Stan Lee vai sobreviver à estratégia Marvel?

O crítico de cinema Rui Pedro Tendinha faz previsões sobre o futuro do legado do criador dos super-heróis mais emblemáticos da Marvel, Stan Lee, que morreu ontem.

A teoria não é só minha e tem dois ou mais dedos de disparate. Como sabemos, daquele disparate que faz sentido. Stan Lee é o homem que mudou a face dos blockbusters em Hollywood? Não sei, mas temo que sim. O sucesso recente da estratégia Marvel em criar o MCU (os fãs sabem que quer dizer Marvel Cinematic Universe), o tal universo que permite que o Homem-Aranha possa ficar amigão do Iron Man e que todas as histórias de diversas galáxias se cruzem, é bem possível que tenha criado um monstro de máquina de Hollywood que arruinou por completo uma outra ideia de produção. Os filmes de chamado alcance médio começaram a ficar na prateleira (compensa mais produzir com grande orçamento e sempre com a mesma fórmula) e tudo, a nível de filmes de super-heróis, começou a ficar igual, ao ponto da rival DC Comics decidir fazer o mesmo com o seu património de Super-Homem, Batman e companhia.

Não é preciso ser um especialista da indústria de cinema americano para perceber que o sucesso (esmagador) dos filmes da Marvel Studios fizeram retroceder a idade mental de um produto de entretenimento de Hollywood. A tal máquina dos milhões começou a fazer filmes com fórmulas onde os efeitos visuais são mais banais, mais barulhentos e, sobretudo, mais acriançados. Dizer isto, em hora de luto, pode parecer mal mas essa implementação de formato ou fórmula era tudo menos responsabilidade de Stan Lee. Kevin Feige, produtor e presidente da Marvel, esse sim, é que tornou tudo tão igual, sobretudo nos filmes dos Vingadores, onde quase não sinto diferenças entre o Capitão América e o Thor.

O meu grande elogio a Lee é que muitas vezes os seus "cameos", aquelas divertidas presenças fugidias como figurante, nos filmes da Marvel eram, muitas vezes, o melhor dessas longas sessões de obras onde o próprio espírito dos "comics" era triturado e alisado segundo as ordens industriais. E é claro que os cineastas que pegam nesses filmes inspirados nas criações de Lee diziam-se fãs. Fãs que adulteravam a pureza do que estava na banda-desenhada.

Quem escreve isto não está contra tudo o que a Marvel faz. Gostei de Black Panther, onde se provava que Stan Lee foi progressista na tentativa de denunciar o racismo na América (já era inovador nos quadrinhos de X-Men por fazer metáforas com os mutantes e a segregação das culturas de massas) e apoio com veemência a força da farsa de títulos como Deadpool ou Guardiões da Galáxia. Cheguei também a apoiar alguma da inocência como Sam Raimi filmou Spider-Man.

Este Walt Disney da Pop Culture, que muitos pensavam que iria viver para sempre, criou um imaginário maior do que ele, maior do que a própria comunidade de "geeks" de BD que lhe deu a fama. Vai ficar eterno, por muito cliché que possa parecer.

Há uns anos, numa conversa que tive com os manos Russo, num encontro em Londres quando estes cineastas apresentavam o último Capitão América, diziam-me que a importância de Lee é tão grande ou maior com os irmãos Grimm. Tinham toda a razão, escusavam é de fazer filmes tão atafulhados de normas e aparato vazio.

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