A morte está presente em vários livros da escritora norte-americana Siri Hustvedt – de ascendência norueguesa - e é frequentemente o motor tanto dos seus romances como dos ensaios. O romance Aquilo que eu amava tem como ponto de viragem a morte do filho de uma das personagens e no ensaio Mysteries of the rectangle analisa vários quadros, como as naturezas mortas do pintor francês Chardin, sobre as quais diz que homenageiam o ser humano ao retratar a morte. Inesperadamente, a morte surgiu mais uma vez na sua escrita, desta vez numas memórias intituladas Fantasmas (Ghost Stories), desta vez por uma razão que em nada teve de ficcional mas devido à morte do marido, o escritor Paul Auster (30/04/2024).Inesperadamente também, Siri Hustvedt decidiu fazer uma parte do luto através de Um livro de memórias em que decide trazer o “fantasma” de Paul às páginas e evocá-lo em todos os aspetos do que foi a sua vida e, principalmente, a relação entre ambos. Não é por acaso que escolheu a palavra Fantasmas para o título do volume, como explica: “Eu estava deitada e senti que o Paul subia as escadas da nossa casa. Foi muito estranho porque os sentidos não funcionavam; era invisível, sem fazer barulho, sem cheiro. Nenhum dos sentidos estava envolvido nessa perceção e estava absolutamente certa do que estava a acontecer: Paul a olhar para mim, a ver se eu estava bem. Depois, foi-se embora.” Essa experiência é bastante comum segundo Siri e várias pessoas lhe descreveram situações semelhantes. Apesar disso, diz: “Eu não acredito na vida após a morte… mas fiquei sem saber o que pensar do cheiro das cigarrilhas que ele fumava uns anos antes e que ficou no quarto.” Além de que, acrescenta, “Paul dissera-me que voltaria como um fantasma após a sua morte”.A vinda de Siri Hustvedt a Lisboa faz parte da promoção deste livro pela Europa e fecha o percurso que começou em Helsínquia e continuou por Paris, Londres, Edimburgo, Madrid e Barcelona. A passagem por Portugal não é comercial, como explica: “Eu gosto muito do país, tal como o Paul. Ele veio cá várias vezes por causa dos livros e também fez em Sintra o filme Martin Frost, por onde eu passeei bastante enquanto ele trabalhava, bem como pela parte mais histórica de Lisboa. O Paul teve uma ótima experiência de trabalho com as pessoas da equipa de filmagens e também com os leitores portugueses. Portanto, as nossas lembranças de Lisboa e Portugal são muito fortes e muito felizes.”Esta digressão com Fantasmas não impede que se preocupe em continuar a sua escrita, como faz questão de referir: “Eu sinto que tenho um ou dois livros novos à minha espera; um primeiro, que tem a ver com a placenta como um órgão filosófico e também um órgão biológico; e um segundo, sobre a infância.” Entende-se que ainda falta algum tempo para dar início a qualquer um destes projetos, no entanto não demorou muito a escrever Fantasmas: “Eu escrevi este livro em nove meses, mas nem sempre é assim tão rápido. O romance Aquilo que eu amava (2003) levou-me seis anos.” Siri aproveita o pretexto desse romance para relembrar Paul Auster: “Terminei o livro e o Paul apontou-me coisas que achava que eu deveria mudar. Então comecei uma segunda versão durante oito meses e ao ouvir dele outras sugestões fiz a terceira versão e como ainda tinha opiniões a dar parti para uma quarta, a que ele achou que eu tinha acertado e eu concordei.”Em Fantasmas a autora reúne vários géneros literários e deposita textos que só poderiam ser publicados neste volume: “Precisei de criar uma arquitetura de memórias em que, por exemplo, os objetos triviais ganham um outro significado após uma morte. Ou comportamentos, como o de deixar um risco no chão ao empurrar um sofá; o Paul não se preocupava em proteger o chão, e agora eu ao olhar para esses riscos começo a chorar. Afinal, vivemos trinta anos naquela casa.”Pergunta-se se concorda com a ideia que existia sobre a vida de ambos: um casamento literário. Siri ri-se e responde: “Sim, diziam isso muito. Mas o que sentia mesmo era a existência de uma possibilidade de descobrir o lado mais profundo e emocional do outro, aquele que não é transparente. Ou seja, quando ouvir o outro é como olhar para os sonhos dessa pessoa. Essa situação acontecia muito quando ele me lia os seus livros e eu lia-lhe os meus.” É hora de perguntar se a irritava a comparação que se fazia entre os dois enquanto escritores? Responde: “Por norma não, mesmo que fosse uma situação que me aborrecia, como descrevo em Fantasmas, até por ser uma reação de misoginia e de usarem o Paul para me denigrir como se ele fosse o meu mentor. Felizmente, ele sempre respeitou o meu trabalho.”O livro de Siri Hustvedt sobre o marido ocupa-se muito da sua morte e os últimos tempos de vida de Paul Auster estão muito registados. Entende-se de uma forma muito clara que o escritor adiantou a sua morte. Siri confirma: “No final, Paul não queria mais viver. Não queria os medicamentos e os tratamentos paliativos, como a quimioterapia. Como gostava do médico, aceitou experimentar, mas houve um dia em que ele olhou para mim e disse: 'Não vou continuar a medicação'. Foi uma decisão dele, ninguém o aconselhou. Foi muito estranho ele ficar a olhar para a sua própria morte, mas sabíamos todos que estava a morrer. Foi um alívio para nós e para ele e acho que gostou desses últimos dias em que viu amigos.”Quanto ao espólio por publicar, Siri Hustvedt acha que não existem inéditos: “Após escrever o Baumgartner (2023), ele considerava que já tinha escrito o que queria e que este último livro fechava um arco que tinha começado com A Trilogia de Nova Iorque. Escreveu os livros que quis mas continuava a ter ideias que o atraíam.” Pergunta-se de que livros de Auster mais gostou e aponta um deles: “Viagens no Scriptorium é um livro de que gosto muito, mesmo que não tenha sido compreendido como merecia.”.FANTASMASSiri HustvedtD.Quixote319 páginas A ETA COMO TEMAO escritor espanhol Fernando Armburu tinha uma vida literária sem grande alarde até ter publicado o romance Pátria (2016), uma narrativa que apaixonou os leitores do seu país e obrigou a mais de quatro dezenas de reedições e inúmeras traduções noutros países. O tema era o fim da ação terrorista da ETA, organização de que Aramburu já tratara várias vezes nos seus romances mas nunca com esse sucesso. A ETA regressa no seu novo romance, Maite, bem como o habitual cruzar da vida íntima dos seus personagens em confronto com a realidade brutal daqueles tempos no País Basco. A protagonista volta a ser uma mulher, situação que já se dera em Pátria, romance que tem agora uma versão bem diferente da de Aramburu, desta vez por via de uma novela gráfica de autoria de Toni Fejzula, que refaz o romance sob uma versão muito visual e em tons muito próprios da época sombria que aquela parte de Espanha viveu. A opção gráfica permite reparar em detalhes que o ilustrador destaca e que oferecem um novo olhar sobre Pátria..MAITEFernando AramburuD.Quixote271 páginas.PÁTRIAToni FejzulaASA305 páginas