O nome do Sr. Engenheiro que dá título ao musical da UAU ainda não foi revelado, mas certo certo é que o espetáculo nasceu do caso Sócrates. Anunciado pela produtora em novembro do ano passado, os ensaios só começam na próxima segunda-feira e a estreia no Teatro Tivoli, em Lisboa, está prevista apenas para 1 de abril, dia das mentiras, e não por acaso. Ontem, a produtora reuniu argumentista, encenador, diretor musical, cenógrafa e o ator que fará o papel do Sr. Engenheiro - o humorista Manuel Marques -, e o restante elenco, que divulgaram mais informação sobre este projeto que partiu de Henrique Dias, o argumentista da série da RTP Pôr do Sol que trabalhou também no programa Contra Informação. Ele estava a ver televisão quando teve a ideia de produzir um espetáculo inspirado em José Sócrates. “Ele estava nas nossas vidas há tanto tempo e o humor funciona dessa maneira, ou seja, por identificação, e tive esta ideia estranha de fazer um musical sobre isto, e nesse momento liguei ao Paulo Dias [da produtora UAU], disse-lhe que estava a ver o caso Sócrates e que achava que tinha potencial para ser um musical. Do outro lado, um silêncio de dois minutos”, recorda Henrique Dias.Paulo Dias ligar-lhe-ia no dia seguinte com ordem para avançar. Diz o líder da UAU que o compasso de espera se deveu apenas ao tempo que precisou para falar com o resto da equipa. Isto foi há dois anos e entretanto outras pessoas entraram no projeto, nomeadamente Rui Melo, encenador da peça e autor da música em conjunto com Artur Guimarães. Diz Henrique Dias que a história “começa com o personagem que emerge das Beiras, inspirado no José Sócrates, vamos assumir isso, e termina no início do julgamento. Portanto, deixamos aqui em aberto a hipótese de Sócrates musical parte II ou III...” (risos). A dificuldade foi dar a história por terminada, porque os acontecimentos em torno do processo do ex-primeiro-ministro continuam a alimentar telejornais. “O que me interessou, e ao Rui também, foi a parte cómica. Há um julgamento a decorrer, mas isso é para os tribunais, qualquer juízo moral é feito na cabeça de cada um de nós, o que as pessoas vão ter que fazer quando entram naquela sala é estabelecer um contrato de que estão a ver uma peça de ficção e de que estão ali para se divertir. Não temos necessidade de fazer qualquer tipo de julgamento, não é essa a nossa função, estamos aqui para pôr pessoas dentro de uma sala a rir do retrato satírico e social da nossa classe política”, sublinha o argumentista. . Sem revelar muito, adiantam que neste musical, além do Sr. Engenheiro, haverá o melhor amigo, uma ministra, um advogado, uma assessora, uma procuradora, uma filha, uma ex-mulher, quatro ex-namoradas, jornalistas, um motorista, um rapaz que entrega pizzas... Os factos, dizem, “são todos públicos e notórios” e foram o ponto de partida para “o exagero, para a hipérbole” e para o “absurdo da realidade”.O espetáculo não visa “influenciar o que quer que seja” do processo Sócrates, garantem. “Não pretendemos fazer um espetáculo político, um manifesto político. É um espetáculo sobre ser português, sobre o que é na sua essência a Portugalidade”, afirma Rui Melo. E a maneira como nós cidadãos reagimos aos acontecimentos também está retratada, revela Henrique Dias. “Não acreditávamos, estávamos incrédulos, assustados, isto envolve-nos, o retrato da sociedade em relação ao fenómeno que se passou”. Questionados sobre um eventual processo da parte de José Sócrates contra o espetáculo, defendem a liberdade de criação artística consagrada na Constituição da República. “Estamos na plenitude desse direito, não nos passa pela cabeça que isso possa acontecer, entretanto, dado o caráter litigioso da pessoa na qual nos inspiramos, se isso acontecer, cá estaremos, mas neste momento não nos faz sentido um pensamento desses, porque estamos a trabalhar puramente no campo da ficção e humor. Isto não é jornalismo, não temos nenhuma obrigação com os factos, nem queremos ter”, diz Henrique Dias.O argumentista considera que nunca como agora esta questão dos processos se colocou em Portugal. “Surgiu nos últimos tempos, vivemos numa sociedade em que tínhamos Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Bordalo Pinheiro, tivemos o Contra Informação, e nunca em Portugal a questão dos processos se colocou. Isto agora é um problema, as pessoas quando estão a criar, tanto eu como argumentista, como o Rui como encenador, eles como atores, começamos a olhar para isto. Não é um bom sinal da saúde da nossa sociedade.”"A nossa sociedade sempre teve essa tradição de liberdade. Eu trabalhei nas Produções Fictícias, onde era feito o Contra Informação, e era exatamente o contrário, umas pessoas gostavam, outras não gostavam, mas nunca tiveram a veleidade de dizer ‘vamos pôr um processo’. Acho que estamos a criar um momento na sociedade portuguesa que não é nada bom para o panorama artístico, para os criadores”, acrescenta. Mas, se era para fazer “meio a medo”, mais valia ficar quieto. Por isso, diz, o musical “vai ter uma grandiosidade que o tema pede. Se fosse uma coisa encolhida e envergonhada acho que não estávamos a fazer bem o nosso trabalho”. A promessa é de um "cenário extraordinário que vai surpreender, e Marta Carreiras, responsável pela cenografia e figurinos, descreve o musical como "uma loucura de velocidade, de movimento, de cor, de expressão, o tempo todo, até ao fim".Musicalmente, será "uma viagem por vários estilos, não há uniformidade, o estilo musical será muito amplo, desde o clássico musical ao rap", diz Rui Melo. A música será tocada ao vivo, com Artur Guimarães a dirigir e ao piano, Tom Neiva na bateria, André Galvão no baixo, João Valpaços no violoncelo, Marcelo Cantarinhas na guitarra e Inês Nunes ou Carlos Domingues na viola d'arco. O musical, afirma Paulo Dias, é um dos projetos mais importantes da UAU deste ano, mobilizando uma equipa de 30 pessoas e um investimento de 600 mil euros, acima do valor habitual para este tipo de espetáculos. Do elenco, além de Manuel Marques, fazem parte Alexandre Carvalho, Brienne Keller, Jorge Mourato, Marta Andrino, Miguel Raposo, Samuel Alves, Sílvia Filipe, Sissi Martins e Rita Cruz. .Manuel Marques já fez de Sócrates em sketches do programa Donos Disto Tudo, mas num musical o registo é diferente e "vai ser um Sócrates que vai cantar, que vai dançar", o que torna o papel mais exigente, diz o humorista ao DN. "Dançar é onde vou ter que trabalhar mais, vou ter que fazer muito trabalho de casa". O ator sabia que ia participar no musical, só não sabia que ia ser o Sr. Engenheiro, pois as personagens estavam todas em aberto. "Tenho um misto de sensações, quero fazer e não quero fazer. Primeiro pensei, é uma responsabilidade enorme, espero que não me calhe a mim, mas espero que calhe a mim" (risos), diz Manuel Marques."Já estou muito batido na personagem do Sócrates, mas estava com medo, não da peça em si, como dissemos, não há medo, na comédia não tenho medo de fazer nada, de facto vivemos uns tempos em que as coisas tornaram-se perigosas, mas não vou para este projeto com medos, senão não nos divertíamos, não tinha graça e não seria um grande espetáculo", acrescenta o humorista. .O Sr. Engenheiro estará em cena no Teatro Tivoli em Lisboa de 1 de abril a 10 de maio, e no Coliseu do Porto de 1 a 17 de maio. Paulo Dias diz que José Sócrates será convidado para o espetáculo - "não sei se virá". .Bailado contemporâneo numa sala “fora da caixa”: 'CASA' estreia no Capitólio."Sr. Engenheiro, alegadamente um musical" estreia a 1 de abril e é inspirado na vida de José Sócrates