Este Audição é um livro de certa forma sobre a família, sobre um estranho como filho e sobre um filho como estranho. A história passa-se numa cidade grande. E refere até um apartamento em West Village.Sim, em Manhattan. Mas, ao mesmo tempo, parece uma família em qualquer grande cidade, não só Nova Iorque onde vive agora, como Sacramento, onde nasceu. De que forma a sua experiência familiar, tanto na infância como já como mãe, é diferente da retratada neste livro? Algo óbvio, é que este livro não é autobiográfico.Não, não é. Perguntam-me frequentemente qual é a relação entre mim, enquanto autora, e, sobretudo quando escrevo na primeira pessoa, com o narrador de um livro. A minha experiência é que, embora não escreva ficção autobiográfica, tenho, ainda assim, muita consciência de que a marca da minha vida está presente em toda a minha obra. Tenho amigos que são romancistas, e sou casada com um romancista, e consigo vê-los muito claramente nos seus romances. E geralmente não há uma correlação direta entre uma personagem e o autor, mas sim uma sensibilidade, um conjunto de experiências, um sentido de humor, que se consegue sentir na escrita. Portanto, embora a minha família não seja nada parecida com a família do romance - nem a minha família atual, nem a família que tive quando era criança -, diria que foi um livro escrito depois de ter tido filhos. E não acho que seria um livro que eu teria escrito antes de os ter. E uma das razões pelas quais me interessei por escrever sobre a parentalidade é porque me preocupo muito com momentos de estranheza nas relações íntimas. Aqueles momentos em que olha para alguém que conhece muito bem, alguém que talvez sinta que conhece melhor do que qualquer outra pessoa no mundo, e de repente essa pessoa parece-lhe uma estranha. E isso é algo que explorei no contexto do casamento, no contexto das relações românticas. Mas quando comecei a pensar neste romance percebi que a relação mais carregada de flutuações é a relação entre pais e filhos. Portanto, é aí que reside a origem do livro, e suponho que, na medida em que a minha vida está presente no livro, isso se deve ao facto de ter percebido que a parentalidade, em parte, é este longo processo através do qual o seu filho precisa de se tornar um estranho para si.Por vezes, os romancistas americanos que têm uma história de imigração tendem a utilizar a origem da família como material para a sua escrita. No seu caso, que até teve como primeiro livro Japanese for Travellers: A Journey Through Modern Japan, os seus pais serem japoneses, e de ter sido criada entre duas culturas, pode ser fonte de inspiração, mesmo que neste último livro isso não aconteça?Passei muito tempo no Japão, principalmente na adolescência e nos meus 20 anos, porque os meus pais voltaram para lá. Mas, na verdade, fiquei a viver nos Estados Unidos e frequentei lá a universidade. Penso que a questão da minha origem enquanto filha de imigrantes perpassa toda a minha obra de ficção. Até certo ponto, suponho que isso possa estar presente neste romance, mas penso que é muito mais evidente no meu livro anterior, chamado Intimacies, que trata de uma intérprete simultânea que trabalha num tribunal de crimes de guerra em Haia, vagamente baseado no Tribunal Penal Internacional. E quando se cresce como filho de imigrantes nos Estados Unidos, para quem o inglês é uma segunda língua, muitas vezes a experiência é a de ser uma espécie de intérprete entre os pais e o mundo anglófono em geral. E foi só depois de ter escrito esse livro e alguém me ter perguntado: “Porque é que te interessas tanto por interpretação?” que comecei a pensar nisso. Foi então que percebi que, em criança, tinha sido uma espécie de intérprete amador dos meus pais. Muitas vezes falava por eles. E tornaram-se fluentes em inglês rapidamente depois de se mudarem para os Estados Unidos. Portanto, foi apenas num breve período em que me senti mais à vontade com o inglês do que os meus pais. Mas esta ideia de viver entre duas línguas, esta ideia de não estar firmemente orientada para uma cultura específica, está muito presente no meu trabalho.Cresceu bilingue, a falar inglês e japonês?Sim. Quer dizer, eu percebo e falo japonês, mas não consigo ler.Sabemos que a língua é cultura, e que a língua materna ainda mais nos molda culturalmente. E se aprendeu japonês desde a infância e, claro, inglês, sente-se uma mistura das duas culturas, ou a vida fez de si completamente uma americana?O inglês é a minha primeira língua. É a minha língua materna, sem dúvida. Aqui na Europa as pessoas falam duas, três, quatro, cinco línguas. Mas os Estados Unidos ainda são bastante monolíngues enquanto cultura, embora isso esteja, obviamente, a mudar. Acho que fui mesmo bilingue só até aos cinco anos. E depois, quando comecei a ir para a escola, o inglês, como língua oficial do país em que se vive, acaba por predominar. E eu estava um pouco atrasada na leitura, e na minha escola recomendaram aos meus pais que só falassem inglês comigo para que eu pudesse, entre aspas, alcançar a matéria, coisa que ninguém diria hoje.Lembra-se de quando era menina e colocava as bonecas a falar, se era em inglês ou em japonês?Não me lembro, tenho de admitir. A certa altura, os meus pais falavam comigo em japonês e eu respondia em inglês. E ia para a escola japonesa aos sábados para manter o meu japonês em dia. Mas as bonecas… devia ser em inglês, quer dizer, não me lembro [risos]. E pergunto-me se isso diz alguma coisa sobre mim, sobre o facto de não ter brincado o suficiente com as minhas bonecas. Mas sim, o inglês rapidamente suplantou o japonês. Algo interessante que aconteceu foi que eu não tive vontade de falar japonês muitos anos até que quando tive filhos, de repente, senti essa vontade, porque era a língua da minha infância. E foi a isso que voltei quando os meus filhos nasceram. Depois muitas coisas da minha cultura japonesa ressurgiram. Agora eles estão muito mais velhos e isso voltou a diminuir.O seu marido é de ascendência indiana e britânica.Sim, o pai dele é indiano e a mãe é inglesa.Estamos a falar do romancista Hari Kunzru, que tem em Portugal vários livros publicados, como O Impressionista. Ele fala hindi ou outra língua indiana?Inglês. E parte disso é geracional, porque acho que famílias semelhantes hoje em dia certamente garantiriam que a casa fosse bilingue. Mas acho que na altura em que o meu marido era criança o pai fazia muita questão que a mãe não se sentisse excluída de uma língua que fosse utilizada em casa. Então só falavam inglês.Portanto, também os seus filhos foram criados na cultura anglo-saxónica.Totalmente monolíngue. Sim. Completamente monolíngue. Mas deveriam ser capazes de falar três línguas desde crianças. Mas o meu filho está a estudar francês e japonês na escola.A herança japonesa dos avós afinal explica algumas coisas...Acho que sim. Tem uma pronúncia muito boa. Ouviu o idioma bastante ao longo da vida..Ele tem curiosidade sobre a cultura japonesa?Tem muita curiosidade pela cultura japonesa. Diria que está mais interessado no Japão do que na Índia, por exemplo, mesmo tendo uma ligação familiar muito próxima com a Índia. Em parte também porque a cultura japonesa está muito presente no imaginário dos jovens por causa dos mangas. Mas, sim, tem muito interesse pelo japonês.E qual foi a reação dos avós quando perceberam que o neto estava a aprender japonês?Muito satisfeitos. Sim, muito satisfeitos, claro. Ainda tenho muita família no Japão. É também professora de Literatura. Numa entrevista referiu que John Steinbeck era um dos grandes escritores para si. Pode mencionar outros escritores americanos que a marcaram?Quer dizer, é interessante. Como já disse, os meus pais eram imigrantes, por isso cresci realmente numa casa de imigrantes. E um dos grandes benefícios desta educação é que os meus pais cresceram com um cânone literário diferente. Sabe, eles cresceram a ler sobretudo ficção japonesa, era o que aprendiam na escola. Depois, havia um grupo de escritores japoneses que eles achavam que eu devia ler. E diria que tinham uma noção menos clara do cânone ocidental. Ou então, tinham uma espécie de lista de livros que queriam que eu lesse, mas não eram nada didáticos. Portanto, foi uma leitura bastante livre a que fiz. Simplesmente encontrava livros que me interessavam. Havia muitos tantos livros nas livrarias. E lia muito Steinbeck quando era criança. Não era leitura obrigatória na escola, e acho que os meus pais não me deram os livros. Acho que os encontrei por acaso na biblioteca ou numa livraria. Theodore Dreiser também li bastante. Lembro-me de ter lido bastante Upton Sinclair quando era jovem. Na verdade, são todos do início do século XX, aqueles que li na adolescência. E depois, claro, li e continuei a ler, mais ou menos consecutivamente, e li muito Hemingway e Fitzgerald e prossegui. Mas havia algo realmente maravilhoso em ter contacto com estes clássicos ainda jovem. Tinha provavelmente uns dez anos quando os li.Referiu que não consegue ler japonês. Assim não teve acesso direto aos livros dos seus pais. Os grandes nomes da literatura japonesa teve de ler traduzidos.Sim, lia a tradução. Era às vezes um pouco frustrante. Recordo isto com carinho, mas a minha mãe dizia sempre: “Não sei como consegues ler Mishima em inglês, porque grande parte do sucesso deve-se à escolha das personagens”. E eu respondia: “Bem, é tudo o que tenho”.Está a referir Yukio Mishima por algum motivo específico ou é um dos seus autores favoritos?Não é um dos meus favoritos, mas acho que escolhe os caracteres kanji especificamente em termos do efeito visual na página, era o que a minha mãe sempre dizia.Gosto pessoalmente muito de Kenzaburo Oe...Também gosto muito de Kenzaburo Oe. E em termos de influências literárias, diria que Yasunari Kawabata e Junichiro Tanizaki são realmente ótimos. E há escritoras realmente maravilhosas. Quer dizer, só conheci estas escritoras muito mais tarde na vida. Há uma geração incrível de romancistas japonesas que surgiu, diria, talvez a partir dos anos 80 e 90, que são realmente excepcionais. E uma das frustrações de só ler traduções é que se está demasiado dependente da opinião do mercado.Porque só se tiverem muito sucesso é que são traduzidas?Sim, e só foram traduzidas para inglês há relativamente pouco tempo. Penso que durante muito tempo parecia que o único escritor japonês era Haruki Murakami. Ele dominava realmente as conversas sobre literatura japonesa no mundo anglófono. Acho que isso mudou realmente e há tradutores fantásticos que têm trazido sistematicamente muitas destas escritoras japonesas de várias gerações, algumas mais velhas do que eu e também da minha idade. Por isso, tem sido muito divertido ler estas escritoras.Gostaria de sugerir algumas delas aos leitores portugueses?Mieko Kawakami é uma escritora maravilhosa. Escreveu um romance em inglês traduzido como Breasts and Eggs , e que lançou recentemente um novo romance em inglês chamado Sisters in Yellow. Outra escritora que adoro, e que faleceu há uns tempos, é Yuko Tsushima, filha de Osamu Dazai, um escritor japonês muito conhecido. Ela escreveu um belíssimo romance autoficcional chamado Território da Luz. Sim, são muitas. Também Yoko Tawada, Yoko Ogawa. Há muitas escritoras japonesas realmente fascinantes e muito interessantes.Voltando ao seu livro Audição. É muito universal, porque se passa em Nova Iorque, mas poderia ser em Lisboa ou Tóquio, não é?Sim, acho que é verdade. O meu anterior livro passava-se num local muito específico, porque tinha que ser, já que a história se passava num tribunal baseado no Tribunal Penal Internacional, então tinha que ser em Haia. Então, nesse sentido, a localização era bastante precisa. Mas foi emocionante ambientar uma história em Nova Iorque e, também, por morar lá há 20 anos, eu tinha a sensação de que escrevi sobre a cidade da maneira como imaginei que a personagem a vivenciaria. E acho que quando se mora num lugar muito tempo, não se anda pela rua a pensar: “Estou em Nova Iorque”. Você simplesmente está ali, é o lugar onde se está. Mas sim, grande parte da história passa-se num apartamento, e poderia ser um apartamento em muitos, muitos lugares do mundo.Imagina escrever sobre os mais diversos assuntos? Depende apenas se lhe interessa ou não.Quero me sentir livre para escrever sobre o que me interessa e o que me motiva. E às vezes, elementos disso são da minha vida. Estou agora a trabalhar num livro que se passa no Japão e tem a ver com a história japonesa. Mas às vezes não entendo qual é o sentido de escrever se você não se sente livre. Então, sabe, algo em mim fica incomodado quando sinto que estou a escrever para atender a uma expectativa? Sim, eu escrevo sobre o que me interessa.É casada com um romancista. Mostra-lhe os livros para que ele os leia antes do editor?Sim, claro. Claro. [risos]Ele não tem medo de criticar, consegue ser honesto?Acho que sim. Quer dizer, o único perigo é que nossas sensibilidades são muito parecidas. Então, talvez, tê-lo a ler o meu trabalho seja como ter outra versão de mim mesma lendo o trabalho. Sabe, nós temos gostos muito, muito parecidos. Mas ele é bem honesto. Com certeza me dirá se um livro não estiver pronto. Quer dizer, ele já disse, tipo, “Desculpa, isso é...”. Ou “Essa personagem não...”. Ele definitivamente é capaz de dar más notícias quando precisa, o que é ótimo. Isso faz-me sentir capaz de correr riscos maiores na escrita, porque sei que tenho alguém ali que vai me ajudar a corrigir o rumo quando eu precisar.Ele também a deixa ler os livros?Sim, eu leio os trabalhos dele. Então, somos os primeiros leitores um do outro. .Steven Braekeveldt: “A única coisa que o meu avô não deveria ter feito naquele dia era jantar com Al Capone”