Rogério Samora. O galã insubmisso 

Figura marcante do teatro, cinema e televisão nas últimas décadas, o ator Rogério Samora morreu esta 4.ª feira. Tinha 62 anos.

Era um insatisfeito com o mundo mas sobretudo consigo mesmo, a quem as personagens tantas vezes ficavam curtas. Rogério Samora morreu esta 4.ª feira, aos 62 anos e deixa um legado único no teatro, cinema e televisão portugueses, mas lesse ele estas linhas e estaria a dizer que muito mais importante é o que ficou por fazer. Fazia, desmanchava, voltava a tentar, estava sempre à procura, no desassossego de quem nunca se contentou com a fama fácil da televisão ou com o rótulo de galã que lhe foi colada desde a juventude. Numa entrevista ao JL, em setembro de 2006, durante a promoção de um dos cincos filmes que fez com Fernando Lopes (98 Octanas), dizia: "Estou numa fase de dar cabo. Quero com isto dizer desconstruir para voltar a construir. Onde irei dar? Não sei, por ora saboreio a viagem interior."

Nascido na Amadora a 28 de outubro de 1959, José Rogério Filipe Samora (assim batizado em homenagem ao craque do Benfica, Rogério) cedo se tomou de amores pelo mundo do espetáculo, levado pela mão da avó materna, com quem passou boa parte da infância, ao Cine Royal da Graça e ao Parque Mayer. Frequentou o Conservatório e estrear-se-ia na mítica Casa da Comédia, dirigida por Filipe la Féria. Fez um pouco de tudo naquele teatro já desaparecido (foi assistente de produção, vendeu bilhetes, porteiro) mas rapidamente deu nas vistas como intérprete de A Paixão segundo Pier Paolo Pasolini; A Marquesa de Sade e Eva Péron. Nos anos seguintes trabalharia com alguns dos mais importantes encenadores portugueses, de Luís Miguel Cintra a Carlos Avilez, sem esquecer Fernanda Lapa ou João Lourenço.

Admitia, no entanto, ter uma predileção especial pelo cinema. Aos 28 anos, estreou-se em O Bobo, de José Alvaro Morais e logo a seguir integraria o elenco em Serenidade, de Rosa Coutinho Cabral. Fez sete filmes com Manoel de Oliveira (Le Soulier de Satin; A Caixa; Party; Palavra e Utopia; Porto da minha Infância , Quinto Império e Singularidades de uma Rapariga Loura), mas trabalhou também com João Botelho (O Fatalista e A Corte do Norte), António Pedro Vasconcelos, Miguel Gomes, Fernando Vendrell e João Moreira e Pedro Santos. Por estrear está ainda Amadeo, o filme biográfico do pintor Amadeo de Souza Cardoso assinado por Vicente Lopes do Ó.

Não se pode, no entanto, falar da carreira de Rogério Samora sem referir a relação muito profunda que teve com realizador Fernando Lopes (1935-2012). Em 1988, num autêntico salto de fé, o cineasta (na altura já consagrado por filmes como Uma Abelha na Chuva e Belarmino) desafiou o jovem ator a interpretar o papel de um homem de meia idade que, após anos de afastamento, regressa à sua aldeia de Trás-os-Montes para executar uma vingança. Foi Matar Saudades, a primeira obra de uma parceria que ainda nos daria O Delfim, baseado no romance homónimo de José Cardoso Pires (2002); Lá Fora (2004); 98 Octanas (2006) e Os Sorrisos do Destino (2010). "Com o Fernando não se pode estar distraído. Ele é muito exigente, mas também de uma total honestidade consigo próprio e com os outros. Ninguém mais do que ele respeita o trabalho dos atores", dizia ainda o ator na referida entrevista ao JL.

Nos últimos 15 anos, as dezenas de telenovelas que fez para a SIC e TVI trouxeram-lhe uma popularidade de que gostava mas que nunca lhe bastou. Escrevia, lia, investigava sempre, procurava constantemente novos projetos, ouvia conselhos dos amigos, a quem também dava um terno, mas histriónico "puxão de orelhas", se fosse caso disso. Sempre que o ritmo exigente da televisão lhe permitia, voltava ao palco. Fez Ricardo III - Um Ensaio sobre o Poder, no Teatro Nacional Dona Maria II (encenado por Carlos Pimenta), disse poemas de Mário Cesariny de Vasconcelos num espetáculo/disco de Rodrigo Leão, contracenou com Cucha Carvalheiro na peça de Edward Albee, Casamento em Jogo e despediu-se do teatro (conforme o próprio dizia), em 2018, em Worst, com a Companhia de Teatro Praga. Depois disso, pensou deixar a carreira de ator e chegou a ter um espaço de turismo em nome próprio no Porto, mas a paixão de sempre reclamou-o de volta. Até 20 de julho deste ano, quando uma paragem cardio-respiratória o surpreendeu nas filmagens da telenovela Amor, Amor. Menos unânime do que o tom dos obituários agora sugere, nunca abdicou de falar alto e de mostrar desagrados. Aos que o recordarem por isso, dir-se-á que acreditava em Deus e no poder redentor da lealdade.

dnot@dn.pt

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