Só os crentes sobrevivem

Regresso de Sebastian Lelio ao cinema britânico com O Prodígio, aposta da Netflix para esta temporada. Um filme sobre um suposto milagre católico na Irlanda do século XIX. Tour-de-force que pede ao espetador para acreditar e duvidar ao mesmo tempo. Chama-se a isto filmar a fé.

Parece o começo de uma anedota sem piada, mas não é: o que faz um chileno nos pastos da Irlanda profunda a filmar uma intervenção divina? A resposta é dada pelas seguintes informações: o chileno é Sebastián Lelio, autor de Gloria Bell e Glória; a Irlanda, aquela que nos pomos a perceber quão verde era no começo de 1862; e a intervenção divina está entre o milagre e o logro. The Wonder é para ser visto no grande ecrã, mas será apenas possível apanhá-lo no pequeno através da Netflix. Esteve presente no Festival de San Sebastián, dividiu meio mundo no Festival BFI London e coloca Florence Pugh no mapa da corrida dos prémios, com uma interpretação entre o desencanto e a fúria.

Mas o universo visual latino do realizador não é um mero detalhe. Todos os planos são arquitetados com um enlevo muito só dele, perfeitos para um conto sagrado sobre milagres e a expiação da fé. Não é trabalho de tarefeiro, nem o chamado "olhar exterior" - é o que tem de ser. A saber: uma vontade de criar um mistério secreto, muito secreto, um pacto entre o espetador e as "coisas de Deus" que o argumento evoca.

Temos pois uma criança numa quinta no meio do nada da Irlanda rural que não come e convence toda uma comunidade que é tocada por Deus, que não precisa de comer. Há quatro meses que não ingere uma migalha e, por milagre, parece bem. Até que chega de Inglaterra uma jovem irlandesa que vem inspecionar esta "maravilha" e cedo percebe que há algo de errado nesta situação.

Vários hipóteses ficam no ar: milagre católico ou esquema da família para a santificar? À medida que a investigação avança, a história também segue o vazio interior desta enfermeira, uma mulher com desejos sexuais reais.

Numa altura em que o atual cinema não foge ao vírus das sobreposições da partitura musical, há uma beleza anti-cliché com o silêncio e os sons musicais da composição de Matthew Herbert, o famoso músico que tem acompanhado musicalmente os filmes de Lelio. Desta vez, mais do que em outras, parecem ser os murmúrios musicais de Herbert a pontuar a narrativa, a levar o filme para a sua intrínseca estranheza. Reside aí um dos abalos sistémicos de uma obra que está literalmente possuída por um peso literário remanescente do gótico, mesmo quando a nível de guião se sintam fragilidades em torno do manto da tensão.

Assumidamente irregular, O Prodígio vive de uma processo intuitivo, mesmo quando na aparência pareça existir uma carga analítica, na essência nos momentos em que o sagrado se cruza com o humano. Dito de um outro modo, Lelio "confunde" o sagrado com o religioso, especialmente quando aborda as questões da fé da ligação entre a enfermeira e a menina "prodígio".

Para lá disso tudo, dois atores que enchem o ecrã. Além do tornado Florence Pugh, há também Tom Burke, o ator inglês mais excitante do momento, a ser visto em breve em Viver, de Oliver Hermanus. Formam um casal de cinema como é raro. Só por eles, O Prodígio vale a assinatura da Netflix para este mês...

dnot@dn.pt

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