Um elogio da harmonia familiar... ou talvez não.
Um elogio da harmonia familiar... ou talvez não.

'Rosebush Pruning'. As rosas e os espinhos de uma família

Cineasta brasileiro Karim Aïnouz reuniu um elenco internacional para o seu novo filme, 'Rosebush Pruning' — o retrato de uma família disfuncional inspira-se em 'I Pugni in Tasca', de Marco Bellocchio.
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Sinal dos tempos: as múltiplas crises - económicas e políticas, mas também afetivas, sexuais e simbólicas - que atravessam o nosso querido mundo ocidental têm dado a origem a ficções de indisfarçável azedume sobre a fragilidade das nossas mais ancestrais instituições, a começar, como é óbvio, pela família. O mais recente filme do cineasta brasileiro Karim Aïnouz, Rosebush Pruning, aí está como mais uma prova eloquente desse estado das coisas.

Para o melhor e para o pior, essa visão amarga e doce (mais amarga do que doce, convenhamos...) das maleitas civilizacionais dos humanos tem sido uma bandeira de autores como o grego Yorgos Lanthimos. Através de títulos que vão de Canino (2009) a Histórias de Bondade (2024), passando por A Lagosta (2015) e O Sacrifício de um Cervo Sagrado (2017), Lanthimos não nos faz esquecer uma “mensagem” traumática. A saber: a nossa crença, religiosa ou pagã, numa evolução positiva das relações sociais está condenada a desfazer-se perante o misto de cinismo e crueldade das personagens que nos são apresentadas.

Tais referências estão longe de constituir um detalhe irónico. Na verdade, Rosebush Pruning tem como base um argumento do grego Efthimis Filippou, precisamente o mesmo que escreveu os filmes de Lanthimos acima citados. Podemos até identificar uma mesma obsessão temática: as personagens de uma família alheia a qualquer drama financeiro vivem num espaço paradisíaco (em que os objetos mais caros da moda existem como troféus sociais), ao mesmo tempo que se vão acumulando os sinais de uma violenta decomposição moral que, em última instância, pode pôr em causa a sobrevivência de cada um dos seus membros.

Rosebush Pruning evolui como um desencantado conto moral sobre tão bizarro ambiente. Dir-se-ia que a sua visão universal surge explicitada na escolha de um título inglês para o lançamento do filme (não apenas entre nós, mas em mercados de todo o mundo, do Brasil até à Alemanha). De forma literal, “rosebush pruning” poderá traduzir-se como o “corte”, ou melhor, a “poda das roseiras”. A justificação da expressão aparece logo na abertura do filme quando Ed, um dos quatro filhos (Jack, Anna e Robert são os restantes) que vivem com o pai numa luxuosa vivenda da Catalunha, contempla as rosas do jardim, filosofando sobre o seu destino - por vezes, para defender a planta torna-se necessário amputar algumas das suas flores...

A metáfora não podia ser mais transparente. A ilusória harmonia da família vai ser abalada pela chegada de Martha, noiva (ou talvez não...) de Jack, o filho mais velho. Karim Aïnouz encena tudo isso, não exatamente como um estudo psicológico de uma família (à maneira, por exemplo, de obras clássicas de George Cukor ou Vincente Minnelli), antes como um inusitado teatro de marionetas. Cada personagem existe como uma figura agitada e contraditória, quase burlesca, que vai mudando de máscara para envolver, seduzir ou destruir o companheiro do lado.

Memórias italianas

Um curioso reflexo do simbolismo de tudo isto será a variedade de talentos do próprio elenco. Assim, Ed é interpretado por Callum Turner, candidato, segundo alguma imprensa inglesa, a ser o novo James Bond; Jack está a cargo de outro inglês, Jamie Bell, enquanto Anna e Robert, respetivamente Lukas Gage e Riley Keough, vêm dos EUA, tal como Tracy Letts, no papel do pai, e Elle Fanning, assumindo a “intrusa” Martha - Letts é também um brilhante dramaturgo e argumentista (lembremos Um Quente Agosto, com Meryl Streep, dirigido por John Wells em 2013, a partir de uma das suas peças); Fanning continua a ser exemplar na representação de uma vulnerabilidade que tenta conhecer-se melhor.

Enfim, importa acrescentar que o argumento de Rosebush Pruning se inspira no clássico I Pugni in Tasca (1965), primeira longa-metragem do italiano Marco Bellocchio, filme admirável também centrado nas cruéis atribulações de uma família complicada ou, como agora é moda dizer-se, disfuncional. A provar, afinal, que a tradição ainda é o que era.

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