São Bento: arte contemporânea invade o espaço político

Portas da residência oficial do primeiro-ministro abrem aos domingos, até final do ano, para mostrar as 34 obras assinadas por artistas portugueses vivos. Pertencem à coleção Norlinda e José Lima, um industrial do calçado de São João da Madeira.

Desde que António Costa chegou a São Bento, é a terceira vez que a residência oficial do primeiro-ministro acolhe uma exposição de arte aberta ao público. Desta vez, com obras portuguesas vindas do Centro de Arte Oliva de São João da Madeira, pertencentes à coleção Norlinda e José Lima.

A mostra, com curadoria de Isabel Carlos, será inaugurada na próxima quinta-feira, às 18 horas.Estará aberta ao público todos os domingos, das 10 às 17 horas, até ao final do ano.

O anúncio de que a coleção viria para São Bento foi feito pelo próprio António Costa, no ano passado, aquando da inauguração da exposição da coleção de Elvas, da Coleção António Cachola. Já antes a residência oficial do chefe do Governo tinha acolhido uma seleção de obras de arte do acervo do Museu de Serralves, no Porto, no âmbito da iniciativa "Arte em São Bento".

A ideia era que, tal como as anteriores, a nova exposição fosse inaugurada no feriado de 5 de outubro, mas este ano cairia precisamente na véspera das legislativas e o calendário eleitoral ditou a sua antecipação - explicou ao DN a assessora cultural do primeiro-ministro, Kathleen Gomes.

As 34 peças que estarão expostas em São Bento pertencem a uma das maiores coleções privadas existentes no país - são cerca de mil peças de artistas nacionais e internacionais que abarcam o período do pós-guerra até à atualidade e que podem ser visitadas desde 2013 no Núcleo de Arte da Oliva Creative Factory, em São João da Madeira.

A coleção pertence a José Lima, um industrial do calçado, que diz de si mesmo ser "um colecionador improvável". "Começou a colecionar por gosto próprio. Não tinha relação com a arte e acabou por se entusiasmar", conta Kathleen Gomes.

Uma curiosidade sobre José Lima: detém também um pedaço, de grandes dimensões, do antigo Muro de Berlim.

Uma mostra paritária e de artistas vivos

Dois critérios orientaram a curadora Isabel Carlos na escolha das peças que irão estar expostas em São Bento: a paridade e a escolha de artistas vivos, com enfoque na arte contemporânea de artistas vivos. Assim, das 29 peças expostas - entre pintura, escultura e fotografia - a curadora selecionou 15 assinadas por mulheres e 14 assinadas por homens. "É uma prática minha desde sempre e impôs-se com grande naturalidade."

O segundo princípio permite que a mostra abarque um largo espectro temporal e se encontrem, por exemplo, peças de Artur Cruzeiro Seixas, nascido em 1920, e de Sara Bichão, nascida em 1986.

Mas houve uma terceira linha condutora - ou uma brincadeira, como a curadora a define - e que tem a ver com a expressão tão usada pelos portugueses "o país é Lisboa e o resto é paisagem".

"Esta exposição mostra o contrário, que o resto não é paisagem. Mas também que para os artistas contemporâneos longe da paisagem bucólica, naturalista, do séc XIX , há uma paisagem ameaçada, um apelo ecológico, mas também a paisagem urbana que marca a segunda metade do século XX", afirma Isabel Carlos.

Na montagem da mostra, a curadora deparou-se com o desafio de conciliar a arte com a decoração, já que as salas de São Bento estão longe das características salas de paredes brancas dos museus. "Sendo um palacete oitocentista e com decoração da mesma altura, clássica, portuguesas, foi necessário criar um diálogo com as peças contemporâneas. E acho que resultou num diálogo interessante."

As 34 obras estão instaladas nas principais salas da Residência Oficial, desde as mais públicas - sala de receção, ou sala da lareira, aquela em que portugueses se habituaram ver os primeiros-ministros fazerem declarações; sala de audiências ou sala de jantar - a espaços de trabalho.

"É uma oportunidade de todos os domingos, sem pagar nada, se poder conhecer o Palacete de São Bento, residência oficial do primeiro-ministro e local de decisão e, ao mesmo tempo, ver uma exposição em que podemos contactar com o melhor da arte portuguesa. Além de passar naqueles belos jardins. É um pacote simpático!", diz Isabel Carlos, em jeito de repto ao público.

Os artistas que participam na exposição

Gabriela Albergaria, Vasco Araújo, Manuel Baptista, Eduardo Batarda, Sara Bichão, Maria Capelo, Rosa Carvalho, Lourdes Castro, André Cepeda, Luís Paulo Costa, Graça Pereira Coutinho, Artur Cruzeiro Seixas, Ângela Ferreira, Ana Jotta, João Louro, Daniel Malhão, Ana Marchand, Albuquerque Mendes, Graça Morais, João Onofre, João Maria Gusmão + Pedro Paiva, João Penalva, Paulo Quintas, Paula Rego, Ana Luísa Ribeiro, Mafalda Santos, Pedro Tudela, Júlia e Ventura e Marta Wengorovius.

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