muge e João Lóio ou grupos como Almanaque ou GAC. O grupo revisita assim a história da música popular com rigor artístico, mas também com arrojo, sob a forma de novas harmonizações e arranjos polifónicos. "Estudamos as muitas recolhas que foram feitas, mas, no final, o maior critério para a escolha do repertório é o nosso gosto. Cantamos aquilo que mais gostamos e nos diverte", salienta. Tal como no conto popular da Sopa de Pedra, a criação musical começa com uma base simples, a tal pedra, que neste caso pode ser uma tradição, uma melodia, um cantar, à qual se vão juntando novas vozes e ideias, reinventando, assim, a tradição.

Quanto ao facto de serem dez mulheres, em palco, a cantar, sem instrumentos que não seja "alguma percussão", Mariana reconhece que, "inicialmente chama a atenção", mas depois deixa de ter importância, porque "a música fala por si e a polifonia feminina também é uma formação que faz parte da tradição portuguesa". Neste concerto no Capitólio, porém, vai estar mais gente em palco: "É uma noite especial e portanto convidámos alguns dos músicos e amigos que nos inspiraram para fazer isto". A lista inclui nomes como Amélia Muge, Daniel Pereira Cristo, José Manuel David (Gaiteiros de Lisboa), José Salgueiro, Lula Pena ou as Cramor, "outro coletivo de mulheres à capella".

Entretanto, o grupo tem já na calha um novo projeto, feito em parceria com a pianista Joana Gama e inspirado na obra Viagens na Minha Terra, de Fernando Lopes-Graça. E um novo álbum está também "em processo de cozedura", embora agora feito com novos sabores, uma vez que, pela primeira vez, vão apostar em temas originais. Um deles, da autoria de Amélia Muge, chamado Pé de Sopa, vai ser já apresentando amanhã, no palco do Capitólio.

Sopa de Pedra

Cineteatro Capitólio

Lisboa. 17 de fevereiro, sábado 22.00. 15 euros

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