Um cheirinho de Moçambique no Rock in Rio por Selma Uamusse

Um cheirinho de Moçambique, com cores de capulana, voz quente, instrumentos como a timbila, o mbira ou o xitende. Foi isso que Selma Uamusse, sempre com grande interação com o público, esta tarde deixou no palco EDP Rock Street África do Rock in Rio.

"Vou trazer um cheirinho do meu Moçambique", prometeu, desde logo, Selma Uamusse, cantora moçambicana radicada em Portugal. Conhecida por participações com músicos como os Wraygunn, Samuel Úria ou Rodrigo Leão, prepara-se para lançar um novo álbum, Mati. Será a 7 de setembro, anunciou em primeira mão ao público do palco EDP Rock Street, desta vez inteiramente dedicado a África. Mozambique, o segundo single desse novo disco, foi das primeiras músicas que tocou, esta tarde na Bela Vista.

"Mati, em changana, quer dizer água", explica ao público, tocando em seguida uma música com o mesmo nome. Changana é uma das línguas moçambicanas em que canta. A outra é chope. Descalça, vestindo um macacão branco ocidental e um colete longo de capulana, Selma vai pondo toda a gente de braços no ar e a cantar "é-ó-é-ó-é-ó" durante o tema Ngono Utana Vuna Hina. É algo que fala em plantar e colher frutos, explica, sobre a música em que a presença da timbila, instrumento tradicional moçambicano da família dos xilofones, é fortíssima.

A certa altura, Selma salta para o chão, juntando-se ao público que assiste ao concerto. De pé, dançando, sentado, nos sofás insufláveis vermelhos da Vodafone. Veem-se às dezenas pelo recinto da Bela Vista. As filas para ter um exemplar estendem-se por metros e metros. Todo o dia. Canta e dança no meio da assistência e, quando regressa ao palco, aponta para o instrumento e diz "senhoras e senhores isto é uma timbila". Termina o concerto a cantar Baila Maria, tema do conhecido músico Chico António, um ícone da música moçambicana.

"Eu inspiro-me na música tradicional moçambicana, trago instrumentos tradicionais, como a timbila, o mbira, o xitende, os próprios ritmos existentes nas músicas são tradicionais. Dizer que é música tradicional não seria verdade. Mas também não seria verdade dizer que é música moderna. O que trago é tudo aquilo que foi a minha aprendizagem e que trago para a minha música. Tenho feito coisas tão diferentes, desde cantar com o Rodrigo Leão, com os Wraygunn, cantar gospel ou fazer parte de uma banda de afro-beat. Eu fiz jazz. Fiz tantas coisas. A única coisa que eu podia fazer era transportar todas essas sonoridades para a minha música. Mas isso também não a torna moderna. O jazz ou o rock 'n roll são antigos. Torna-a é diferente", diz ao DN Selma Uamusse, que no dia 4 de julho cantará no B.leza em Lisboa, como uma das convidadas da são-tomense Anastácia Carvalho.

No final da sua atuação, uma de várias raparigas que já chegaram a meio mas de imediato se puseram a dançar frente ao palco, pergunta: "Que gira, que gira, quem é ela?". Selma Uamusse, respondem. "Como se escreve?" U-a-m-u-s-s-e. "Ah! Obrigada. Vou procurá-la no Youtube". É que se, talvez para algumas gerações mais velhas a música moçambicana é sinónimo de marrabenta, para outras, é sinónimo de nada. Simplesmente. "As pessoas estão familiarizadas com músicas de Angola, como kizomba, kuduro, ou de Cabo Verde, como o funaná, coladera. Até conhecem música do Mali ou do Senegal. Mas não fazem a mínima ideia do que é que se faz em Moçambique. Falta-nos, moçambicanos, investir na propagação e na exportação da nossa música", admite Selma Uamusse, em declarações ao DN no backstage.

Daí que, para ela, a ideia de um palco só para África no Rock in Rio "foi de uma ousadia e de uma inteligência muito grande. Para nós, enquanto músicos, é um orgulho fazer parte de uma festa tão popular e que chega a tantas pessoas. É um contexto diferente do que costumamos fazer".

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