Russell Crowe em tom secundário

Retratando um campeão do começo do século XIX, O Pugilista é um drama com tanto de esquemático como de determinista - um produto banal do streaming que, insolitamente, tem estreia nas salas portuguesas.

Não há muito a dizer sobre O Pugilista, o novo filme de Russell Crowe, realizado por Daniel Graham. A própria classificação de "filme de Russell Crowe" carece de pertinência, já que o ator, nascido na Nova Zelândia, assume apenas um papel secundário na trajetória da personagem central, Jem Belcher - referência lendária na história do boxe, campeão de Inglaterra nos primeiros anos do século XIX -, interpretado pelo galês Matt Hookings.

O nome de Hookings surge, aliás, mais duas vezes no genérico: produtor e argumentista. Dizem as notícias que o seu empenho se enraíza no facto de ser filho de David Pearce, campeão que entrou na história do boxe como o Rocky galês.

Estamos perante uma narrativa convencional, dividida em três partes esquemáticas e deterministas: conhecemos Belcher na infância, inspirado pelo espírito rebelde e lutador do avô (Crowe); acompanhamos a sua ascensão, num contexto em que o boxe começava a ser reconhecido pelas classes sociais mais poderosas; enfim, temos o previsível e interminável combate final, pontuado por muita hemoglobina e uma agressiva banda sonora, numa desastrada imitação de O Touro Enraivecido (1980), de Martin Scorsese.

Resta o insólito, para não dizer absurdo, da própria estreia de O Pugilista nas salas portuguesas, prolongando uma estranha decomposição de critérios no tratamento de alguns títulos em língua inglesa. Convém lembrar que este é um filme com chancela dos estúdios Amazon. As suas produções destinam-se, em última instância, à respetiva plataforma de streaming (Prime Video), raras vezes tendo "direito" a ser vistas nas salas, dispensando até o efeito promocional dos Óscares. Lembremos o exemplo sintomático desse filme prodigioso que é Being the Ricardos, de Aaron Sorkin: nem mesmo as suas três nomeações em categorias de interpretação - Nicole Kidman (atriz), Javier Bardem (ator) e J. K. Simmons (ator secundário) - fizeram com que, no mercado português, o pudéssemos ver em sala.

Que faz, então, com que um produto drasticamente secundário, artisticamente irrelevante e comercialmente frágil, surja agora nas salas da NOS? Será uma tentativa de prolongar o sucesso que já conseguiu noutros países?... Não exatamente.

Se consultarmos uma fonte fiável sobre os dinheiros do cinema (o site Box Office Mojo), verificamos que O Pugilista apenas estreou em dois países (Croácia e Rússia), tendo acumulado uma receita patética: 106 816 dólares (praticamente o mesmo em euros). Entretanto, vai chegando à Prime Video de outros países (por exemplo, no Reino Unido, no passado dia 22).

Enfim, os filmes não são "melhores" nem "piores" por causa das escolhas (legítimas, não é isso que está em causa) de quem os coloca no mercado. Mas face a estas contradições, podemos voltar a perguntar o que se faz - ou anda a fazer - para revitalizar o tão fragilizado circuito das salas. E relembrar que, pelo menos para a Amazon, o nome de Nicole Kidman não basta para valorizar comercialmente um filme.

dnot@dn.pt

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