Siza Vieira. A (in)disciplina do jogador de hóquei que conquistou a arquitetura mundial

Museu de Serralves expõe a partir de quinta-feira uma mostra que celebra os 65 anos de carreira de Álvaro Siza Vieira, o "indisciplinado" que rompeu fronteiras para a arquitetura portuguesa depois de ver o pai proibir-lhe uma carreira no hóquei em patins

Já na "sobremesa" de uma exposição que percorre mais de 400 desenhos e 30 projetos de uma carreira que atravessou já sete décadas, Siza Vieira detém-se numa foto do seu arquivo pessoal: o jovem Álvaro, aos 15 anos, equipado para um jogo de hóquei em patins, a sua primeira "vocação". "Talvez ainda volte a jogar", solta, com uma ainda respeitável condição física, comprovada, aos 86 anos, com uma hora de visita guiada às salas da exposição que o Museu de Serralves dedica ao seu criador a partir desta quinta-feira, 19 de setembro.

O que seria um mero pormenor gracioso na imensidão do trajeto do homem que abriu as janelas do reconhecimento internacional para a arquitetura contemporânea portuguesa - ao ganhar, em 1992, aquele que é considerado o "Nobel" da arquitetura (o prémio Pritzker, mais tarde atribuído também a Souto de Moura, "parceiro" de longa data de Siza) - ganha relevância pela pena do próprio mestre dos esquissos e projetos.

Na mensagem que escreveu para o catálogo desta mostra, Álvaro Siza Vieira destaca a influência da sua curta experiência como jogador de hóquei em patins para aquela que se tornou uma das mais importantes marcas registadas da arquitetura mundial.

"O hóquei em patins teve para mim e para o que faço uma significativa influência: o jogo é tão rápido e exigente que não é possível separar estratégia prévia e improviso. É necessário que actuem em simultaneidade, com o apoio determinante das 'rodinhas'. Há também na Arquitectura «rodinhas velozes» a que recorrer, face à complexidade e à extensão e acidentes de percurso de qualquer projecto", descreve.

E prossegue, definindo a arquitetura como "um longo e ininterrupto percurso que exige (in)disciplina." "A disciplina talha por fim a 'pedra de fecho'. Não actua em pleno sem se envolver com uma espécie de desordem que a precede e a invoca, tornando-a, a um tempo, livre e abrangente. Assim rola o trabalho do arquitecto. Tudo depende da pequena ponta do stick."

"Chorei. Tinha-me convencido de que o hóquei era a minha única vocação"

Ninguém (nem o próprio Siza) chorará hoje a perda de um potencial bom praticante de hóquei em patins, como o jovem Álvaro chorou na altura a decisão do seu pai em proibir-lhe a atividade, após conselho médico - "Joguei talvez um ano. Logo um médico convenceu o meu pai de que haveria, sendo eu míope, perigo eminente de deslocamento de retina [...] Chorei. Tinha-me convencido de que o hóquei era a minha única vocação (só mais tarde me apercebi de que todos temos vocação para tudo, ou quase tudo, se o desejarmos)".

Pelo contrário, celebra-se como a (in)disciplina de Siza Vieira fez dele um dos nomes maiores da arquitetura. É esse o mote que atravessa esta exposição "Álvaro Siza: In/Disciplina", que viaja pelas sete décadas de percurso do arquiteto, desde o primeiro projeto para a construção de um conjunto de quatro casas em Matosinhos, em 1954, até ao arranha-céus que, aos 86 anos, assinala a estreia de Siza em Nova Iorque - para onde vai nos próximos tempos para ver "in loco", "desconfiado", a solução de pedra com uma espessura de 2 centímetros encontrada pelos engenheiros locais, que não o mármore de Estremoz recomendado inicialmente pelo arquiteto.

Nome: Álvaro Siza. Disciplina: Tão pouca quanto possível

É esta constante "inquietude", como define Nuno Grande, um dos curadores da exposição (em co-autoria com o catalão Carles Muro, um ex-colaborador de Siza), que atravessa toda a obra de Álvaro Siza Vieira e que surge refletida nos mais de 400 desenhos originais e 30 projetos (alguns nunca concluídos) mostrados ao público em Serralves a partir de quinta-feira e até ao próximo dia 2 de fevereiro de 2020 - com a colaboração das instituições que receberam o seu arquivo profissional (a Fundação de Serralves, a Fundação Calouste Gulbenkian e o Canadian Centre of Architecture), além de contributos particulares, inclusive do seu acervo pessoal.

Uma exposição "inevitável", sublinha a presidente do conselho de administração da Fundação de Serralves, Ana Pinho, que assinala simultaneamente os 65 anos de carreira de Siza Vieira, os 30 anos da Fundação de Serralves e o 20.º aniversário do Museu que é uma das obras maiores do próprio arquiteto. "Serralves é um milagre", descreve depois, junto ao espaço dedicado ao projeto do museu de arte contemporânea na própria mostra.

O ponto de partida da exposição é um esquisso que Siza Vieira desenhou em Berlim, o berço da sua internacionalização nos anos 80 do século passado. Ao lado, na guarda interior de um dos seus cadernos de desenho, de formato escolar, um registo do próprio serve de descrição para a viagem que se projeta ao longo das salas seguintes. "Nome: Álvaro Siza. Disciplina: Tão pouca quanto possível".

Durante cerca de uma hora, Siza Vieira percorre ao lado do curador Nuno Grande as salas onde a exposição projeta, sobre as longas mesas criadas pelo próprio arquiteto, a obra do matosinhense que se tornou também "património mundial". Projetos premiados, marcos icónicos da arquitetura de Siza, obras polémicas (muitas delas) e também outras inacabadas ou que nunca chegaram a sair da maqueta.

Ao longo das mesas, fac-similes dos cadernos de esquissos do arquiteto, para o público poder folhear e descobrir "um olhar que nunca está satisfeito", resume Nuno Grande. "Está lá tudo. A inquietude, o desenho da senhora do lado no café, os projetos e até listas de compras", revela, motivando o olhar desconfiado de Siza.

De Matosinhos até à estreia em Nova Iorque aos 86 anos

A "viagem" - das casas de Matosinhos ao arranha-céus de Nova Iorque, passando pelas inevitáveis Casa de Chá da Boa Nova, Piscina das Marés em Leça, Malagueira em Évora, Bonjour Tristesse de Berlim, Casa-museu Nadir Afonso, o Centro Galego de Arte Contemporânea em Santiago de Compostela ou o próprio museu de Serralves, entre muitos outros - serve também para o arquiteto recordar algumas histórias por detrás dos projetos. Como as reuniões com o antigo autarca lisboeta Krus Abecassis, aquando da reconstrução do Chiado, para a qual criou polémica a escolha de um arquiteto portuense. "Foi mais uma polémica de arquitetos, que acharam uma coisa extraordinária isto de um arquiteto do Porto ir fazer uma obra a Lisboa", diz Siza, 30 anos depois.

Mas teve de ser o reconhecimento internacional, primeiro, a abrir-lhe portas ao definitivo reconhecimento público e político "cá dentro". Siza Vieira tinha acabado então de ganhar o primeiro Prémio Europeu de Arquitetura Contemporânea - Mies van der Rohe, instituído pela Comissão Europeia, pelo seu edifício da agência do antigo Banco Borges & Irmão, em Vila do Conde, quando foi convidado para descer ao coração pombalino de Lisboa, na sequência do incêndio que destruíra o Chiado. "Nunca saí do Porto, mas ia a Lisboa todas as semanas. Tinha um gabinete camarário, a pedido meu, e tratava tudo diretamente com o Krus Abecassis", lembra.

" Gosto muito, mas não acha que tem um certo ar fascista?", perguntou-lhe um político amigo, sobre o Pavilhão de Portugal

Mais à frente, uma paragem junto à maqueta do Pavilhão de Portugal, feito para a Expo 98, serve para recordar como "foi tudo muito rápido" num projeto com "muita gente a gerir" e "muita pressão em relação a dinheiro". "Ora, para fazer uma coisa destas era preciso muito dinheiro", desabafa, à distância. O desenho do projeto mostra uma torre que nunca chegou a ser construída e que espera agora para ver a luz do dia no âmbito do projeto de requalificação aprovado para o Pavilhão de Portugal. Uma obra sobre a qual Siza Vieira recorda ainda um comentário de um político amigo: "Disse-me: gosto muito, mas não acha que tem um certo ar fascista?"

Se o Pavilhão de Portugal, e a sua pala suspensa de 65 metros, sobreviveu à polémica da época para vingar como uma das icónicas obras do mestre, já a maqueta das duas pontes sobre o Douro revela uma obra que nunca chegou a fazer-se. O projeto, em colaboração com o engenheiro Adão da Fonseca, na primeira década deste século, revelava duas novas pontes sobre o Douro, que não se concretizaram. "Uma era para a extensão do metro, outra para o TGV, que entraria pelo morro onde está assente o palácio de Cristal".

A ideia esbarrou no financiamento e, desabafa Siza, no centralismo das políticas públicas, que logo lembrou "uma terceira ponte sobre o Tejo". "Eu não sou bairrista, nem sequer sou do FCP, até sou benfiquista", confidencia, "mas a realidade é essa". "Depois também veio a crise e olhe... nem ponte, nem TGV, nem metro, nada".

O novo milénio trouxe também a Álvaro Siza a possibilidade de alargar a sua ação para fora do espaço europeu, com trabalhos na América do Sul (Argentina e Brasil) e no Extremo Oriente, onde tem trabalhado com maior frequência, tendo assinado obras como o Mimesis Museum, na Coreia do Sul, ou o China Design Museum, em Hangzhou (China). "Houve uma altura em que tive de emigrar para Oriente", diz. "A manutenção de um gabinete de arquitetura tornava-se quase impossível em Portugal. E ainda para mais tratam-me bem por lá. Na China e na Coreia vê-se uma espécie de Renascimento", acrescenta, lamentando a forma como a Europa tem tratado (mal) a arquitetura. "Na Europa o único sítio onde se pode trabalhar é a Suíça, que por acaso não é da União Europeia".

"Houve uma altura em que tive de emigrar para o Oriente. Lá tratam-me bem"

A exposição estende-se até ao mais recente projeto de Álvaro Siza. Uma surpresa que veio de Nova Iorque, com o convite para um arranha-céus em Manhattan que marca a estreia em território dos EUA. "Não arranha muito. É um edifício de 38 andares, o que para Nova Iorque é pouco. Mas é um lote pequeno, com proporções muito boas", explica, entusiasmado, debruçado sobre os desenhos do projeto.

Afinal, aos 86 anos, Siza Vieira não perde o espírito inquieto e indisciplinado que marcam uma carreira que ainda não é obra acabada. "Saudades? Não sinto saudades nenhumas. Estou a fazer outros projetos. Às vezes tenho a sensação, por razões várias, que já vivi demais, mas isso não quer dizer que me apeteça ir de férias"... despede-se.

Exposição Álvaro Siza in/disciplina
Curadoria de Nuno Grande e Carles Muro
Museu de Serrralves, Porto
De 19 de setembro de 2019 a 2 de fevereiro de 2020

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