The Walking Dead - O pesadelo coletivo

Começou como a adaptação de uma banda desenhada e transformou-se num fenómeno global: a série televisiva The Walking Dead resistiu mais de uma década. A 11.ª temporada chega a Portugal no dia 23.

Em junho de 2014, poucas semanas depois da conclusão da quarta temporada de The Walking Dead, durante um debate organizado pela Producers Guild of America, David Alpert, um dos produtores executivos da série, surpreendeu tudo e todos quando deixou uma previsão sobre o seu futuro. Segundo ele, a banda desenhada homónima sobre um mundo apocalíptico, povoado de zombies, constituía uma inspiração extraordinária, de tal modo que seria possível manter a série por muitas temporadas: "Mais especificamente, temos uma ideia muito precisa sobre o que vai ser a 10ª temporada". E acrescentou: "Temos linhas de referência para as 11ª e 12ª temporadas..."

Pois bem, é tempo de reconhecer que Alpert não estava a exagerar: a 11ª temporada está mesmo a chegar, com um atraso de quase um ano em relação ao calendário inicial devido à conjuntura pandémica. O primeiro episódio poderá ser visto no próximo dia 22, nos EUA; em Portugal, o canal Fox anuncia-o para o dia seguinte, 23, com duas passagens: às 02h30 e às 22h15.

Seja como for, não haverá 12.ª temporada - desta vez, é mesmo para acabar... Serão 24 episódios, divididos em conjuntos de oito, com a primeira parte a terminar a 10 de outubro; as datas das duas partes restantes ainda não são conhecidas, embora tudo deva estar concluído ao longo de 2022. Angela Kang, atual produtora principal da série, responsável pelo argumento de mais de duas dezenas de episódios, mostrou-se otimista na apresentação no primeiro trailer da temporada final, em abril passado, recusando qualquer efeito de rotina: "A fasquia estará muito alta - vamos ver mais zombies, ação avassaladora, novas histórias intrigantes, cenários nunca utilizados e todos os nossos grupos vão estar pela primeira vez reunidos numa única comunidade, tentando reconstruir aquilo que os Whispereres lhes roubaram."

Na verdade, algo de essencial mudou quando, na nona temporada (2018-19), a série introduziu a comunidade dos Whispereres (à letra: "aqueles que sussuram"; ou, num sentido tribal e religioso, "os encantadores"). Comandados por Alpha, a mulher de cabelo rapado interpretada por Samantha Morton, os Whispereres distinguem-se pela adoção de uma violência brutal em relação a todos os outros grupos, mas a sua identidade define-se a partir de uma componente única neste universo visceralmente trágico: mascaram os rostos com as peles que extraem dos corpos dos próprios zombies, numa duplicação perversa do seu comportamento errático - conseguem mesmo caminhar lado a lado com os zombies, sem serem atacados... Se os zombies são os "mortos que caminham" (Walking Dead), os Whisperers sobrevivem como "vivos que caminham".

Zombies & etc.

Esta seita de humanos que resistem aos zombies disfarçando-se de zombies revelou-se, no plano dramatúrgico, uma frutuosa invenção. Desde logo, porque permitiu contornar alguma rotina em que a série corria o risco de estagnar; depois, porque potenciou uma viragem decisiva no próprio universo dramático de The Walking Dead.

Assim, a pouco e pouco, os zombies não desapareceram (longe disso, até porque os respetivos efeitos especiais foram sendo cada vez mais sofisticados), mas passaram a existir como uma espécie de assombramento global: a sua ameaça tornou-se o pesadelo coletivo que, em última instância, determina as relações de poder entre os diversos grupos humanos.

Tudo começou com os resistentes liderados pelo xerife Rick Grimes, papel que garantiu ao ator Andrew Lincoln o estatuto de estrela televisiva planetária. A sua "solidão" face aos zombies viria a ser transfigurada pelo aparecimento de novas comunidades. Primeiro, foi o grupo do "Governador" (David Morrissey) nas terceira e quarta temporadas; depois, veio o abalo de Negan, líder hiper-violento, afinal uma ameaça que "veio para ficar" - sabe-se que, de uma maneira ou de outra, estará presente na 11.ª temporada, confirmando o seu intérprete, Jeffrey Dean Morgan, como outro dos rostos universais da saga. Aliás, Negan pode servir de eloquente ilustração de um célebre axioma cinematográfico que Alfred Hitchcock gostava de aplicar: "Quanto melhor for o vilão, melhor é o filme".

Nos últimos tempos, não têm faltado as hipóteses de paralelismos "premonitórios" da série em relação à covid-19... Há uma evidente sedução nessa renovada ideia da ficção como algo que "antecipa" a realidade que vivemos, mas convenhamos que tal sugestão não é mais nem menos pertinente do que a evocação de muitos filmes sobre a humanidade face a ameaças virais, de A Ameaça de Andrómeda (1971), de Robert Wise, inspirado no romance de Michael Crichton, até Contágio (2011), de Steven Soderbergh.

Sem esquecer, claro, que a inspiração da série não é estranha a toda uma tradição do género de terror que pontua as mais diversas cinematografias, de Hollywood à produção asiática. Lembremos apenas dois títulos cujas matrizes têm sido infinitamente exploradas: I Walked with a Zombie (título português: Zombie), objeto típico da produção de série B, lançado em 1943, assinado por um dos seus mestres, Jacques Tourneur; e A Noite dos Mortos-Vivos, de George A. Romero, filme de 1968 que, por assim dizer, definiu o cânone da "era moderna" dos zombies (sendo Romero, precisamente, um dos seus mais empenhados criadores).

Que está, então, em jogo? Na prática, uma viragem simbólica que faz de The Walking Dead um objeto bem diferente dos clichés do terror (sobretudo cinematográfico) que, nas últimas décadas, têm saturado os ecrãs de todo o mundo. Estamos perante uma ficção apocalíptica enredada num sugestivo paradoxo: por um lado, os sinais quotidianos pertencem a um tempo vagamente futurista, mas em tudo e por tudo próximo do nosso presente; por outro lado, a lógica narrativa está marcada pelas tensões (individuais e coletivas) típicas de um western. Afinal de contas, Rick é mesmo um xerife. Um dos posters de lançamento da série propunha um magnífico arranjo simbólico: numa auto-estrada com uma grande metrópole em fundo (mais ou menos "novaiorquina"), estão parados centenas de veículos; do lado oposto da auto-estrada, sozinho, não num automóvel, mas no seu cavalo, Rick segue em direção à cidade.

Uma série e uma franchise

Com a evolução da série, os "mortos que caminham" deixaram mesmo de ser os únicos monstros que ameaçam a vida humana, já que os seres humanos, não poucas vezes, rivalizam com a sua brutalidade. Num dos mais extraordinários momentos de toda a série (10.ª temporada, episódio 19), Aaron (Ross Marquand) tenta convencer o padre Gabriel (Seth Gilliam) que a violência dos Whispereres não reflete o que são as outras pessoas, ao que Gabriel responde: "As pessoas más não são a exceção à regra. São a regra."

Nada disso é estranho ao espírito da banda desenhada The Walking Dead surgida em 2003, escrita por Robert Kirkman, primeiro com desenhos de Tony Moore, depois Charlie Adlard. E o mínimo que se pode dizer é que os zombies vieram para ficar, já que o conjunto de ramificações que foi sendo gerado é francamente impressionante.

Escusado será sublinhar que o lançamento da primeira temporada da série, a 31 de outubro de 2010, veio ampliar de forma espetacular as potencialidades expressivas do universo de The Walking Dead - em linguagem de gestão financeira, criou uma franchise. E nem mesmo as convulsões legais motivadas pelo descontentamento do primeiro produtor da série, Frank Darabont, impediram que tal franchise se consolidasse.

Na altura já consagrado graças a dois filmes baseados em Stephen King - Os Condenados de Shawshank (1994) e À Espera de um Milagre (1999) -, Darabont foi responsável pelo chamado "desenvolvimento para televisão", realizou o episódio piloto e colaborou em argumentos de vários episódios da primeira temporada. A meio da segunda temporada, Darabont afastou-se, considerando que a entidade produtora, o canal AMC, não estava a pagar-lhe a percentagem de lucros que lhe era devida. O caso foi-se arrastando nos tribunais, tendo chegado a uma conclusão apenas este ano, em meados de julho: segundo a revista Forbes, Darabont vai receber 200 milhões de dólares.

Hoje em dia, The Walking Dead é um labirinto de títulos ou, como dizem os profissionais do marketing, "produtos". A começar pelas derivações também em forma de série: Fear the Walking Dead (a sétima temporada arranca este ano, em outubro) e The Walking Dead: The World Beyond (com segunda temporada também a partir de outubro). Entretanto, para lançamento em 2023, está em desenvolvimento uma série ainda sem título, centrada em duas das personagens principais, Carol e Daryl, interpretadas, respetivamente, por Melissa McBride e Norman Reedus. Andrew Lincoln deverá reaparecer em pose de xerife, mas agora em cinema - o projeto inicial, anunciado em 2018, previa três filmes centrados na figura de Rick Grimes.

Se acrescentarmos a tudo isto as séries para a internet, os videojogos, os brinquedos e até um parque temático (situado na região de Surrey, Inglaterra), poderemos dizer que The Walking Dead é, de uma só vez, uma ficção apocalíptica e um dos mais fortes conceitos contemporâneos de espectáculo. Como em qualquer tragédia clássica, vogamos, entre fascínio e inquietação, tentando compreender as razões da regra e os poderes da exceção. Com uma nuance que vale a pena referir: falamos dos zombies de The Walking Dead, mas por uma opção que vem da BD de Kirkman há uma palavra que nunca é usada nestas histórias. Qual? Zombie.

dnot@dn.pt

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