Se pensarmos em filmes com componentes de propaganda política, como O Couraçado Potemkine (1925), de Sergei Eisenstein, ou O Triunfo da Vontade (1935), de Leni Riefenstahl, encontramos um paradoxo com que não é fácil lidar: a retórica dos seus discursos ideológicos combina-se de forma espectacular com a ousadia experimental das respetivas narrativas. Podemos reencontrar tal dinâmica noutro clássico do “género” — Soy Cuba (1964), de Mikhail Kalatozov —, a partir de quinta-feira nas salas, para já em Lisboa (Cinema Ideal), Porto (Trindade) e Coimbra (Casa do Cinema). Estamos perante um filme de denúncia da ditadura de Fulgencio Batista e exaltação da revolução liderada por Fidel Castro, triunfante a 1 de janeiro de 1959. A sua produção resultou da aliança da Mosfilm, o maior estúdio da URSS, com o Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficas (ICAIC), fundado a 24 de março de 1959. Na altura, Kalatozov era um símbolo forte da produção soviética, sobretudo através de Quando Passam as Cegonhas, Palma de Ouro de Festival de Cannes de 1958. Que o “rótulo” político-ideológico corre o risco de viciar a compreensão do contexto em que nasce cada filme, prova-o, neste caso, o facto de Soy Cuba não ter sido bem recebido pelas autoridades políticas e culturais, tanto de Cuba, como da URSS. Porquê? Vale a pena recordar dois dados conjunturais. Assim, por um lado, as formas de repressão do regime de Fidel Castro começavam a desmanchar as ilusões utópicas da Revolução — durante décadas demonizado por muitas vozes críticas, Topázio (1969), de Alfred Hitchcock, foi um dos primeiros títulos a refletir tal evolução. Ao mesmo tempo, por outro lado, num processo de “reconversão” cultural iniciado no XX Congresso do PC soviético, em 1956 (quando Nikita Khrushchov denunciou os crimes da era estalinista), a produção cinematográfica da URSS procurava alargar o seu reconhecimento internacional — Quando Passam as Cegonhas foi um momento importante de tal processo, como seria Guerra e Paz, de Sergei Bondarchuk, Óscar de melhor filme estrangeiro referente a 1968. "Eu sou Cuba” Tendo como base um argumento escrito pelo poeta russo Yevgeny Yevtushenko e pelo escritor e cineasta cubano Enrique Pineda Barnet, Soy Cuba proclama o fulgor da identidade de um país libertado — “Eu sou Cuba” é dito, em off, pela voz da atriz Raquel Revuelta. É ela que faz o balanço das quatro histórias em que o filme se divide: primeiro, o retrato de uma jovem cubana que se prostitui num clube de Havana frequentado por americanos; depois, a saga de um agricultor cuja quinta é vendida a uma empresa dos EUA, desapossando-o da produção de cana do açúcar; em terceiro lugar, a tragédia de um estudante revolucionário que recebe a missão de matar um oficial da polícia; enfim, uma evocação épica da luta dos revolucionários da Sierra Maestra e da queda do regime de Batista. .Se nos lembrarmos da energia anímica de Quando Passam as Cegonhas, a começar pelos grandes planos dos rostos, diremos que Soy Cuba é um sofisticado prolongamento desse filme, em particular nas cenas em que a incrível movimentação da câmara tende a criar um espaço em que se cruzam inquietação e sensualidade — não será exagero considerar que Sergey Urusevsky, director de fotografia, é um verdadeiro co-autor do filme. Mesmo quando a exuberância formal corre o risco de atrair um formalismo auto-complacente (a dialéctica formal de Eisenstein não está ao alcance de todos...), Soy Cuba confronta-nos com uma questão identitária que transcende o tempo da sua produção. A saber: como é que as singularidades individuais se exprimem nos movimentos colectivos? Difundido de forma breve e discreta por cubanos e russos, Soy Cuba só foi realmente descoberto em 1992, no Festival de Telluride, no Colorado. Apesar de projetado numa cópia sem legendas, o filme rapidamente se transformou num fenómeno cinéfilo, a ponto de Martin Scorsese e Francis Ford Coppola patrocinarem o seu restauro e respetivo lançamento em 1995. Em 2026, com chancela da Midas Filmes, é um dos grandes acontecimentos do nosso verão cinematográfico.