Trilogia de Richard Zimler surpreende entre as novidades da 'rentrée' literária
Há livros de todos os géneros entre as centenas de novos títulos que irão ser lançados nas próximas semanas a pensar no Natal. Surpresas não faltarão, mas é o escritor Richard Zimler quem arrisca mais no seu próximo projeto, a trilogia O Voo dos Anjos Caídos, que sairá ao ritmo de um romance até novembro. A distopia passa-se daqui a 350 anos, num planeta Terra irreconhecível, narrado pelo protagonista Falcão que vive no local onde se pensa ter existido um país chamado Portugal. É um regresso a um tempo medieval, mesmo que os perigos que ameaçam as atuais sociedades não tenham sido apagados por completo, como é o caso dos fundamentalistas religiosos com características supremacistas. Zimler confessa que o motivo para ter escrito esta trilogia tem muito a ver com o ódio pregado por políticos como Trump, Putin e Netanyahu, e o estado de convulsão em que o mundo se encontra. O primeiro volume intitula-se A Beleza das Coisas Imperfeitas, o segundo No Abismo das Ilusões e o terceiro O Último Golpe de Asa. Entre as restantes dezenas de lançamentos da Porto Editora e das suas chancelas está também o mais recente romance do muito premiado Hernán Diaz, Fios, bem como ao romance Territórios de Luz da escritora japonesa Yuko Tsutshima e a reedição muito aguardada de A Escola do Paraíso, de José Rodrigues Miguéis.
A segunda grande surpresa é a publicação pela Bertrand Editora do romance Um Defeito de Cor da autora brasileira Ana Maria Gonçalves, considerado um dos sete livros mais importantes para entender o Brasil. É a história de Kehinde, inspirada na vida real de Luísa Mahin, mãe do poeta Luís Gama, e que refaz muita da história dos escravos que foram de África para aquela antiga colónia portuguesa. É o retrato de uma mulher que não pertence a um único lugar, vista por vários olhares e que coloca em questão a própria identidade. Um romance profundo e uma autobiografia ficcionada que permitirá aos leitores portugueses folhear o passado e também perceber o quanto a questão racial ainda está bem presente no Brasil e por resolver. A mesma editora vai lançar o segundo volume da série Imaginação de Francisco Louçã, desta vez dedicado às utopias, ciência e quotidiano; A História Global da Monarquia Portuguesa, coordenada por José António Franco e Paulo Drumond Braga; Frederico Lourenço anuncia A Bíblia Adaptada para Jovens; será publicada a biografia de Rasputin de Antony Beevor; a história da relação entre judeus e muçulmanos, intitulada Filhos de Abraão, de Marc David Bauer; e vários títulos de autores portugueses, entre os quais A Menina Alzira de José Luís Peixoto e Voltas e Disfarces de J. Rentes de Carvalho.
A Penguin também aposta bastante em novidades de escritores portugueses, designadamente através de três dos seus principais autores: João Tordo com o policial O Inferno Cheio, Afonso Cruz com Canção de Circe e Hugo Gonçalves com O Império do Fim. Mas não faltam outras vozes nacionais a sair nas próximas semanas, bem como brasileiras: Elvira Vigna com Por Escrito, o editor Luis Schwarcz com O Primeiro Leitor, dois novos volumes da obra de Clarice Lispector, e uma nova edição excecional de uma das mais importantes obras, Grande Sertão Veredas, de João Guimarães Rosa. Entre os autores internacionais estão Carlo Rovelli com A Consciência Pesada dos Físicos, sob o pretexto da bomba atómica, bem como O Canto do Cisne de Charles Spencer, irmão de Lady Di. A não esquecer o regresso há muito esperado de Kiran Desai com A Solidão de Sonia e Sonny, uma entre os vários autores que estarão presentes na próxima edição do festival literário Folio (13 a 18 de outubro).
A Leya mantém a sua aposta nos escritores portugueses. Destaque para Os Sapatos de Khatchaturian de Sandro William Junqueira e Do Amor e de Outros Fantasmas de Joana Bértholo. Há as reedições comemorativas dos 25 anos de Bom Dia Camaradas de Ondjaki e de Psicopata Americano de Bret Easton Ellis. Importante regresso de Mathias Enard com Melancolia dos Confins em Quatro Estações e de Han Kang em Tinta e Sangue, entre muitos outros títulos.
A editora Guerra & Paz regressa com dois novos Atlas Históricos: o da América Pré-Colombiana e o Atlas Histórico do Portugal Revolucionário, do historiador José Matos. Também esclarecedor é Os Escravos na Onu", de José Pimentel Teixeira, sobre uma resolução recente e que muito interessa aos leitores nacionais. De assinalar a reedição de O Africano, o clássico de J.M.G. Le Clézio.
Entre as três dezenas de novidades da Relógio D’Água o destaque em língua portuguesa vai para As Noites Azuis de Ana Teresa Pereira e Formas de Pensar de Agustina Bessa-Luís (Prefácio de Lourença Baldaque). Não faltam romances de autores estrangeiros, como Vigília de George Saunders e Os Emigrados de W. G. Sebald.
A Tinta da China vai reeditar A Arte Sem História de Filipa Lowndes Vicente, mas a aposta nas novidades é grande: A Distância, a nova peça de Tiago Rodrigues, sobre a relação entre um pai e uma filha; e a importante investigação de Maria José Oliveira, A las Barricadas, sobre a participação dos portugueses na Guerra Civil de Espanha.
Na Almedina também não faltam novidades de não-ficção, tal como no romance, área em que a escritora Ana Cristina Silva regressa com Vários Nomes para Julieta, uma história inspirada na realidade de Andrei/Julieta que morreu espezinhada em Lisboa após ter acreditado que o país era amigável para transsexuais.
Entre as centenas de novidades editoriais de todos os géneros não foi esquecida a poesia, como continua a fazer questão a Assírio & Alvim ao publicar Só O Incêndio Lavra de Diogo Pires Aurélio, o segundo livro em quase meio século do poeta e filósofo após A Herança de Hölderlin (1978). Num tempo e forma bastante diferentes, o poeta revisita e constrói os cenários desse intervalo de publicação, dando espaço tanto a Heráclito como aos blues, sem esquecer os primados de Dylan Thomas ou Álvaro Mutis, ou epigrafar Herberto Helder a par de Sá de Miranda. O poema inicial, Abertura, explica ao que vai: “O reacender das pálpebras dilui-se / na brancura passageira de uma folha”.
A recuperação da obra de Maria Gabriela Llansol continua com Elogio do Fulgor - Livro de Horas XI, com a edição de João Barrento a partir do espólio manuscrito da autora sobre um núcleo de 76 cadernos, considerado por quem os transcreve como sendo “tanto páginas de grande impacto literário e expressivo como de notória profundidade de pensamento”. Seguem-se vários títulos, como Recordações da Fuga de Essex seguidas de 20 poemas do manicómio de John Clare, Amor Chega em Breve num Volkswagen de Filipa Leal, Depois da Chuva: a grande poesia da dinastia Tang de Du Fu, Wang Wei e Li Bai. Também serão lançados pela Quetzal a Poesia Reunida de Vasco Graça Moura e os Cantos de Tristeza de Ovídio. A Antígona irá reeditar a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica de Natália Correia.

