Pelo menos desde A Minha Vida sem Mim (2003), a filmografia da espanhola Isabel Coixet (nascida em Barcelona, em 1960) tem evoluído como um peculiar cruzamento do particular e do universal. Particular, porque a sua obra nasce, de facto, de uma deambulação pela produção de diversos países; universal, porque a sua fixação nas atribulações afetivas dos humanos faz com que, diretamente ou não, o fantasma da morte esteja quase sempre presente nas suas histórias. Assim volta a acontecer em Três Vezes Adeus, coprodução italo-espanhola, falada em italiano, estreada no Festival de Toronto de 2025. Baseado em personagens de um livro de Michela Murgia, editado entre nós com o título O Sentido da Náusea (Elsinore, 2025), esta é uma ficção que arrisca começar no momento em que muitos dramas idênticos arrancam para o seu capítulo final. Assim, descobrimos o casal Marta/Antonio — Alba Rohrwacher e Elio Germano, dois intérpretes de muitas e invulgares subtilezas. Depois de uma noite passada com amigos, somos talvez levados a supor que o filme nos vai dar conta dos altos e baixos da sua vida comum... Mas não, o balanço da noite gera uma conversa cada vez mais tensa, até que Marta interroga Antonio: “Mas queres deixar-me?”. Assim acontece: ao fim de menos de dez minutos, o filme apresenta-nos um casal separado, ou melhor, uma separação que vai ser contada, sobretudo, através do crescente isolamento de Marta. Chamemos-lhe “suspense” emocional. Em vez de uma “sociologia” telenovelesca em que as ações são tratadas como uma “explicação” determinista do comportamento das personagens, Coixet segue um princípio de descoberta — cada uma dessas ações pode ser uma revelação, não apenas para o espectador, mas para a própria personagem. O livro de Murgia que serviu de inspiração ao filme reflete a experiência íntima da própria escritora — foi publicado em Itália no começo de 2023, poucos meses antes da sua morte, a 10 de agosto, contava 51 anos, vítima de cancro nos rins. Ainda que evitando ser demasiado explícito em relação à “transferência” para cinema de tais memórias, podemos dizer que a personagem de Marta se descobre sozinha no interior da sua própria história. Como se fosse obrigada a repetir a pergunta mais básica: “quem sou eu?” Enfim, como se tal pergunta a enredasse numa teia de dúvidas e impasses cujos contornos, afinal, ela própria desconhece: “quem sou eu para os outros?” .Daí que este seja um cinema enraizado numa crença absoluta no valor dos atores. Valor, entenda-se, não apenas como fator de “representação” das emoções humanas, mas também um pouco (eu diria sobretudo) como forma de expor e, num certo sentido, iluminar aquilo que nessas emoções escapa a qualquer racionalização. Elogio dos secundários Daí também a atenção a todos aqueles que se enredam no incerto destino de Marta. A irmã com o seu palavreado carinhoso, quase sempre distraída do essencial; o jovem professor, colega de escola, que a contempla com pudico fascínio; as duas alunas que Marta descobre ameaçadas por outros dramas, perturbantes, que a sua vulnerabilidade não detecta... Todos existem como genuínas personagens secundárias, não num banal pano de fundo, antes participando, por vezes de modo incauto, nas convulsões da vida da personagem central. Sem esquecer que, num inusitado toque de fábula, Marta “inventa” uma personagem com quem dialoga regularmente... Resumindo as singularidades de um filme como este, valerá a pena dizer que nele encontramos uma revisitação de um modelo dramático de introspeção que o cinema de “efeitos especiais” foi desvalorizando perante várias gerações de espectadores. Não será (nem tinha que ser) uma imaculada obra-prima, mas Três Vezes Adeus reconcilia-nos com a ideia segundo a qual os filmes podem aproximar-se do que sabemos, ou julgamos saber, sobre a nossa identidade.