O escritor Rui Zink regressa ao romance com uma múltipla interpretação de um linchamento.
O escritor Rui Zink regressa ao romance com uma múltipla interpretação de um linchamento.Foto: D.R.

Rui Zink anuncia a sua morte para 2040

Rui Zink apresentou no Correntes d’Escritas o seu novo romance, após uma ausência de alguns anos, e revela que o seu ciclo criativo renasceu com 'Olga Salva o Mundo'. É o regresso à escrita.
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A capa mais parece a de um livro de banda desenhada do que a de um romance, mas Rui Zink aprecia este género de ilustrações e de levar o leitor ao engano. Afinal, só um homem das letras provocador é que adiantaria a data da sua morte na biografia da badana do livro: nascido em 1961, irá morrer em 2040. Segue-se uma lista dos seus best-sellersHotel Lusitano, Apocalipse Nau, O Suplente, O Anibaleitor, A Instalação do medo, O Avô tem uma borracha na cabeça. Não que tenha ficado por aí nos sucessos literários, mas nos últimos anos não tem lançado novos romances. Porquê? Essa é a questão inicial que se lhe põe e a que responde assim: “Não publicava um livro original há seis anos e não publicava um romance com a dimensão deste há nove”. Porquê?, insiste-se, colocando-se várias hipóteses para o referido vazio: descontentamento com o mundo editorial? falta de inspiração? Ausência de leitores… Atalha a pergunta e nega de imediato que o descontentamento com o mundo editorial possa ser uma delas: “Para quem gosta da escrita, essa nunca será uma razão, até porque seria mesquinha”. Então, explica: “Tenho uma teoria, de que existe um espaço de tempo criativo. É como um voo, que pode ser mais curto ou maior, mas a que nunca falta uma subida e uma descida. O que aconteceu é que comecei muito cedo, publiquei ainda com vinte e poucos anos, e a dado momento pensei para mim que toda a gente tem esse ciclo de vida criativa e que o meu já dera o que tinha a dar.”

Rui Zink considera que fez algumas coisas das quais se orgulha: “São trabalhos pontuais que duram um pouco mais do que uma carcaça, no entanto, a minha relação com o mundo e o meu entusiasmo em o tentar compreender, bem como às pessoas, esmoreceu um pouco. Assim, quando fiz sessenta anos, achei que seria a hora de anunciar a reforma». Passaram alguns anos sobre esse largar dos projetos literários, mas o escritor surpreendeu-se a si próprio: “Para espanto meu, agora voltei. Isto porque em vez de começar um livro e parar de escrever a meio, porque já sabia para onde é que ia, decidi ver até onde seria capaz de ir. Fiquei muito contente por ter vontade de continuar a escrever e assistir ao meu próprio regresso à literatura, prolongando a vontade de tentar dizer alguma coisa usando a literatura. Sempre fui um autor que diz coisas e cada um dos meus livros lida com um problema que me interessava e que seria interessante no seu tempo.”

Não tem problema em se definir enquanto escritor: “Sempre fui um temperamental e serei um escritor de circunstância e não de essência. Não trato dos temas absolutos mas temporais, do modo como o mundo está e do modo como o autor está no mundo. Este Olga Salva o Mundo não é sobre o quotidiano, mesmo que o pudesse ser, antes sobre a situação radical que Portugal vive hoje. Não ignoro que muitos dos meus livros são sobre esse quotidiano porque é o meu perfil de escritor, por isso não faço livros históricos. Falo sempre do presente e, nesse sentido, sou como aqueles peregrinos que vão à Terra Santa e compram garrafas que alguém encheu de oxigénio de lá. Os meus livros engarrafam esse ar do tempo e as tensões que quero agarrar porque elas representam o que é o país e o mundo. Ao contrário do que muitos pensam, Portugal não está fora do mundo, faz parte dele, mesmo que o nosso tempo seja mais do disparar antes de perguntar.”

Segundo Rui Zink, há uma “desumanização da sociedade” e vivem-se “tempos de uma crueldade retórica e também prática”. Daí o tema do novo romance: “Parte de um linchamento, algo que sempre esteve presente no mundo. Também de um boato, situação que sempre foi uma forma de destruir e que, estando nós quase a voltar a uma Idade Média, encaminha-nos para a farsa que é a atual forma de lidar com a realidade. Já assistimos ao renascimento e ao maneirismo, já vivemos numa época barroca, já vimos Camões como um poeta da crise e o El Greco a distorcer as figuras. Aliás, a distorção está de novo na moda na literatura e no cinema, repescando o que pertence à época muito louca dos anos 1970, que era muito propícia à distorção. De qualquer modo, a nova geração de escritores portugueses, os que têm 40 anos, não estão interessados nestes temas e preferem as coisas que não têm pé na realidade. Não querem ser como eu, fruto da circunstância das sociedades.”

Rui Zink já referiu que os seus livros dependem em muito da circunstância. Quer deixar bem claro as condições em que escreveu Olga Salva o Mundo e faz a síntese dos tempos e do seu tempo: “Este livro é resultado da situação errática e crítica que estamos a viver nos últimos anos. Por isso posso dizer que já não tenho a ambição ou o entusiasmo de um jovem. Há uns tempos disseram-me que deveria escrever um novo Hotel Lusitano e contar como está a noite em Lisboa e no Bairro Alto. Eu respondi logo: «Agora, deito-me às dez da noite. Já não sou a pessoa certa». Este livro é também fruto das minhas limitações; num dos capítulos ponho duas jovens mas escrevo por ouvido, não sei com que vocábulos os jovens agarram o mundo hoje. Portanto, é o livro possível, é um livro honesto e acho que fiz uma coisa bonita.”

Sobre o método, refere: “Faço muita investigação caótica e ao sabor das ondas. A minha cabeça e o meu coração são como ímanes e os objetos vêm colar-se a mim. Fotografo muito notícias de jornais e coisas triviais que reformulo à minha maneira. Quanto a esta história, a de um linchamento, creio que é uma hipótese cada vez mais provável em Portugal e nem será ficção. Até porque a ficção anda pelas ruas da amargura tal é a realidade. Neste momento, estamos a ser ultrapassados todos os dias por coisas feitas e ditas que não lembram ao diabo – só lembraram ao ser humano. A mim, resta-me observar o mundo e lê-lo à minha maneira. Para mim, é essa a definição de escritor.

Olga Salva o Mundo é um romance em que o autor não esconde o rumo da narrativa. Para Rui Zink um livro deve ser como um bom policial e ter “nas primeiras páginas o nome do criminoso”. Continua: “Qualquer romance deve ter dois movimentos; o que diz ao que vai e depois outro movimento, como se atravessasse várias dimensões e fosse do género daquelas bonecas russas de encaixar. Gosto muito de fazer ziguezagues mentais, ser muito irónico e também de usar a terceira pessoa para evitar os tiques verbais do narrador. Aprendi com o Coppola a noção de ritmo na montagem e apliquei essa lição neste livro: há três capítulos com vozes diferentes a contar a história; logo de início é apresentada a heroína, uma ingénua representante do bom senso; no segundo capítulo temos só o próprio narrador; há pessoas que não têm história e não voltam a aparecer e outras que, pelo contrário, ressurgem no arco narrativo ao longo da história.”

Tendo o novo romance sido apresentado nas Correntes d’Escritas, Zink não deixa de fazer um comentário sobre os escritores que lá vão: “Muitos jovens escritores, sobretudo os publicados, têm vidas melhores do que tiveram os mais velhos, mas gostam de relatar as suas dificuldades em lançar um primeiro livro. Assisti a várias mesas em que cada um dizia «a mim, recusaram-me 20 vezes». Em seguida vinha uma que tinha sido 40 vezes, e no fim havia quem atingisse as cem recusas. Também aparece sempre uma sirigaita espanhola que diz «eu nem queria publicar, o editor é que insistiu porque achou muita graça ao meu manuscrito». Ou no caso das traduções, que deixam os jovens escritores muitos eufóricos por as conseguirem enquanto na geração acima da minha não havia grandes expectativas de serem traduzidos. O Saramago sim, o Cardoso Pires numas quatro línguas, o Aquilino Ribeiro talvez em uma e meia, a Agustina acho que em vida não o foi em nenhum sítio. Ou seja, os jovens escritores nem sabem o que é sofrer e quando vão escrever sobre o sofrimento é uma coisa emprestada. Isto para voltar aos meus livros; são sobre a circunstância mas também sobre a frustração. As pessoas perguntam-me qual é o meu segredo mas não o revelo.” Ao insistir-se, Rui Zink dirá qual é: “Tenho muita experiência de sentir inveja dos outros, de sentir-me injustiçado e de me sentir maltratado.”

OLGA SALVA O MUNDO

Rui Zink

Porto Editora

272 páginas

PEREGRINAÇÕES FASCINANTES

Já é o segundo volume com a obra do poeta japonês Matsuo Bashô que a Assírio & Alvim publica. Depois de O Eremita Viajante (2016) chega agora às livrarias os seus Diários de Viagem e alguns poemas em prosa, um conjunto de relatos de expedições que fez através do seu país, descritas em prosa e intervalados por várias poesias que têm a ver com o percurso e o que viu e sentiu. No mínimo, pode dizer-se que estas páginas são muito inspiradoras e que Bashô consegue transportar o leitor para cenários de grande beleza e sensibilidade, fazendo até com que se regresse no tempo e observe com os olhos de há alguns séculos – o XVII – aquilo que o rodeia, a mentalidade de então com grande bonomia, a religiosidade própria de uma época; tudo isto sobre uma estrutura muito própria da filosofia taoista, da poesia chinesa e da caligrafia. Com uma introdução do responsável da edição, Jorge Sousa Braga, e mais de uma centena de anotações que permitem inserir o poeta na época, estes Diários de Viagem arriscam-se a ser uma das melhores leituras do ano – mesmo para quem não seja atreito ao género do haiku.

DIÁRIOS DE VIAGEM

Matsuo Bashô

Assírio & Alvim

171 páginas

MEMÓRIA DE CONQUISTADORES

O historiador Pierre Bauduin dá início a este seu ensaio com a seguinte frase: “Os vikings são fascinantes”. Até poderiam não o serem, mas o modo como os descreve e faz a sua história, é impossível não seduzir o leitor. Muitas das fontes para a elaboração deste ensaio vêm de observadores que não são escandinavos, mas árabes, bizantinos e povos que foram vítimas das suas violentas incursões pelo ocidente, neste último caso antes de serem “amaciados” pela atividade do comércio. A interpretação das suas ocupações fora da Noruega ou da Islândia, como a do norte e oeste da Escócia, bem como da Irlanda, permitem esclarecer muito da cultura e sociedade que se instalou nestas paragens. Interessante também é o poder da sua literatura, as sagas vikings que até hoje marcam bastantes livros e até mentalidades.     

OS VIKINGS

Pierre Bauduin

Guerra & Paz

150 páginas

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