Ti Milha. Há um festival de verão para famílias numa aldeia do concelho de Pombal

Desde as crianças aos idosos, o programa pensou em todos. Dois anos depois da paragem forçada pela pandemia, o Ti Milha regressa em modo internacional, diverso e sustentável. Uma história de bairrismo e amor à terra, a aldeia de Ilha.
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Numa aldeia do concelho de Pombal onde moram menos de 1000 pessoas, acontece este fim de semana um festival de música, artes e costumes que mobiliza toda a comunidade. E é essa que espera por milhares de visitantes, com um programa feito à medida de todos: famílias, crianças e idosos, gente que gosta de música popular e tradicional, pop, rock, ou outro género qualquer. Há de tudo no Ti Milha, o festival que nasceu em 2016, pela mão da ARCUPS, a Associação Recreativa e Cultural de Promoção Social, integrada por um punhado de jovens da terra. A partir desta sexta-feira e até domingo, acontecem concertos, workshops, tertúlias e experiências várias, num parque de lazer que abraça a aldeia de Ilha.

"O Ti Milha encerra em si mais do que um festival de verão, representa uma identidade própria do que somos aqui na Ilha, do espírito artístico e comunitário da população, que procura promover o acesso à cultura nas suas mais variadas expressões", conta ao DN David Gomes, 30 anos, presidente da direção da ARCUPS há mais de meia dúzia. Anda atarefado na montagem de palcos e instalações várias, uma delas muito particular, porque envolve a arte do bracejo. Estamos na terra das capacheiras, avós da maioria dos rapazes e raparigas da associação, e que no domingo hão de estar no recinto do festival a ensinar como se faz(em) capachos, cestinhos, alcofas e outros. Ao final desse dia, o projeto Omiri, de Vasco Ribeiro Casais - que as descobriu em 2020 - haverá de lhes render homenagem, colocando-as no palco. principal.

Não admira por isso que tenham sido elas as fundadoras de uma das várias associações da antiga freguesia da Ilha (hoje parte da União de Freguesias da Guia, Ilha e Mata Mourisca), a Cooperativa de Cestinhos. Aliás, esta será a zona do concelho de Pombal onde mais coletividades pululam. E onde se respira associativismo, cultura, desporto, bairrismo talvez, ou espírito comunitário. Foi ali que nasceu há décadas um grupo de música popular, os Semibreves, que também tem espaço no festival. Como tem igualmente lugar o rancho folclórico, "e toda a gente.

Não há ninguém que venha ao festival e que se sinta deslocado, em momento algum", garante David Gomes, enquanto desfia a história deste festival, e regressa a 2016: a Arcups já organizava umas noites de verão no parque de merendas da aldeia, quando Vítor Couto, conhecido proprietário de um café-restaurante da terra, teve a ideia de organizar um festival. Na Ilha, como de resto em muitas aldeias do país, " a partir de uma certa idade todas as mulheres passam a ser chamadas de "Ti qualquer coisa", sejam elas tias ou não. E aqui na nossa terra, as Emílias, são Ti"Milha. E foi daí que veio o nome do festival", conta ao DN David Gomes.

Com o passar das edições, o evento tem vindo a crescer e afirmar-se em diversos campos, como o da sustentabilidade. Ainda assim, "o conceito continua a ser o de base, o mesmo que nos fez nascer, desde o primeiro ano: trazer projetos diferentes, que pusessem a malta a dançar, sem reservas; não interessava o género, mas interessava que as pessoas se sentissem [todas] identificadas. E que quem viesse à nossa aldeia se sentisse bem connosco. E visse a nossa forma de viver, muito inter-geracional".

Este ano em particular nada foi deixado ao acaso. Para lá das atividades para as crianças, já extra-cartaz a organização pensou também numa atividade para os idosos dos Lares, já que esses não poderiam participar nos dias do festival.

"Quem olha para o cartaz pode pensar que é para um público mais jovem. Mas mesmo as pessoas mais velhas, se vierem à noite, com o espírito que construímos vão sentir-se aqui perfeitamente integrados", sublinha este responsável pela organização.

"O que queremos é que quem vem à Ilha se sinta parte da terra. Que dance connosco e se divirta connosco", afirma David, enquanto alerta para a importância desse lado sustentável do festival, um dos primeiros no país a apostar na caneca única, numa altura que só o Andanças o fazia. "Hoje já muitos eventos o fazem, mas naquela altura era uma inovação. E fazê-lo aqui, no meio de uma aldeia como a nossa, em que estava tudo habituado a beber finos em copos de plástico, não foi fácil".

Nesta edição de 2022, dois anos depois do interregno da pandemia, o Ti Milha estreia as suas primeiras bandas internacionais e vai contar com os seguintes nomes como Throes + The Shine, Hypnolove (FR), África Negra (STP), Baleia Baleia Baleia, Motherflutters, Omiri, Inês Apenas, Yazukee, Hypnolove,Balboas Connection, entre outros. Um festival de curtas (Mov"Ilha), exposições de fotografia, pintura, workshops de modelagem e crochet, danças tradicionais e muitas outras outras vão passar pela Ilha ao longo deste fim de semana. Os bilhetes (para sexta e sábado, o domingo é de entrada livre) custam 7 e 10 euros, respetivamente.

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