As obras de conservação e restauro da Torre de Belém começaram em maio do ano passado e os andaimes foram totalmente desmontados na passada quinta-feira. Nesta segunda grande campanha de manutenção do ex-libris da cidade de Lisboa e de Portugal, as ações de conservação não se limitaram ao exterior, como aconteceu em 1998, incluíram também o interior. O monumento nacional, classificado como Património Mundial da UNESCO em 1983, recuperou a sua alvura e reabrirá ao público no dia 27 de maio, quarta-feira, com um novo modelo de acesso. . Segundo a Museus e Monumentos de Portugal (MMP), será um sistema semelhante ao que foi implementado no Mosteiro dos Jerónimos, com o acesso a ser feito por slots, ou seja, em horários definidos com intervalos de 30 minutos. “Garante-se, assim, uma distribuição equilibrada dos fluxos de visitantes ao longo do dia, reduzindo picos de afluência, melhorando a conservação do monumento e oferecendo uma experiência de visita mais qualificada e sustentável”, explica a MMP. A afluência diária será limitada a cerca de 900 visitantes, “assegurando o equilíbrio entre acessibilidade pública e proteção do património”, acrescenta a entidade que gere 38 museus, monumentos e palácios nacionais.Antes da reabertura oficial da prevista para amanhã, 26 de maio, o DN visitou a Torre de Belém, a convite da Associação de Turismo de Lisboa (ATL), a entidade que ficou responsável pela concretização deste investimento de mais de um milhão de euros, financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Um projeto que envolveu três entidades, a Património Cultural, IP, a Câmara Municipal de Lisboa e a ATL. “Nós pomos de pé os desafios que nos lançam e o desafio, dentro deste protocolo tripartido, é que nós, enquanto Associação de Turismo de Lisboa, possamos fazer a obra e entregar dentro do calendário”, diz António Valle, diretor-geral da ATL. .O prazo era apertado, pois as verbas do PRR têm de estar executadas até ao final de agosto, mas neste caso a obra está concluída, apesar de alguns percalços, como explica Teresa Silveira, coordenadora dos trabalhos de conservação e restauro da N_Restauros, a empresa que executou a obra. “Tivemos seis intempéries, na última, a 19 de março, uma árvore de grande porte embateu no passadiço e teve que ser a Câmara, com a ajuda de gruas, a retirá-la, era enorme, não conseguimos cortá-la”. Também houve inundações. “Houve várias, mas quem conhece o monumento há mais anos do que eu diz 'descontrai Teresa, é a natureza a trabalhar'. E, de facto, é verdade, mas não deixa de ser preocupante quando estamos a cumprir um prazo de execução de uma obra PRR e já temos trabalhos executados, nomeadamente rebocos, no piso menos um, que eram as catacumbas e as prisões, e há água ao entrar pelas canhoeiras”. . O prazo inicial para a conclusão das obras era 30 de março. “Os trabalhos nunca foram interrompidos, nós conseguimos ir gerindo com as intempéries os trabalhos de interior e de exterior. O que foi feito foi a avaliação dos danos e foi-nos dada uma prorrogação de prazo por essas questões das intempéries, e para uma nova limpeza de detritos no espelho d’água, para entregarmos a obra de uma forma mais bonita”, sublinha Teresa Silveira.A Torre de Belém foi mandada construir pelo Rei D. Manuel I entre 1514 e 1519 e foi projetada por Francisco de Arruda, um arquiteto experiente em estruturas defensivas. É constituída pela torre alta de 30 metros, com um terraço no topo e uma sala em cada um dos quatro pisos – Sala do Governador, Sala dos Reis, Sala de Audiências e Capela –, e o baluarte. A ornamentação é “manuelina”, com heráldica régia e motivos como cordas, nós e animais. A torre foi limpa, retirando-se a chamada “crosta negra”, sujidade decorrente, por exemplo, de incrustação calcária e resíduos de aves, como gaivotas e pombos. “No exterior, na torre, no baluarte e no embasamento, que é a base que sustenta toda a torre, foi feito um tratamento de manutenção e de tratamento da pedra, mas com cariz preservativo. Porque a empreitada que foi feita no final da década 90 assim o permitia”, diz Teresa Silveira. “Fizemos a limpeza integral, mas só tratámos as juntas que estavam danificadas e os problemas que foram aparecendo ao longo destes 30 anos”. Além das juntas, problemas como a colonização biológica e a fratura de algumas pedras. “Mas muito poucas, estamos a falar de uma pedra de excelente qualidade (lioz), que está aqui há 500 anos e se vai manter. Venham os terramotos, venha o que vier, este é, de facto, um bastião muito seguro para essas intempéries tão difíceis, para esses elementos da natureza”. . Também foram tratadas – e nalguns casos substituídas – as madeiras dos vãos, portas e janelas, assim como os elementos metálicos, gradeamentos e ferragens, que compõem, por exemplo, as correntes da ponte levadiça. Nas catacumbas, onde era a prisão, também se cuidaram das madeiras e rebocos. “O interior nunca tinha sido mexido. É subir 93 degraus de uma estreita escada em caracol e imaginarem as milhares de pessoas que já passaram por lá. Estamos a falar do contacto das pessoas, da mão, do suor, da sujidade e dos próprios eventos meteorológicos que foram tendo alguma interferência. Portanto, estamos a falar de séculos sem um tratamento de conservação e restauro”. A limpeza foi feita com biocidas naturais para não causar tanto impacto no meio aquático. Foram testados, e estão a ter bom comportamento, sublinha a conservadora-restauradora. Houve ainda outra decisão importante neste projeto. “No interior, tínhamos uma sujidade muito difícil de limpar, não queríamos ser intrusivos do ponto de vista químico, não poderíamos estar a ter águas e não tínhamos tempo, então fizemos a opção totalmente nossa, e assumindo os custos que isso também trazia, de utilizarmos a limpeza por feixe laser. A limpeza da totalidade das escadas interiores, os 93 degraus, e de todas as salas, foi feita através dessa tecnologia que nos permitiu, com limpeza sem resíduos e sem o dano à pedra, deixar a tonalização que era necessária”. . O passadiço de madeira no exterior foi todo limpo e hidratado, mas uma manutenção mais regular desta estrutura será uma das recomendações que a empresa de conservação e restauro fará no relatório final que entregará às entidades públicas, que incluirá também um guia de manutenção. É que as marés estão mais fortes e o murete que foi construído nos anos 1960 já não impede a entrada de detritos no espelho de água, frisa Teresa Silveira. A mudança do clima é uma realidade que afeta o monumento e que será preciso precaver. “As zonas dos canhões eram áreas abertas para que o canhão pudesse atuar em defesa. Hoje em dia não é possível manter as janelas abertas, porque as marés são muito fortes e é algo que deveria preocupar as instituições. É necessário começar a estudar o efeito que têm estas alterações climáticas no monumento.” Depois deste novo investimento para preservar esta joia nacional da época dos Descobrimentos, ainda há trabalho a fazer, alerta Teresa Silveira. “Na área do património a manutenção é muitas vezes esquecida. Depois das obras do PRR, vem a fase 2, que é criarem-se estratégias e planos de manutenção para os monumentos para evitar as mega empreitadas de 30 em 30 anos.” Veja a fotogaleria