Nascido em Filadélfia, em 1969, Colman Domingo é um ator americano cuja trajetória se pode definir como indissociável de uma certa ideia de militância. De facto, quer como ator, quer como produtor, o seu nome tem surgido associado a retratos de personagens afro-americanas em contextos dramáticos muito variados. Redescobrimo-lo, agora, precisamente como ator e coprodutor de Sing Sing, uma realização de Greg Kwedar gerada na zona da produção independente e com uma performance nos Óscares que é, para já, surpreendente.Na verdade, não é todos os dias que um título fabricado com um orçamento minimalista, e também com um lançamento discreto nas salas dos EUA, consegue três nomeações para os prémios da Academia de Hollywood (a atribuir no dia 2 de março). O próprio Domingo apresenta-se como o nomeado em evidência, já que integra a lista dos cinco candidatos à estatueta dourada de Melhor Ator - Sing Sing surge ainda nas nomeações para Melhor Argumento Adaptado e Melhor Canção.Será, talvez, forçoso começar por dizer que o filme deve muito à composição de Domingo. Ele interpreta John Whitfield, conhecido pela alcunha de “Divine G”, detido em Sing Sing (estabelecimento prisional do Estado de Nova Iorque) por um crime que não cometeu. Aguardando alguma forma de reconhecimento da sua inocência, a sua existência no interior da prisão é, por assim dizer, resgatada pela paixão criativa: Whitfield pertence ao programa “Rehabilitation through the Arts” (à letra: “Reabilitação através das Artes”), um projeto que procura reavivar nos detidos um sentido de comunidade e responsabilidade suscetível de continuar para lá do tempo da sua detenção.O filme segue uma estratégia muito curiosa que não deixa de limitar os seus resultados performativos. Assim, Kwedar (também coautor do argumento) dirige um elenco em que há uma minoria de atores profissionais (Sean San José e Paul Raci, além de Domingo), sendo os restantes verdadeiros prisioneiros inscritos, precisamente, no citado programa de reabilitação. A qualidade global das interpretações ressente-se dessa estratégia, embora pareça óbvio que, em última instância, o efeito procurado por Kwedar, com o seu quê de “documental”, passa pela exploração de tal diversidade.Resumindo, Sing Sing é um filme que corre o risco de ser rotulado através dos propósitos militantes do seu dispositivo, afinal mais próximos de algumas convenções de raiz televisiva, sobretudo ligadas àquilo que, de forma mais ou menos equívoca, se costuma chamar “docudrama”. Por um lado, podemos reconhecer-lhe algum valor informativo e, num certo sentido, jornalístico; por outro lado, a sua presença nos Óscares não basta para o transformar num grande acontecimento cinematográfico. .Steven Soderbergh. O cinema na companhia dos fantasmas.'Crónicas Chinesas'. Memórias da pandemia