Foi diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II durante sete anos até assumir, em 2022, a direção artística do Festival d’Avignon, um dos mais importantes eventos do mundo dedicados ao teatro, e que este ano decorreu entre 4 e 25 de julho, no sul de França. Tiago Rodrigues cumprirá um segundo mandato à frente do festival e revela ao DN as suas prioridades até 2030. A peça La Distance estreou em Avignon no ano passado e tem andado em digressão. Depois da Culturgest, será apresentada em Guimarães, nos dias 25 e 26 de setembro, no Centro Cultural Vila Flor. Também em setembro, o encenador apresenta Catarina e a Beleza de Matar Fascistas no National Theatre, em Londres, e em português. “Tem um significado especial”, assume. A peça viajará até Los Angeles, nos Estados Unidos, em fevereiro de 2027. Que balanço faz da edição deste ano do Festival d'Avignon?É um balanço muito positivo. Em primeiro lugar, pela grande qualidade e diversidade dos espetáculos, que foram muito bem acolhidos pelo público e pela crítica. Aquilo que é a nossa missão essencial sentimos que foi cumprido. Foi uma edição com mais espetáculos do que é habitual e também com mais apresentações. Sobretudo, foi uma edição marcada por uma grande diversidade de artistas: mais de metade apresentavam-se pela primeira vez no Festival de Avignon. Foi, por isso, um festival muito marcado pela descoberta de novos artistas e de novas estéticas. Além disso, teve um espetáculo de abertura que, estou convencido, ficará para a história do festival: Maldoror, de Julián Gosselin. Foi uma aposta ganha, o Maldoror?Acho que foi uma aposta ganha. Era um espetáculo muito ambicioso, do ponto de vista técnico e artístico, e também pela sua duração. Com cinco horas, exigia um grande compromisso por parte do público. Ainda assim, foi muito participado. As apresentações no palco principal do festival, no Pátio de Honra do Palácio dos Papas, tiveram sempre lotação esgotada. Foi um espetáculo muito aplaudido, tanto pelo público como pela crítica, e julgamos que ficará para a história do Festival de Avignon.Porquê a escolha de Maldoror para abrir o festival?Porque Julián Gosselin é um dos grandes encenadores do nosso tempo e, à imagem daquilo que o teatro faz há 25 séculos, ocupa-se dos males do mundo, tal como já fazia Sófocles, na Grécia Antiga. Foi exatamente isso que este encenador fez, de forma exímia, criando arte a partir da literatura. Aliás, esta foi uma edição muito marcada pela literatura. Além de Julián Gosselin, houve outros artistas, como a brasileira Carolina Bianchi, a brasileira Christiane Jatahy, o ator brasileiro Wagner Moura e a francesa Valérie Dréville, que se inspiraram em romances e em poesia para criar os seus espetáculos. E, naturalmente, também a presença da escritora sul-coreana Han Kang, Prémio Nobel da Literatura, cujas obras inspiraram vários espetáculos apresentados no festival, contribuiu para que esta fosse uma edição particularmente marcada pela força da literatura. Esse foi, talvez, um dos traços mais distintivos desta edição. Ao mesmo tempo, foi uma edição de grande diversidade estética, com muitos espetáculos preocupados com os problemas do mundo. E ainda bem que assim é. Um festival deve ser uma festa: uma festa da descoberta e da criação artística. Mas essa criação artística não tem de fugir à complexidade do mundo nem às questões que hoje nos inquietam. No Festival de Avignon, desde 1947, essa tem sido precisamente a sua vocação: mostrar a forma como os artistas pensam e dão corpo, através do teatro, aos problemas e às grandes questões do nosso tempo.Que tendências se veem nas artes performativas? O que o surpreendeu mais nas propostas que foram apresentadas no Festival d’Avignon este ano? Do festival e da sua grande diversidade, eu diria que há duas surpresas importantes e uma nova tendência naquilo que são as práticas do festival. As duas surpresas são, por um lado, aquilo que já referia: a importância da literatura, um regresso da poesia e da prosa como fontes de inspiração para as formas teatrais. O romance, a poesia e, obviamente, também o repertório teatral. Mas acho que há um reencontro dos artistas de teatro, não apenas em França, mas no mundo inteiro, com a força da literatura e com a força da escrita. Isso esteve muito presente nesta edição do festival. Diria que uma segunda surpresa, muito marcada pela programação de língua coreana que apresentámos, é a harmonia entre tradição e inovação. Ou seja, a noção de que não é necessariamente preciso romper com o passado para propor inovação. Pelo contrário, a inovação pode muitas vezes nascer da forma como lemos o passado, como o reinterpretamos e como nos colocamos em contacto com as tradições que fazem parte das nossas culturas. Isso esteve muito presente nos espetáculos coreanos. Penso, por exemplo, numa das grandes descobertas desta edição do festival: a sul-coreana Lee Ja-ram, que pratica uma arte nascida na Coreia no século XVIII, o pansori, uma espécie de teatro musical recitativo que conta sempre uma história. Lee Ja-ram começou a praticar pansori aos 10 anos, com um mestre. Tem hoje cerca de 45 anos, é uma das grandes divas desta arte tradicional coreana e, ao mesmo tempo, a sua maior inovadora. E isso é, acho eu, muito paradigmático das artes performativas coreanas, do teatro e da dança na Coreia: as pessoas mais inovadoras são, muitas vezes, também as guardiãs da tradição. Essa foi, creio, uma das grandes lições desta edição do festival.Porque não houve este ano criações portuguesas no festival?Houve várias criações em língua portuguesa, mas não criações vindas de Portugal. Aliás, nas quase 80 edições do festival houve menos de uma dezena de criações portuguesas. As mais recentes aconteceram já nos últimos anos, desde que estou presente no festival, porque, naturalmente, sendo português, tenho talvez um conhecimento mais profundo da cena portuguesa, que merece inteiramente estar presente no festival. Mas, como acontece com qualquer um dos cerca de 200 países do mundo, é impossível estar representado em todas as edições. À exceção de França, naturalmente, porque é o país onde o festival se realiza. No entanto, a língua portuguesa esteve muito bem representada por Wagner Moura e Christiane Jatahy, com o espetáculo Um Julgamento, que, aliás, tinha acabado de passar por Lisboa antes de o apresentarmos aqui. E esteve também representada pela estreia mundial de Uma Luz Cordial, o novo espetáculo da brasileira Carolina Bianchi, que apresentou de seguida, pela primeira vez, a integral da sua trilogia Cadela Força. É um conjunto de três espetáculos que começou a criar aqui, no Festival d'Avignon, em 2023, e que concluiu agora, em 2026. Foi um dos sucessos desta edição, a apresentação integral dessa trilogia: uma maratona de cerca de dez horas, na Ópera de Avignon, que esgotou duas salas, foi muito aplaudida e ficará, certamente, como um dos momentos marcantes desta edição. Houve ainda a presença da coreógrafa brasileira Lia Rodrigues, que dirigiu a nossa Escola de Verão, Transmissão Impossível, na qual participaram muitos jovens artistas brasileiros e também portugueses. Nesta Academia de Verão do Festival participam artistas portugueses com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian desde 2024..Como é que avalia aquilo que se faz atualmente em Portugal nas artes performativas?Avalio com muita admiração porque, conhecendo bem o percurso dos artistas portugueses, acho incrível como o teatro e a dança em Portugal conseguem ter tanta qualidade e tanta dinâmica, sendo, ao mesmo tempo, tão mal apoiados. Acho que Portugal é um país com uma grande qualidade e uma enorme diversidade de criação artística, tanto no teatro como na dança, que merecia uma política cultural muito mais consequente, muito mais sólida e muito mais estável. Nesse sentido, acompanho a cena portuguesa com muita admiração. Hoje, vivendo em França, tenho menos oportunidades para acompanhar atentamente e de forma regular a criação artística em Portugal. Tenho a minha lista de espetáculos que, ao longo do ano, vou lamentando não conseguir ver por não poder estar permanentemente em território português, seja em Lisboa, no Porto ou nas muitas outras cidades que também apresentam uma programação muito interessante. Mas continuo a achar que Portugal é um país com uma criação artística de grande qualidade, que merece ser ainda mais conhecida a nível internacional. Espero que o Festival d'Avignon possa continuar a contribuir para que isso aconteça.Em França foram anunciados cortes orçamentais na cultura, isso impacta de alguma forma o Festival d’Avignon? Alguns dias antes do início do festival foram anunciados cortes que seriam aplicados ainda durante este ano de 2026. Durante o festival houve uma grande mobilização, à qual o próprio festival se associou. Aderimos a esse movimento de artistas, técnicos, organizações culturais e sindicatos. Foi no palco principal do festival que, antes de uma das apresentações de Maldoror, se reuniram muitos representantes de teatros, companhias e sindicatos para interpelar o Presidente da República, Emmanuel Macron, e pedir que esses cortes não fossem aplicados já em 2026, porque seriam catastróficos para a atividade de muitas organizações culturais.Escreveram-lhe uma carta aberta...Foi lida uma carta aberta, que depois também foi enviada ao Presidente da República. Embora o Festival de Avignon não fosse, para já, diretamente afetado por esses cortes, estivemos, obviamente, solidários e mobilizámo-nos ao lado das estruturas que seriam atingidas. Houve uma concertação muito alargada e, antes do final do festival, esses cortes foram anulados. Neste momento, aguarda-se a proposta orçamental para a Cultura em 2027, mas os cortes anunciados imediatamente antes do festival acabaram por ser retirados, graças à mobilização que aconteceu durante o festival e às tomadas de posição muito firmes e concertadas, revelando uma grande capacidade de união do setor cultural. Houve, portanto, um recuo da decisão política inicialmente tomada e todas as estruturas que estavam ameaçadas foram preservadas. Pelo menos durante os próximos meses, não haverá um impacto negativo na atividade cultural.Num contexto mais geral, é evidente que a situação económica em França faz temer pelo lugar da cultura nos orçamentos do Estado. Existe hoje uma reivindicação muito clara da generalidade do setor cultural para que 1% do Orçamento do Estado seja dedicado à cultura. O objetivo é garantir a continuidade de um projeto com mais de 70 anos de história, assente na descentralização e na democratização do acesso à cultura. Trata-se de um verdadeiro serviço público cultural, profundamente enraizado na sociedade francesa: está presente na escola pública, no sistema de ensino, na justiça — incluindo nas prisões —, na saúde, nos hospitais e nos lares públicos para pessoas idosas. É um modelo muito desenvolvido, que foi apoiado durante décadas, e que tem de continuar a evoluir e a aperfeiçoar-se. Colocá-lo em causa seria, de certa forma, trair um património democrático construído ao longo de muitos anos.O Festival de Avignon tem, neste contexto, um papel fundamental, porque é o lugar onde se reúne todo o setor cultural francês e também uma parte muito significativa do setor cultural internacional, sobretudo nas áreas do teatro, da dança e das artes performativas. É também um momento privilegiado de organização, de reivindicação e de reflexão. Este ano, ficámos satisfeitos por verificar que o festival demonstrou, uma vez mais, a sua importância para o setor cultural. Face aos cortes anunciados, a reunião dos agentes culturais em Avignon permitiu uma concertação e uma tomada de posição conjunta que levaram o Governo francês a recuar numa decisão que teria sido catastrófica.Esses cortes seriam aplicados ainda este ano? Seriam cortes que entrariam em vigor ainda este ano, a partir do mês de setembro. Felizmente, houve abertura por parte do Governo, que percebeu que uma decisão tomada a meio do ano, afetando o orçamento já em execução, iria provocar despedimentos, o cancelamento de muitas atividades e comprometer inúmeros projetos já assumidos. Seria uma decisão catastrófica para o serviço público da cultura, porque afetaria pelo menos 28 grandes organizações culturais em França. Estamos muito satisfeitos por ter havido um grande movimento de solidariedade, que permitiu que todo o setor cultural se unisse em torno dessas 28 estruturas para impedir aquilo que teria sido uma decisão não apenas errada, mas também muito violenta para o setor cultural. Agora, naturalmente, há diálogo, reflexão e mobilização a desenvolver para defender a continuidade da evolução do financiamento da cultura, sobretudo num ano de eleições presidenciais. Este ano, por exemplo, tive oportunidade de me reunir, aqui no Festival de Avignon, com vários responsáveis políticos que já anunciaram a sua candidatura às eleições presidenciais ou que são apontados como potenciais candidatos. Muitos deles passaram pelo festival e pude encontrar-me com eles para, em nome do Festival de Avignon, defender que a cultura seja um dos temas centrais do debate durante a campanha presidencial. A minha expectativa é que o serviço público da cultura seja assumido como uma verdadeira ambição pelos candidatos à Presidência da República e defendido como um património democrático essencial para França.O Festival d’Avignon tem orçamento estável para as próximas edições?Neste momento, esse financiamento mantém-se estável, com uma ligeira redução, nos últimos dois anos, da parte da região, mas estável da parte do Estado, da cidade de Avignon e dos restantes financiadores públicos. Ao mesmo tempo, registámos um crescimento do mecenato, que mais do que duplicou nos últimos três anos, e também das receitas de bilheteira, porque o público do festival aumentou. Tivemos este ano mais público do que no ano passado e, no ano passado, mais público do que no ano anterior. Desde 2023 temos assistido a um crescimento contínuo da afluência, com números recorde de ocupação das salas. Esperamos que esse trabalho possa continuar. A nossa ambição é manter os preços dos bilhetes, sem aumentos, e, ao mesmo tempo, continuar a atrair mais público. Se isso acontecer, será possível o festival continuar a evoluir. Hoje, o orçamento do festival é mais sólido do que era há dois ou três anos. No entanto, é importante que o financiamento público acompanhe também estes bons resultados. Vamos continuar a trabalhar para que os parceiros públicos — o Estado, a cidade de Avignon e todas as entidades que contribuem para a missão de serviço público do festival — compreendam a importância de o festival continuar a crescer e a melhorar. Temos de conseguir responder aos desafios atuais e também ao aumento dos custos, porque organizar um festival desta dimensão é cada vez mais caro. É essencial que possamos continuar a acompanhar os artistas, acolher o público nas melhores condições e garantir que o Festival de Avignon permanece um dos maiores festivais de teatro e artes performativas do mundo.Não é de esperar uma edição emagrecida no próximo ano? Em função desse financiamento e também da capacidade do festival para gerar as suas próprias receitas, será definida a dimensão da próxima edição. Hoje, as receitas próprias do Festival d'Avignon são superiores ao financiamento público. O festival é mais financiado pela sua atividade — através da bilheteira, do mecenato e das digressões — do que por dinheiros públicos. Apesar disso, o financiamento público continua a representar quase metade do orçamento do festival. É uma proporção inferior à da maior parte das instituições do serviço público da cultura em França, que são maioritariamente financiadas por verbas públicas. No nosso caso, existe um equilíbrio que, por vezes, é de cerca de 50/50 e, noutros anos, como aconteceu no ano passado, favorece ligeiramente as receitas próprias. Todos os anos, a atividade do festival é ajustada aos meios disponíveis. Neste momento, ainda não estamos em condições de dizer se a próxima edição será maior ou menor do que a deste ano, se terá mais espetáculos, mais apresentações ou mais público. A nossa esperança, a nossa ambição e o nosso compromisso são que o festival mantenha a sua atual dimensão: cerca de 50 espetáculos, aproximadamente 300 apresentações, perto de 130 mil lugares colocados à venda e várias centenas de milhares de lugares gratuitos para cerca de 300 outras atividades que integram a programação. Essa é a natureza e a escala, verdadeiramente monumental, do Festival de Avignon que queremos preservar. Mas queremos fazê-lo mantendo boas condições de trabalho, boas condições de acolhimento do público e boas condições de acompanhamento dos artistas, que devem ser remunerados com dignidade. Se os meios disponíveis se alterarem, a dimensão do festival poderá também ser ajustada, para que a qualidade e a dignidade com que acolhemos artistas e público nunca sejam postas em causa. .Que marca quis deixar no primeiro mandato como diretor do festival? Atingiu os seus objetivos?Eu não gosto muito de falar em termos de "marca", porque isso parece remeter sempre para o ego ou para a personalidade de uma pessoa. O Festival de Avignon é uma aventura coletiva com quase 80 anos. Somos cerca de 750 trabalhadores e temos uma missão de serviço público. Enquanto diretor, coloco-me ao serviço de uma partitura histórica que já existe e com a qual, além do mais, concordo plenamente: garantir um acesso democrático a obras de grande exigência artística e de grande qualidade. É também um festival descentralizado. Não acontece numa capital, mas numa cidade de cerca de 90 mil habitantes que, ainda assim, durante um mês, se transforma na capital mundial do teatro e acolhe um dos maiores festivais do mundo. Estar ao serviço deste projeto já é muito mais importante do que deixar uma marca pessoal. No entanto, quando cheguei ao festival havia desafios muito concretos. Era preciso recuperar a sua saúde financeira, algo que conseguimos fazer ao longo dos últimos quatro anos. Era também necessário alargar e renovar o público. Hoje podemos dizer que o público jovem cresceu, tal como cresceu o público economicamente mais vulnerável. Refiro-me, por exemplo, às pessoas beneficiárias de apoios da Segurança Social, cuja presença no festival aumentou. Também o público que necessita de acompanhamento ao nível da acessibilidade — seja por deficiência, dificuldades de mobilidade ou outras situações de vulnerabilidade — tem vindo a crescer. Nesse sentido, temos indicadores que mostram que o nosso público é hoje mais diversificado e que o trabalho democrático de aproximar do festival pessoas que antes podiam sentir que ele não lhes era destinado está a dar resultados. Isso não é uma marca, é uma conquista e, sobretudo, uma exigência que o festival deve continuar a fazer a si próprio: renovar permanentemente o seu público e garantir que aqueles que, sem o apoio do serviço público da cultura, dificilmente poderiam beneficiar desta experiência, possam participar nela. Depois, é também um festival muito mais presente no resto do mundo do que era há quatro anos. As digressões internacionais e também em França triplicaram nesse período. Produzimos espetáculos que hoje circulam muito mais, o que reforça a dimensão da diplomacia cultural, prolonga a vida das obras e permite que mais públicos as descubram. Tem igualmente um impacto económico positivo, porque essas digressões contribuem para a saúde financeira do festival e ajudam a reforçar cada nova edição. Acho também que é um festival que acentua hoje a sua dimensão internacional. Há mais programação internacional e um público internacional em crescimento, sem deixar de ser um festival estruturante para a criação francesa. Finalmente, diria que o Festival d'Avignon tem procurado afirmar-se como um guardião da liberdade de criação, numa época em que essa liberdade está, em muitos lugares, sob pressão, incluindo em França. O festival tem desempenhado um papel importante, tanto a nível nacional como internacional, na defesa da liberdade de criação e da possibilidade de os artistas trabalharem livremente, com os meios necessários para concretizarem as suas obras. É também para essa missão que procuro contribuir, com enorme convicção e prazer. E, naturalmente, continuam a existir grandes desafios.Quais são as prioridades para este segundo mandato?Eu julgo que a prioridade é dar continuidade ao trabalho de alargamento dos públicos. É muito importante que um público cada vez mais diverso, mas sobretudo os públicos mais vulneráveis e aqueles que estão mais distantes das práticas artísticas e da vida cultural, possam aceder ao festival. Sabemos que cerca de 15% do nosso público vem ao Festival d'Avignon pela primeira vez. Isso representa uma percentagem bastante superior à da maioria dos grandes festivais europeus e significa que somos uma porta de entrada na vida cultural para muitos jovens. Temos um programa que traz jovens ao festival pela primeira vez. Em 2023 eram cerca de cinco mil; quatro anos depois, são mais de dez mil. Queremos continuar a desenvolver este trabalho porque acreditamos que a primeira experiência no Festival d'Avignon pode transformar a relação de uma jovem ou de um jovem com o teatro, com a vida cultural e até consigo próprio, com a forma como se relaciona com o mundo. Acho que existe hoje uma prioridade evidente em relação à juventude e essa será uma das marcas do segundo mandato, até 2030. Vemos que há um problema profundo entre os mais jovens, que é também, em muitos casos, um problema de saúde mental, relacionado com os ecrãs, com o isolamento provocado pelas redes sociais, pelos smartphones e pela forma como essas tecnologias são utilizadas. Num festival como o de Avignon é preciso estar fisicamente presente. É preciso encontrar desconhecidos, estar em assembleia no teatro, participar em atividades de mediação, em ateliês e em workshops. Vemos como o festival funciona como um contraponto à enorme pressão exercida pelo mercado para que os jovens permaneçam isolados em frente a um ecrã, supostamente ligados ao mundo, mas muitas vezes afastados do contacto humano. Acho que aí temos um papel fundamental. É uma nova responsabilidade para as organizações culturais e encaramo-la com toda a seriedade. Consideramos que este será um dos caminhos mais importantes para os próximos anos.Outra prioridade é a liberdade de criação. Achamos que o Festival de Avignon deve continuar a ser um defensor da liberdade artística e de um serviço público da cultura que protege o risco criativo. Um serviço público que apoia artistas capazes de surpreender, de perturbar e até de correr o risco de chocar. Quando o Festival de Avignon continua a acompanhar esses artistas e lhes oferece os meios necessários para criarem espetáculos com ambição técnica, artística e de grande escala, está também a afirmar que essa criação complexa merece ser acessível a todas e a todos. Hoje existe, por vezes, uma pressão económica e ideológica para relegar a liberdade de criação para segundo plano, como se os grandes espetáculos, por terem grandes meios, tivessem de ser fáceis de consumir e como se as obras mais exigentes tivessem de ser reduzidas de escala para não incomodarem demasiado. Esse não é o papel do serviço público da cultura. O seu papel é garantir que ninguém diga a Pablo Picasso que tem de simplificar o Guernica para que seja mais facilmente consumido. Não. Picasso deve poder criar o Guernica em total liberdade. Depois, cabe ao serviço público encontrar formas de permitir que as pessoas tenham acesso a essa obra, como acontece hoje no Reina Sofía, onde Guernica é uma das obras mais visitadas. Não foi por alguém ter pedido a Picasso que simplificasse a sua pintura, mas porque se reconheceu que era uma obra que merecia todo o esforço para ser partilhada com o maior número possível de pessoas. É essa a perspetiva que queremos continuar a defender: tornar fácil o acesso àquilo que pode ser complexo. Porque essa complexidade é indispensável à criação artística e a criação artística precisa de liberdade para existir.É difícil conciliar a direção do Festival com a encenação? Já está a pensar num novo espetáculo?Estou sempre a pensar em novos espetáculos e nunca me queixo da necessidade de conciliar a direção de um festival como o de Avignon com a criação artística, tal como nunca me queixei de dirigir o Teatro Nacional D. Maria II e, ao mesmo tempo, criar espetáculos. Fui artista independente durante muito tempo, com a minha companhia, o Mundo Perfeito. Conheço bem o que significa ser um artista independente em Portugal. Posso assegurar que é muito mais difícil ser um jovem artista à procura de meios para criar espetáculos e encontrar obstáculos para os concretizar do que ser um artista que dirige um festival como o de Avignon e que, em paralelo, continua a criar. A minha é uma situação muito mais privilegiada. Isso não significa que não exista uma grande carga de trabalho, porque existe. Mas é uma carga de trabalho que escolhi e que desempenho num contexto em que também tenho a possibilidade de continuar a praticar o meu trabalho artístico. Por isso, nunca me queixo. Não considero que seja particularmente difícil. Pelo contrário, acho que esta é uma das grandes aventuras da minha vida e, provavelmente, a mais bela aventura artística que vivi até hoje. . Qual foi o ponto de partida para La Distance, que vem agora para a Culturgest, em setembro?Foi precisamente o título, a ideia de distância. Nas primeiras conversas com o ator que interpreta a peça, Adama Diop, com quem eu já tinha trabalhado em O Cerejal, que criei em 2021 no Festival d'Avignon, começámos a falar sobre isso. O Adama trabalha em França desde muito jovem, embora seja senegalês e, portanto, seja ele próprio um imigrante. Falávamos do que significa a distância em relação às nossas famílias, à parte da nossa família que permanece no país de origem quando trabalhamos noutro país. E falávamos também da distância que, sendo ambos pais, por vezes se cria na relação com os filhos, por causa da diferença de gerações e das diferentes formas de olhar para o mundo. A partir dessas conversas, e com a vontade de voltarmos a trabalhar juntos, começámos a perceber que havia qualquer coisa na ideia de distância que nos interessava explorar. A certa altura, propus esta ideia de uma história distópica, passada num futuro próximo, em que uma filha parte para Marte, integrada num projeto de colonização do planeta, enquanto o pai permanece na Terra, que se vai tornando cada vez mais difícil de habitar. A questão era perceber como seria a relação entre ambos à distância. Muitas vezes, quando pensamos em ficção científica, pensamos nos grandes temas: o futuro do planeta, a guerra, a organização da sociedade ou da humanidade. A mim interessava-me pensar também nessas questões, mas sobretudo no que acontece à família, à célula familiar. O que acontece ao amor entre um pai e uma filha quando esse amor tem de ser vivido entre planetas diferentes? O que acontecerá à espécie humana e à forma como vivemos os nossos afetos se, um dia, estivermos divididos entre diferentes planetas? . É claro que existe uma dimensão metafórica. É uma peça de antecipação, que imagina um futuro próximo para falar das questões do presente. No fundo, fala de algo muito universal: aquele momento em que surge uma nova distância entre um pai e uma filha — ou entre uma mãe e uma filha, uma mãe e um filho, ou qualquer progenitor e os seus filhos. É o momento em que a filha ou o filho seguem o seu próprio caminho, que nem sempre coincide com o caminho que os pais imaginaram para eles. E a pergunta é: qual é o lugar do amor nesse momento? Aqui, essa situação é levada ao extremo. É um pai na Terra e uma filha em Marte. Mas, na verdade, vivem uma distância que muitos pais e filhos já experimentam hoje, em 2026, quando o pai está na sala e a filha está no quarto e ambos têm a sensação de habitar planetas diferentes. É, acima de tudo, uma peça sobre o amor filial, sobre o amor entre um pai e uma filha e sobre aquilo que a distância faz ao amor.Escreveu em português, ou já escreve em francês?Escrevo sempre em português. Acho que, eventualmente, hoje teria competência para escrever diretamente em francês, mas não sentiria a mesma liberdade na manipulação das palavras que sinto quando escrevo em português. Dou sempre o mesmo exemplo: se eu escrever em francês, vou cometer erros, mas esses erros não são propositados. Quando escrevo em português, se houver um erro, ele é de propósito. E, nesse caso, já não se chama erro: chama-se poesia, chama-se transgressão poética. Por isso, escrevo sempre em português e trabalho com um tradutor, que é o mesmo há mais de dez anos: Thomas Resendes, um luso-descendente, também ele encenador e autor de peças em França, que me acompanha em todos os processos e conhece muito bem o meu trabalho. Ele traduz quase em tempo real. Escrevo de manhã e, ao final do dia, já temos o texto traduzido. É um processo muito colaborativo, no qual participam também os atores, neste caso Adama Diop e Alison Dechamps, que discutiam muito a tradução e pediam frequentemente que eu lhes explicasse, em português, exatamente o que queria dizer. Há, portanto, um trabalho profundamente colaborativo, porque eu escrevo durante os ensaios e escrevo para os atores que estão à minha frente. A partir do ensaio de um dia, escrevo a cena para o dia seguinte e trabalho muitas vezes até muito tarde durante esse período. Ter essa possibilidade de escrever em português e de ver o texto traduzido praticamente em tempo real é um privilégio. Mesmo quando trabalhei com a Comédie-Française, uma das grandes companhias de teatro francesas, escrevia sempre em português e o texto ia sendo traduzido à medida que avançávamos. Escrever em português permite-me manter um contacto muito mais íntimo com a matéria da linguagem e com aquilo que quero exprimir através do texto. Depois, há um segundo momento, igualmente criativo, que consiste em discutir como é que tudo isso pode ser transportado para outra língua, neste caso o francês.'La Distance' vai ser apresentada em francês, na Culturgest. A língua não é uma barreira?Não, sobretudo não é uma barreira em Portugal. Felizmente, estamos habituados, desde muito novos, a ler legendas, seja na televisão, seja no cinema. Por isso, assistir a teatro em francês com legendas em português é uma prática absolutamente habitual. Aliás, o facto de o espetáculo ser falado em francês não impediu que os bilhetes para as apresentações na Culturgest esgotassem em apenas uma ou duas horas. Acho que existe, há muitas décadas, uma grande apetência do público português por teatro noutras línguas. É também uma prova da abertura do público português, nomeadamente do público de Lisboa, que está muito habituado a assistir a espetáculos em diferentes idiomas. Este espetáculo tem sido apresentado em vários países, tal como aconteceu com outros espetáculos que criei, em francês ou em português.Também em setembro, leva a peça Catarina e a Beleza de Matar Fascistas ao National Theatre, em Londres, e será apresentada em português...É a primeira vez que um espetáculo em língua estrangeira é apresentado no National Theatre. Até hoje, nunca ali tinha sido apresentado um espetáculo que não fosse em inglês. Também aí vimos os bilhetes para todas as apresentações esgotarem em apenas uma hora. Trata-se de um espetáculo em português, de um artista que se apresenta pela primeira vez naquele teatro. Isso mostra que existe uma grande apetência por este tipo de propostas. E, no caso de Inglaterra, não se pode dizer que exista o mesmo hábito que nós temos, em Portugal, de ler legendas ou de assistir a espetáculos noutras línguas. O mesmo acontece, em certa medida, em França, onde durante muitos anos predominou a dobragem, mesmo no cinema. Hoje isso começa a mudar e o público está cada vez mais habituado às legendas. Mas, em Portugal, essa nunca foi uma questão. Não constitui, de todo, um obstáculo.Como é que se proporcionou levar o Catarina e a Beleza de Matar Fascistas para o Teatro Nacional de Londres?A equipa do National Theatre viu o espetáculo em digressão, interessou-se muito por ele e começou um diálogo connosco para o apresentar em Londres. Esse diálogo continuou quando apresentei o meu monólogo By Heart, em 2025, em Londres [no Battersea Arts Centre]. Foi nessa altura que surgiu o convite para Catarina e a Beleza de Matar Fascistas ser apresentado no National Theatre.Tem um significado especial?Tem, tem um significado especial. Desde logo porque Londres é uma cidade autossuficiente em termos de teatro. É uma das cidades que mais teatro produz no mundo e não tem, necessariamente, o hábito de convidar muitos espetáculos estrangeiros. Por isso, sermos escolhidos pelo National Theatre para apresentar um espetáculo estrangeiro — e, neste caso, o primeiro espetáculo em língua não inglesa a integrar a programação deste teatro, que existe desde os anos 1960 — dá-nos um sentimento de reconhecimento e também a sensação de nos inscrevermos na história daquela instituição. É também uma ocasião rara para o teatro português. Não é frequente um espetáculo em língua portuguesa ser apresentado em Londres e, nesse sentido, sinto-me muito feliz por este trabalho, que é fruto de um esforço coletivo, poder também representar um coletivo mais amplo. De certa forma, representa o teatro português e pode despertar curiosidade em relação a outros artistas portugueses. Isso deixa-nos muito felizes, porque sentimos que estamos, de algum modo, a representar um universo maior do que o nosso. Para mim, pessoalmente, tem também um significado muito especial. Sempre admirei o National Theatre. Desde que comecei a ter alguma possibilidade de viajar para ver espetáculos, fui muitas vezes a Londres e vi ali várias produções. Por isso, apresentar um espetáculo naquele palco é uma honra muito grande. .Acho que também para toda a equipa este é um momento especial, sobretudo porque se trata de um espetáculo que existe há seis anos. Continuará ainda em cena durante mais algum tempo, mas aproxima-se naturalmente do fim do seu percurso. Já teve uma vida muito longa: é um espetáculo que tem estado constantemente em digressão durante mais de seis anos, o que constitui uma conquista muito significativa no contexto do teatro português. Ver que, naquela que será provavelmente a última fase da vida deste espetáculo, ele será apresentado em Londres e, pouco depois, em Los Angeles [na UCLA em fevereiro de 2027], é perceber que continuam a existir razões para acreditar no teatro português e que a curiosidade internacional pelo trabalho dos nossos artistas pode continuar a crescer nos próximos anos. É uma vida muito bonita para este espetáculo e estamos profundamente felizes por isso.E acabará a carreira em Los Angeles, ou poderá ainda continuar?Ainda não decidimos quando serão as últimas representações. Sabemos que o espetáculo continuará em digressão durante a temporada de 2026-2027. Portanto, estará em circulação pelo menos até ao verão de 2027. Estamos agora a decidir quando e onde faremos as últimas apresentações de Catarina e a Beleza de Matar Fascistas. Entretanto, o texto começa também a ser montado por outros encenadores noutros países, nomeadamente na Alemanha, na República Checa e, provavelmente, no Brasil. É um texto que terá a sua própria vida através de novas encenações, com outros artistas e outros elencos. Quanto a esta criação original, julgo que terá ainda mais um ano, talvez um ano e meio, de percurso. Ainda não decidimos como lhe vamos pôr um ponto final, porque gostaríamos que esse momento tivesse também um valor simbólico. Muito provavelmente, gostaríamos de terminar este percurso em Portugal, se tudo correr bem. .Pedro Penim: “Estou a fazer exatamente aquilo que quero. Mas sei que não será consensual” .Diogo Infante: "Não sinto uma presença forte do D.Maria II no meio teatral. Há projetos mais interessantes"