E se de repente a música ouvida numa igreja de Marvão nos levar até Bucareste, a memórias de um outro festival? Foi o que me aconteceu no último dia de julho, numa daquelas tardes tórridas do Alentejo, que as grossas paredes caiadas atenuavam só um pouco. De George Enescu - após uma obra de Franz Schubert na primeira parte do concerto - foi interpretado Octeto para Cordas em Dó maior, Op. 7.Enescu pode ter estudado em Paris, onde compôs esta peça, e antes em Viena, mas é romeno, o mais genial dos compositores oriundos da antiga Dácia, terra ainda mais rebelde do que a Lusitânia de há dois mil anos, mas que, como cá aconteceu, ficou a falar uma língua latina até hoje.Tem dúvidas de que apesar de viverem nos extremos da Europa, portugueses e romenos têm margem para se entender? “Cu un kilogram de carne de vaca nu se moare de foame, cu un litru de vin nu se moare de sete”. Sim, é romeno, mas existe o dito em português. Há propensão para a universalidade nas filhas do latim.Ora, também Enescu é universal. No verão passado assisti ao festival que tem o seu nome. No magnífico Ateneu Romeno, e na Sala Palatului que na era comunista funcionava como centro de congressos, desfilaram músicos de todo o mundo, interpretando os grandes compositores de música clássica. Tal qual como aqui em Marvão, embora este festival seja mais recente, com a primeira edição a remontar a 2014. Mas entre uma capital e uma vila do interior são muitas as diferenças. É natural que desde 1958, apenas três anos depois da morte do compositor, Bucareste celebre Enescu. Já o Festival Internacional de Música de Marvão (FIMM) é quase sobrenatural: nasceu de um dia um maestro alemão de férias com a família ter olhado para o rochedo onde se ergue Marvão, tê-lo visitado e convencido a mulher a comprar casa. Christoph Poppen e Juliane Banse contaram-me essa história há uns anos num almoço na Pousada de Marvão. Recordo-me que à mesa estava o casal de músicos (ela é soprano), também Daniel Boto, filho da terra que é diretor executivo do FIMM, e Gelu Savonea, antigo vice-diretor do Instituto Cultural Romeno, um amigo de visita a Portugal, que entusiasta me acompanhou nas duas horas e meia de carro para uma entrevista com Poppen. Savonea já conhecia o FIMM. Por causa do Instituto Cultural Romeno até estava a par de Enescu já ter sido tocado, logo em 2017, Quarteto de Cordas n.º 2. . Visitas de diplomatas a Marvão não é, aliás, coisa rara. Geralmente convidados pelo presidente da República. Aníbal Cavaco Silva foi o primeiro a vir ao FIMM, e depois Marcelo Rebelo de Sousa tornou tradição aparecer com o corpo diplomático acreditado em Lisboa como seus convidados. António José Seguro fez questão este ano de comparecer, também trazendo embaixadores. Vi o indiano, o chinês, o mexicano, o filipino e o núncio apostólico. E mais alguns. Também o Encarregado de Negócios a.i. romeno assistiu, junto a Seguro, ao concerto da noite de 31 nas ruínas da cidade romana de Ammaia. Lua Cheia, luzes a iluminar as muralhas de Marvão lá no alto, e estava criada a magia que se somou à da música. A Sinfonietta de Hong Kong, dirigida por Poppen, interpretou obras de Joseph Haydn, Wolfgang Amadeus Mozart e Ludwig van Beethoven. Ainda, em estreia europeia, Time (in-)Linear, de Alice Yeung, um concerto para harmónica cromática, piano jazz e orquestra. A chinesa Yeung, nascida em Hong Kong, mas baseada na Suíça, trouxe um toque extra de contemporanidade e universalidade a um festival que é muito europeu, seja pelos músicos seja pelos compositores. Voltemos ao concerto da tarde de 31, já perto do final de um programa que foi de 24 de julho a 2 de agosto. Para celebrar Enescu, juntaram-se na Igreja de Nossa Senhora da Estrela dois quartetos coreanos. “O Octeto para Cordas do compositor romeno George Enescu, escrito em 1900 com a notável idade de apenas 19 anos, mais do que uma obra de câmara é uma sinfonia para oito instrumentistas de cordas. Foi um dos pontos altos do festival ouvir esta obra-prima raramente interpretada ganhar vida pelas mãos dos dois principais quartetos de cordas da Coreia do Sul, o Novus String Quartet e o Arete Quartet”, comenta o maestro Poppen.O compositor romeno, nascido em 1881, começou por ser um menino prodígio. E toda a sua carreira foi carregada de genialidade, desde as duas Rapsódias Romenas à ópera Édipo, com libreto em francês. França é tradicionalmente magneto para os latinos de Leste, fascinados pelo Ocidente tanto no tempo dos principados vassalos do Império Otomano como hoje que fazem parte da União Europeia. Há uma célebre fotografia tirada em Paris que junta os ilustres Mircea Eliade, Eugen Ionescu e Emil Cioran. Ah, Paris! Enescu continua sepultado no Père Lachaise. Ali estão igualmente Chopin, Piaff e Jim Morrison, e não se pode dizer que o famoso cemitério não é eclético. “Enescu morreu na pobreza, em Paris, sem poder sequer pagar qualquer tipo de cuidados. A única coisa em que estava interessado era em compor e retribuir ao seu povo. Era muito leal às raízes romenas”, contou-me um dia Cristian Macelaru, o maestro romeno da Orquestra Nacional de França. Macelaru explicou que o trágico exílio de Enescu teve que ver com a retaliação do regime comunista pós-Segunda Guerra Mundial contra alguém que estava associado à família real. Depois da morte, veio o aproveitamento político, com o Festival Enescu, mas também o reconhecimento, reforçado já em democracia, de que o país produzira um génio. Em Marvão, aplaudiu-se de pé os coreanos. E a música de Enescu. Sobre esta, volto a citar Macelaru: “a forma como descrevo a música de Enescu é que manteve a alma romena. Sempre manteve o elemento folclórico na música, mas é uma linguagem harmónica fortemente influenciada pela escola wagneriana dos compositores germânicos, e com este belo toque de orquestração e estilo dos compositores franceses”. Em Bucareste, visitei o Museu Enescu, no palácio Cantacuzino. Cristina Andrei, a diretora, disse-me que “Enescu merece lugar de destaque na consciência universal. Para alguns, a sua música é difícil, complexa, mas é uma música visionária. Enescu não compôs para a época, mas sim para nós que vivemos no século XXI”. Sim, a 31 de julho de 2026, numa igreja em Marvão, o século XXI prestou homenagem ao grande compositor romeno. .Bucareste celebra Enescu, o compositor “à frente do seu tempo” que pôs a Roménia no mapa da música clássica .Até um grifo veio ver no castelo de Marvão 'O Rapto do Serralho'