Rui Massena: "Agrada-me que alguém cozinhe a ouvir o meu disco"

Maestro portuense tem novo álbum, que apresenta uma incursão no mundo da eletrónica à descoberta de novos sons. "É um avanço na minha identidade como compositor", diz o músico para quem "o otimismo está acima de qualquer ideologia"

Rui Massena não renega a etiqueta de maestro pop que lhe é colada. "Adoro", diz mesmo. Faz parte de uma personalidade que assume a dependência de "comunicar", de "conhecer", de "cruzar fronteiras", de se "desafiar" constantemente. Mas não o deixa "refém" de qualquer estado de popularidade, garante, em conversa com o DN a propósito do lançamento do seu novo álbum.

'III', que chegou às lojas a 3 de novembro através da Universal Music, é o terceiro disco de uma faceta de compositor que começou em 2015. Três é também considerado o número perfeito para a numerologia.. Três são os pontos que servem para formar a figura primordial de um triângulo, como aquele que aparece na capa deste novo álbum de Rui Massena. E três foram as cidades por onde passou este trabalho, entre o Porto, Berlim e Nova Iorque.

Depois de 'Solo' (2015) e 'Ensemble' (2016), que conseguiram o feito raro, entre o universo da música instrumental, de chegar aos primeiros lugares dos tops de venda nacionais, 'III' chega com o selo da prestigiada editora alemã Deutsche Grammophon, juntando-se assim Rui Massena a um catálogo que inclui os artistas mais marcantes da música clássica do século XX, de Leonard Bernstein a Herbert von Karajam, passando por David Garrett, Wilhelm Kempf ou Maria João Pires.

O novo álbum vem na sequência da experiência de palco ao longo do último ano com a Rui Massena Band, que apresentou como uma plataforma de experimentação para lá do universo mais clássico, de fusão entre diversos estilos e influências. "Mas esta não é a Band que se ouviu em palco", adverte.

"É um avanço na minha identidade como compositor", diz o maestro e compositor portuense, de 45 anos. "O desafio com a Band foi descobrir novos sons, aumentar o meu léxico, tentando criar conjugações sonoras originais. E, no fim deste processo, reconheci para onde quero ir", acrescenta.

Com sete temas instrumentais, 'III' vai ser apresentado em primeira mão num showcase na Fnac NorteShopping, em Matosinhos, no próximo dia 30 de novembro, e tem já palcos marcados para espetáculo ao vivo no Coliseu do Porto, no dia 1 de fevereiro do próximo ano, e no Casino do Estoril, a 18 de abril.

Antes disso, Rui Massena esteve à conversa com o DN sobre o novo álbum e sobre a sua evolução artística na "procura constante" da felicidade.

Da banda em palco para o estúdio

O que se pode esperar deste novo álbum? Que diferenças há entre o projeto de palco com a Rui Massena Band e este disco?
Olhe, acho muito importante uma frase - que acho que é do Rousseau, filósofo francês do iluminismo -, que diz isto: "no momento em que atinges a felicidade, deixas de ser feliz". O processo da procura é que é a felicidade. E eu sou uma pessoa que precisa de ir à procura constantemente. Quando olho para trás, é isso que eu vejo na minha vida. E agora foi igual. Há muito tempo que a minha formação é ligada ao acústico, seja na direção de orquestra ou no piano, nas escolhas musicais, tudo. Mas há muito tempo que acompanho também a sociedade na sua evolução e no universo eletrónico, tudo aquilo que tem a ver com os samplers, os sintetizadores... O grande desafio neste processo foi conjugar, de uma forma impercetível, o acústico e o eletrónico.

Trazer a eletrónica como um elemento natural, não intrusivo, para o seu ambiente sonoro?
Criar uma espécie de um mundo novo que se junta entre os dois. Foi um processo que foi da composição para a estrada, fiz concertos muito disruptivos, com uma formação com músicos de muitas etnias musicais, mas sobretudo músicos que não têm grandes barreiras musicais. Uns que estão mais ligados à música contemporânea, outros à música de orquestra, outros mais ao jazz e improvisação. Eu tentei conjugar essas influências, no fundo fui o pivô e com eles construi isto. E depois saí deste processo da estrada e fui gravá-lo. Então tinha de gravar a versão daquilo que já ouvia na minha cabeça, que era um disco totalmente diferente daquilo que aconteceu na estrada.

Não há aqui uma ideologia nem de clássico, nem de jazz, nem de rock, há um otimismo. Porque eu gosto que o meu disco seja uma boa companhia

E porquê diferente?
Porque ao vivo há muitos sentidos que entram a jogo: há uma dimensão de audição, mas também de visão, da interação com a presença de alguém numa sala de concertos. O disco só tem dimensão das colunas. E através das colunas temos que passar o que queremos. E foi disso que eu fui à procura. Então temos um disco em que o piano se mantém a voz principal, mas no qual queria que o universo sonoro construído à volta do piano fosse ele também desafiante. Sem perder coisas que eu acho muito importantes para mim: que o disco mantenha tranquilidade ao longo de toda a audição e que se fique com a sensação de otimismo, se é que isso é possível. Diria que o otimismo está acima da ideologia. Não há aqui uma ideologia nem de clássico, nem de jazz, nem de rock, há um otimismo. Porque eu gosto que o meu disco seja uma boa companhia. Não me canso de dizer isto, porque para mim, um homem que dirigiu clássico em que sentava as pessoas para ouvir os grandes compositores, hoje agrada-me que alguém cozinhe a ouvir o meu disco, conduza a ouvir o meu disco, que alguém converse a ter o som do meu disco de fundo.

Sente muito essa vontade de cruzar caminhos, romper fronteiras na música?
Sim... é a procura. A procura.

E essa procura constante da felicidade de que falava significa o quê? Que é um eterno insatisfeito?
Não, eu satisfaço-me no processo de procura. Satisfaço-me porque tenho novos projetos. Satisfaço-me porque eu podia ter continuado um caminho de sucesso, como foi o Ensemble, que chegou a n.º1 nacional, ou o Solo, que chegou a nº 2 nacional, mas eu não fui por aí, fui à procura daquilo que me desafiaria, daquilo que me mobilizaria para procurar esse amor pelas coisas. O amor é a disponibilidade também, é estar disponível para ir atrás. E eu acho que fui atrás. Fui atrás de conviver com opinião contraditória, dos outros, dos músicos com quem trabalhei, aceitei fazer esse caminho difícil de ouvir o que queria e que não queria. Aceitei não conhecer a linguagem dos instrumentos, muitos dos instrumentos com que trabalhei... de uma bilha, por exemplo, de um sintetizador. Aceitei não conhecer.

O desafio motiva-o?
Eu acho que é conhecer. E é estar mobilizado nos processos. Uma pessoa ser músico, ou ser um criador, é ir à procura da nossa linguagem. E a minha linguagem não é arrebatar fórmulas, não tenho interesse nenhum nisso, isso não me faz evoluir. É encontrar coisas novas.

Foi isso que o fez saltar do mundo muitas vezes tido como hermético da música clássica? Sentia-se limitado?
Não, os últimos séculos da música clássica ocidental são por si só um enorme desafio, incomensurável. Jamais conseguiria esgotar o desafio da música ocidental, só, já para não ir para outras. Cada obra que se visita é um caminho sempre a descobrir coisas novas. A música clássica representa a união da pessoas para fazer uma coisa que é metafísica, que é o profundo otimismo, que é o modelo ideal da sociedade, algo acima da ideologia, aquilo que é realmente a utopia aplicável. A música sinfónica tem isso. Eu é que senti que eu próprio precisava de criar o meu universo sonoro. Foi só por isso. Não são mundos comparáveis. Na clássica eu sirvo o compositor. Aqui, eu sou o compositor.

O triângulo Porto-Berlim-Nova Iorque

O primeiro álbum, Solo, em 2015, foi gravado em recolhimento em Alfândega da Fé [Trás-os-Montes] e foi uma espécie de "terapia", disse na altura, que o fez ultrapassar o trabalho intenso ligado ao projeto Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura. Com o Ensemble, disse ter voltado ao seu habit natural, das orquestras. Este III marca o quê na evolução do seu trajeto?
Não sei se o sei definir. Sei é que quando revejo agora este triângulo Porto-Berlim-Nova Iorque, pontos por onde passou a produção do disco, identifico uma contemporaneidade, uma certa procura de vanguarda musical, de exploração de som... Berlim é uma cidade de que gosto muito, porque tanto em eletrónico como no acústico tem o melhor das duas áreas, Nova Iorque tem o melhor das duas áreas. O Porto é uma cidade em ebulição no sentido criativo. Não foi por causa disso que eu o fiz, mas agora que faço essa associação vejo que tudo isso faz sentido. Ou seja, não é recolhimento, é até uma certa ebulição citadina. Penso que esta música tem esses elementos, é uma música mais desafiante nesse sentido.

a minha linguagem não é arrebatar fórmulas, não tenho interesse nenhum nisso, isso não me faz evoluir. É encontrar coisas novas.

O que bebeu de cada um dos sítios desse triângulo durante o processo de criação e gravação?
Bebi muito de ter construído grande parte deste disco no meu estúdio, na Granja, na tranquilidade da praia. Aí sim. Depois, o que eu fui buscar a Berlim foi a excelência. Aqui com o Mário Barreiros [produtor] e com os músicos construímos a grande parte. A banda começou a ensaiar no cinema Charlot [antiga sala de cinema do Porto], lembra-se? Está todo remendado, cheio de pensos, mas foi ali que tudo começou, no Brasília [primeiro centro comercial do Porto, inaugurado em 1975], onde as pessoas iam ver as escadas rolantes... Portanto, comecei lá o caminho, depois fui a Berlim buscar um engenheiro de som [Tobias Lehman] extraordinário, condições acústicas e técnicas do estúdio, o piano que toca com a Filarmónica de Berlim, um Steinway, que é um Fórmula 1, e depois fui a Nova Iorque buscar outra vez condições técnicas e capacidades de pessoas como o Joe Laporta [vencedor de um Grammy] , que fez uma masterização exatamente como eu queria que pudesse ficar o disco. Ou seja, fui buscar o melhor de cada um dos sítios, mas não posso dizer que foi lá que eu fui buscar inspiração. Isso não. Se me perguntar: é lá que eu vou muitas vezes beber inspiração? Sim. Agora diretamente para este álbum não. Mas vou quase anualmente a Berlim, vou ouvir ensaios, ouvir concertos, música eletrónica, gosto de me influenciar.

É a sua cidade europeia de eleição nesta altura?
É, claramente. Já há muitos anos.

Qual a importância de surgir associado a uma etiqueta como a da Deutsche Grammophon?
Bom, quando eu estudava música, na faculdade, nós íamos comprar os discos da etiqueta amarela porque sabíamos que eles eram bons. E depois quando vemos o percurso técnico da Deutsche Grammophon, sabemos que foram pioneiros em tudo o que foram os avanços técnicos na música. Sob o ponto de vista artístico, têm porventura a história mais rica de gravações todo o séc. XX, e agora inícios de séc. XXI. Isto conjugado com o facto de no meu disco anterior terem escolhido uma faixa para estar numa compilação do que eles definem, nos últimos 20 anos, como movimento neoclássico, ao lado de pessoas que a nível mundial são muito ouvidas... Esta é uma parceria internacional que eu tenho com eles, não é só nacional. A minha música vai ser distribuída a partir da Alemanha para todo o mundo. Quer dizer, para mim é... por um lado, estar no lado certo da história, se é que isso existe, e é ter a oportunidade de mostrar isto ao mundo. Porque é que isto me motiva muito? Além, claro, do prestígio que é, naturalmente, para mim, acho que isto me vai abrir curiosidades. E a curiosidade é obrigatória. Quanto mais estímulos tivermos, mais encorajados ficamos em querer fazer coisas diferentes. Depois deste disco, que foi um disco que deu muito trabalho, acho que vai ser bom ter estímulos internacionais para procurar outras salas, outros países, outros sons, parcerias. Isto [a Deutsche Grammophon] muda um bocadinho.

Os dois discos anteriores entraram para os tops de vendas, um feito raro no universo da música instrumental em Portugal. Espera o mesmo sucesso com este 'III'?
O primeiro disco foi muito difícil, porque comecei logo com muitas críticas à volta. Esse foi muito difícil, porque eu vim do universo da música clássica como maestro e não sabia se podia existir enquanto compositor. Agora já não ponho isso em questão, a minha existência como compositor, apenas no sentido em que me faz querer fazer sempre melhor. Acho que o aspeto comercial é importante para a vida da indústria, é importante que se vendam discos para que a indústria possa continuar - e todos os parceiros, não sou só eu; sou eu, os músicos, as editoras, as agências, os managers...Ou seja, não tenho uma visão distanciada do aspeto comercial, mas neste momento é mais distante. Não é indiferente, atenção, eu sou o comandante do meu barco. Mas aceito se este disco for comercialmente menos bem sucedido.

Já não interfere com a sua autoestima criativa?
Não. Eu não fiz este disco para vender muito ou vender pouco. Não há fórmulas. Se eu estivesse à procura da fórmula de ter um disco n.º1 de vendas nacional, teria feito um disco exatamente igual. Já sei como é. Teria feito um disco de piano e cordas, não me tinha metido a fazer um disco a "rasgar"... Se eu tivesse medo de ir a jogo, teria tentado manter o mesmo modelo, porque sabia ao menos que as pessoas iriam gostar daquilo. Não é isso que me move. O que me move é ir à procura. E tenho muitas pessoas que me deixam sonhar porque me compram os meus discos, vão aos concertos e gostam e querem que eu vá à procura.

O primeiro disco foi muito difícil, porque vim do universo da música clássica como maestro e não sabia se podia existir enquanto compositor. Agora já não ponho isso em questão

Não está refém da popularidade e das vendas, portanto?
Não. Se eu estivesse deixava de cortar o cabelo, deixava de... sei lá, fazia só as coisas que resultavam. E quando olho para trás vejo que tenho feito as coisas que me apetecem. Não é de agora. Faço porque preciso delas. Não é por sobranceria, por arrogância. Não. Preciso desse processo de aprender. Ainda não estou com as pantufas calçadas.

O maestro pop e os preconceitos

Também já disse algumas vezes que sente que é facilmente "mal entendido". Ainda encontra algumas resistências ou já se sente mais compreendido? Como olha para essa aceitação?
Não olho. Talvez o que tenha mudado não seja o mundo, mas eu. Eu é que já não olho para isso com a mesma importância. No primeiro disco, sim, olhava com alguma importância, porque era a minha primeira experiência como compositor, mas agora olho menos. Na verdade aquilo que eu espero é agradar às pessoas que me vão comprar e que vão a bem aos meus concertos e que lhes apetece ouvir o que tenho para dizer. Eu esgotei os concertos que tive com a Band e as pessoas não sabiam o que é que iam ouvir. Isso foi um sinal para mim, foi um cheque em branco que as pessoas me deram que eu tentei respeitar ao máximo. Deus me livre de olhar para as cadeiras vazias, Deus me livre de olhar para as pessoas que não gostam da minha música. Eu vivo por bem, não vivo focado no que não me interessa. Eu vivo focado na minha música.

Mas sente preconceito de alguns setores mais... eruditos?
Acho que não. Acho que na verdade nunca houve. Só duas ou três pessoas, ou meia dúzia de pessoas que para existirem têm que ser preconceituosas. Mas não é só em relação a mim, é em relação a tudo. Não acho que haja razão para haver preconceito. Por acaso não acho. Quando a Deutsche Grammophon não tem preconceitos, como é que alguém pode ter? Preconceito em relação a um tipo que é formado em direção de orquestra, que esteve 12 anos à frente de uma orquestra como titular, que criou as suas coisas, que estudou, que continua a estudar... que tipo de preconceito é que podemos ter? Não gostar da minha música? Isso é a coisa mais normal do mundo. Agora, que tipo de preconceito é que temos? Se eu fosse um tipo desonesto a fazer o meu trabalho... agora eu estudei, e estudo, sei tanta coisa sobre música, continuo a querer aprender aos 45 anos. Não sinto isso. Não sinto porque não vivo nesse mundo.

Há uma definição normalmente utilizada em relação a si, que é a de "maestro pop". É uma etiqueta que lhe agrada? Gosta dela?
Gosto. Adoro. Então não é uma boa definição. Então veja o que o Dudamel [maestro venezuelano] está a fazer em Los Angeles agora.... está a pegar nos cantores todos e a tocar com eles. Adoro.

E tem preocupação em passar essa imagem do maestro pop? É uma figura que alimenta?
Uma pessoa não se aguenta 20 anos a fazer coisas se estiver a enganar as pessoas. Não se aguenta. Percebe o que eu digo? A minha vida está tão à vista que é impossível enganar.

Hoje já se sente mais compositor e intérprete do que maestro? Como faz essa gestão interior?
São dois mundos diferentes. Quando voltar a dirigir uma obra de um compositor, Beethoven, Mozart ou Mahler, o que for, serei maestro e estarei a servir a obra do compositor, cada nota que o compositor escreveu. Enquanto compositor, estou a fazer as minhas composições, estou a criar aquilo que me apetece fazer, da forma que me apetece fazer em cada momento.

Uma pessoa não se aguenta 20 anos a fazer coisas se estiver a enganar as pessoas. Não se aguenta

O início de tudo foi o piano...
Está aqui. Foi com este pianinho [aponta, para o meio da sala da escola de música], em casa dos meus pais. Agora trouxe-o para aqui para reproduzir para os miúdos aqui da escola aquilo que reproduziu para mim.

A grande paixão está ali? É aquela? É o piano?
A grande paixão é o papel que a música tem na sociedade. A grande paixão que eu tenho é juntar as pessoas através da música, a música ser um bem comum. Porque a música sempre me juntou desde muito novo a pessoas de muitos estratos sociais, de muitas ideologias, e a música está acima disso. Essa é a grande paixão. Seja a fazer Mahler como diretor de orquestra, seja a tocar um standard jazz em contrabaixo, seja a fazer a minha música, seja a cantar num coro, seja o que for... a minha grande paixão é o papel que a música tem em unir as pessoas.

Motiva-o chegar aos outros?
Sempre. E é deslumbrante ver o poder que existe e que a música tem, quebra todas as barreiras. E até gosto de reforçar isso numa altura em que o mundo está tão carente dessa capacidade de estar acima das ideologias. As ideologias são guetos que nos destroem.

Os guetos e a cultura de fachada

A música, e as artes em geral, ainda têm força para influenciar socialmente a esse nível ou perdeu-se força de intervenção? Que papel têm as artes na destruição desses guetos de radicalização?
Têm força, têm. Porque nos meus concertos vejo líderes políticos de uma área e de outra, pessoas diferentes a cumprimentarem-se e a darem-se bem. Portanto, eu vejo que a música é capaz de produzir isso. Se os líderes políticos ali dão-se bem e se abraçam e conversam no final, e estamos ali todos bem, porque não será possível noutro contexto?

Que importância teve a experiência em Nova Iorque [no Carnegie Hall], a panela cultural do mundo, neste seu espírito experimentalista?
As experiências emocionalmente mais intensas são aquelas que nos fazem aprender. Aquelas em que estamos envolvidos. E essa teve o dom de me envolver no contexto de uma cidade que eu admirava. Mas também lhe vou dizer uma coisa: eu admiro hoje mais cidades como Porto e Lisboa do que propriamente Nova Iorque. Eu gosto dessa capacidade de Nova Iorque em saber receber tudo e todos. Mas nós também a temos. E se calhar até um bocadinho mais. Acho que estamos a viver um momento na sociedade extremamente potente, no nosso país, para transformar isto em alguma coisa de útil que não seja apenas mostrar aos outros [turistas]. Temos de concretizar isto em opções identitárias, temos de ser um país... Porto e Lisboa têm de ser as Nova Iorques do futuro. E podem não ser. Têm todas as condições, têm um povo que respira liberdade, que respira inspiração, boa onda, história, temos é que ter opções políticas que não vão só atrás das tendências das redes sociais, mas que vão atrás de um pensamento estruturante para a sociedade. Estruturar a criatividade é um ato fundamental para que nós no futuro possamos ser a tal Nova Iorque.

Estruturar a criatividade é um ato absolutamente fundamental. E tem a ver com identidade cultural.

E como podemos fazer isso?
É fácil. Com políticas de estruturação mínima da criatividade. Dar valor à criatividade.

Não se dá?
Não, não...claro que não. Eu costumo dizer que faço sempre o teste do algodão quando se espreme o que está a acontecer numa determinada cidade para se ver quais são as oportunidades que sobram. Quais são as oportunidades que sobram na cidade do Porto ou em Lisboa para os músicos, e vou só falar de música... Os músicos têm um circuito artístico que consigam frequentar? Conseguem viver bem da música? Conseguem ter oportunidades? As pessoas pagam bilhete? Vão aos concertos? Nas escolas, a música é uma prioridade? De que forma a música é dada nas escolas? E esta opção de ensino artístico, é só dar dinheiro ou estamos realmente a construir algo? Mas depois do ensino artístico, há saídas para o ensino artístico? E as casas culturais? E a Casa da Música e o São Carlos são casas que de facto construam o nosso tecido criativo? E daí, temos um sistema médio, ou passamos do muito bom, que é a Casa da Música, Serralves e Gulbenkian para o absolutamente precário? Temos um tecido médio? Temos realmente uma assimetria tão elevada como os países de terceiro mundo ou temos um sistema sustentado? Não temos. Portanto, há que fazer trabalho aqui, para sustentar o sistema nos seus vários players, na base da pirâmide. Não adianta nada ter o topo e depois não ter nada no meio, que é o que acontece. Nós, músicos, temos de ir todos dar aulas, todos viver precariamente, porque os políticos acham que isto é uma coisa extraordinária. Estruturar a criatividade é um ato absolutamente fundamental. E tem a ver com identidade cultural...

Temos uma cultura de fachada, é isso?
Acho que as artes continuam uma cultura de fachada, sim. Sempre que surge um novo membro no governo, caso agora da nova ministra da cultura [Graça Fonseca], eu fico sempre satisfeito pela possibilidade de alguma coisa mudar. Espero sinceramente que alguma coisa vá mudar. E temos de dar todo o crédito a essa possibilidade. E dar algum tempo. Há muitos sistemas, não é só o Estado que tem de por dinheiro, mas tem de ajudar a estimular. Não é só dar, é estimular.

A sociedade está a extremar-se muito e eu não quero fazer parte dessa coisa. Não aceito isso. Temos de evitar meter-nos nestes guetos, porque isto vai rebentar em cima de nós.

Estamos a falar na escola de música Rui Massena, que montou há quatro anos aqui na zona das Antas, perto do Dragão, onde está outra das suas paixões, que é o FC Porto. Como é a sua relação atual com o futebol?
Nesta altura, está muito moderada. Porque não gostei de ver nos últimos tempos esta falta de moderação no futebol. Tira-me vontade de ver o jogo. Fico muito feliz por o FC Porto ser campeão, fico muito feliz quando o FC Porto ganha, tenho os meus lugares no estádio, mas há cerca de um ano e meio para cá estou mais reservado. Eu gosto que duas pessoas com clubes diferentes, religiões diferentes, opções sexuais diferentes possam sentar-se e conversar de uma forma tranquila. Não pode existir essa divisão. E a sociedade está a extremar-se muito e eu não quero fazer parte dessa coisa. Não aceito isso. Nós temos de evitar meter-nos nestes guetos, porque isto vai rebentar em cima de nós.

E voltamos a este "III", é um manifesto contra os guetos musicais?
É isso. A música está acima de isto tudo.

Pode ver abaixo o vídeo do primeiro single lançado, The Tree.

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