Em 'O Meu Primeiro Apocalipse' o pivot da SIC prefigura um Portugal futuro, em que tem tudo de ser fácil, a linguagem empobrece e os ciclos políticos são cada vez mais curtos, num tom mordaz que o escritor admite repetir em futuros livrosEste décimo primeiro romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, autor de O Pianista de Hotel, vencedor do Prémio SPA para Melhor Livro de Ficção Narrativa em 2017, segue-se a Matarás um Culpado e Dois Inocentes, lançado em 2024. Uma das personagens deste livro, a Maria Antónia, é inspirada na Rosa Lobato Faria, à qual prestas homenagem, in memoriam, no fim do romance. Consideras que foi uma escritora que não recebeu o reconhecimento merecido?Para além de algumas canções que escreveu, tinha uma poesia e uma prosa muito bonitas. Eu conheci-a primeiro como atriz e só depois é que percebi que ela também escrevia. Até porque ela me ofereceu um dos livros dela. E sempre que a li disse 'mas porque é que ela não está mais no campeonato dos chamados escritores sérios?' Acho que ela sofreu de um certo tipo de preconceito, sobretudo no meio artístico, de acantonarem as pessoas numa área. A personagem nasceu primeiro, como uma das três amigas. Ela é uma atriz que escrevia, e uma atriz, percebe-se a certo momento, que está um pouco farta dos textos que tem para debitar. E então quer também ela escrever, e começa a escrever. Só quando a personagem se tornou mais forte e mais construída é que me lembrei que aquilo era uma personagem 'à la' Rosa Lobato Faria. E então decidi, no final, de facto, deixar essa mensagem, porque gostava muito dela.Também sentiste algum preconceito enquanto escritor-jornalista? Não é a questão de ser jornalista, é ser uma figura da televisão. É uma coisa completamente diferente. O jornalismo é uma antecâmara da escrita. Nós trabalhamos diariamente o texto e a capacidade de comunicarmos e de contarmos histórias aos outros. O Gabriel García Márquez punha isso de uma forma muito clara. Ele começou a escrever ficção, porque a realidade não lhe chegava, e então inventou os seus mundos. Eu senti, e ainda sinto, algum tipo de preconceito, embora esteja muito esbatido ao fim de 30 e tal anos. Já se percebeu que eu estou aqui para fazer carreira disto e que não vou parar só por causa de uns iluminados. Mas tem a ver com a questão da televisão. Há uma ideia absolutamente errada, muita gente considera-me colega da Cristina Ferreira, do Goucha ou da Júlia Pinheiro, quando na verdade eu sou colega teu e do jornalista da TSF e do jornalista da RTP e do jornalista do Diário das Beiras e do jornalista da CBS News. A questão é que o meio em que eu me exprimo é um meio audiovisual que tem um impacto em que a minha imagem, a minha figura, chega aos outros antes de mim. As pessoas imediatamente, porque conhecem o meu rosto e a minha voz, partem do princípio de que me conhecem, quando não fazem a mínima ideia. Portanto, sim, senti no início, de algum meio literário, algum preconceito. A personagem Ava Carina do novo romance foi inspirada em alguém da vida real?Sim, já sei o que é que estás a perguntar. É uma personagem sobre a qual leitores já me interpelaram a perguntar se se trata da Cristina Ferreira. E eu respondo, sim, mas não só. Porque a própria Cristina Ferreira transformou-se num símbolo. Ela é um arquétipo. E que não é exclusivamente português. Esta figura que vai crescendo dentro de um certo tipo de espetáculo e que depois, tal como se vê com a Cristina Ferreira, mas outros exemplos há no estrangeiro, se sentem mães da nação e psicólogas e terapeutas e influencers e, acham que têm que opinar muito sobre as questões sociais e vão-se autoconvencendo de algo que manifestamente não são. E, nesse sentido, sim, a personagem que eu criei poderá parecer a Cristina Ferreira, embora não seja só a Cristina Ferreira. É quase uma caricatura, aliás, é desenhada com um traço grosso de ironia. .Sim, a personagem que eu criei [Ava Carina] poderá parecer a Cristina Ferreira, embora não seja só a Cristina Ferreira. É quase uma caricatura, aliás, ela é desenhada com um traço grosso de ironia.Rodrigo Guedes de Carvalho. Neste romance abordas vários temas que te preocupam. A Laura, uma das três amigas e a narradora da história, é a tua voz?Sim, nós estamos sempre nos livros. E todos os escritores mentem, dizendo que não, isso não é a minha voz, é a voz das personagens, o que é também a minha resposta. Mas neste livro, marcadamente, acho que é mais do que nunca a minha voz.É por isso que te puseste lá dentro? Há referências ao jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho.Não, isso foi um jogo de espelhos. O livro tem esta particularidade: eu normalmente penso muito no livro, construo muito na cabeça e, a certa altura, quando ele está mais ou menos sólido para ir ao forno, começo a escrevê-lo. E normalmente ele não foge muito daquilo que eu imaginei. E este fugiu-me completamente do controlo, mas de uma forma muito engraçada. O grande pontapé de saída foi, de facto, a epígrafe do Luís Alberto de Cuenca, que é um excerto de um poema dele absolutamente demolidor. A epígrafe e o primeiro capítulo é muito curto, é muito duro, é muito definitivo, estamos lixados e vamos morrer e isto não tem solução. Mas logo ao segundo capítulo entra a Ava Carina e um diálogo absolutamente surreal entre essa figura mítica, essa loira mãe da nação, e uma velha jornalista que é chamada para escrever um livro. E esse diálogo da Laura com a Ava Carina é um pouco o meu diálogo com o mundo atual. Há uma incredulidade sobre o que eu vou vendo e ouvindo que torna os diálogos muito difíceis, a compreensão muito difícil. E esse Rodrigo Guedes de Carvalho que aparece aí é um jogo de espelhos que me deu imenso gozo, jogar com o preconceito que existe, porque, na verdade, há um Rodrigo Guedes de Carvalho, um jornalista que a tua mãe conhece perfeitamente há muitos anos. Essa figura pública existe e é dela de que eu estou a falar. Esse jornalista famoso, que até tem fama de antipático mas depois, quando se conhece, até é capaz de um sorriso. Esta ideia de teres o Kennedy a reencarnar na tua pessoa e os diálogos em torno disso marcam logo o tom do romance...Há um surrealismo...Estás a criticar a infantilização da sociedade, a ignorância, a superficialidade?Aquele paleio dos sonhos e que tudo é possível desde que acreditemos e essa lenga-lenga toda com que tantos têm enriquecido. A Laura, que sou eu em feminino, está a perguntar , ‘mas desculpe, isso é impossível, isso não pode acontecer’. E a outra, a Ava Carina, que representa a sociedade toda que eu observo, diz: ‘Não, claro que pode acontecer. Se sonharmos, as coisas acontecem’. É um cinismo da minha parte, mas também me deu gozo. Gostei de ler esse efeito nas pessoas, e toda a gente me diz que a primeira vez que tropeça com o facto de eu escrever sobre mim fica surpreendida e ri-se, porque percebe logo que estamos num jogo de sombras. .A história passa-se em 2066, num futuro relativamente próximo, não é ficção científica.Há uma distopia, no sentido em que todas as distopias são passadas no futuro, portanto, ainda não aconteceram. Mas não quis fazer, por exemplo, como na distopia do Ian McEwan, que é uma distopia a sério, é passada em 2100 e não sei quantos, é um futuro longínquo, de discos voadores. Este não, e isso é que é um pouco assustador. Esta dimensão de 40 anos é muito tempo, mas depois pensas, e não é tanto tempo quanto isso. O 2066 é por uma razão simples: como eu lanço o livro em 2026 é para fazer 40 anos certinhos. E para coincidir mais ou menos, como elas dizem [as personagens], com os 100 anos do nascimento do Rodrigo Guedes de Carvalho e, de facto, passarão. Não sei se estarei vivo ou morto, provavelmente estarei morto. Então é o tempo desse balanço. E o que me deu gozo ao escrever o livro é que nós estamos em 2066 quando estamos a ler, mas tudo aquilo que estamos a ler, que diabo, parece hoje. E, portanto, a ideia que fica é que em 2066, meus caros, infelizmente, não estaremos muito diferentes enquanto humanos, quanto aos nossos desejos e aos nossos objetivos. Nelson Rodrigues costumava dizer que os estúpidos vão mandar no mundo por uma razão simples, eles são mais e vão ser cada vez mais. E há de haver um momento em que eles vão tomar isto pela quantidade.Tens uma visão pessimista do futuro.Tenho uma visão pessimista do futuro, mas também tenho a noção de que não nos resta mais nada senão vivermos dentro disto e tentarmos à nossa maneira e à nossa medida combater isso. Ou seja, não há nenhuma desistência da minha parte. Agora, há coisas absolutamente avassaladoras. Posso dizer, por exemplo, que na minha longa carreira de jornalismo já me passaram pelas mãos inúmeras vezes formandos, e eu nunca desisti de ensinar e de os impelir a discutir e a questionar a profissão. Mas confesso que há dias em que já não consigo, porque há uma pessoa com quem já falei duas vezes, já expliquei isto e aqueloutro e ela não entende. Eu tenho vivido na minha vida pessoal essa dança entre a tentativa de intervir, a tentativa de trazer as pessoas a um mundo em que eu cresci, que é um mundo cheio de defeitos, mas com a benesse do diálogo e da troca de ideias, que é uma coisa que se está a perder neste momento, as pessoas não querem, na verdade, conversar, as pessoas querem só rodear-se daqueles que já pensam como elas e tudo o resto lhes mete medo. .Tenho uma visão pessimista do futuro, mas não há nenhuma desistência da minha parte.Rodrigo Guedes de Carvalho. As redes sociais potenciam isso?Vivem disso. Em relação às redes sociais, aquilo que eu defendo no romance – o livro é uma ficção e ai do ficcionista que queira fazer sermões –, mas aquilo que acontece é que a contaminação da nossa vida pelas redes sociais é de tal forma que esta lógica da velocidade vai contaminar também os ciclos políticos, eu acredito piamente nisso. Aliás, estou a ver todos os dias efeitos disso. Nós tivemos eleições muito próximas e estamos a meio deste mandato e já há no ar a ideia de que pode haver outra vez eleições antecipadas. Os ciclos políticos vão ser cada vez mais curtos.E descreves também um mundo distópico em que jornalismo está moribundo.Sim, que está num sério risco, mas não há nenhum funeral no livro do jornalismo. Tens sido criticado por seres crítico do jornalismo, sendo que ocupas uma posição privilegiada na profissão. Eu tenho é uma coisa que por vezes é muito estranha a muita gente, e até a muita gente da classe. E isso tem a ver com características próprias, que encontraram na vida um homem como o Balsemão [Francisco Pinto Balsemão, fundador do grupo Impresa]. Eu tenho um sentido de liberdade brutal, que pude exercer. E eu devo que do ponto de vista político ou ideológico não há nenhum sítio onde me encaixe, porque ao longo da minha vida fui vendo virtudes e defeitos em todos os lados, sou um pessoa que viu esta coisa na direita de que gosta, e que viu esta coisa na esquerda, de que também gosta. Eu recuso-me a ser acantonado. Em relação ao jornalismo, há uma questão muito simples: eu estou no meu 41º ano de jornalismo, já passei por muito e acho que tenho algum algum crédito para poder falar da profissão, mais do que isso, ai da profissão que não se questione. As ordens profissionais nasceram sobretudo para defender corporativamente as profissões, mas também para se questionarem e para se interrogarem. Por exemplo, os congressos de jornalistas praticamente desapareceram e quando acontecem é só por causa de questões, obviamente graves, do jornal que fechou ou de um despedimento coletivo, questões muito práticas. Agora, a grande questão filosófica do que é que andamos a fazer, o que é que é a nossa profissão o que é que ela deve ser, acho que há pouca gente a fazer essas perguntas.Para ti, quais são os problemas do jornalismo atual?Há coisas que eu observo, o número crescente de jornalistas que atuam de uma forma absolutamente robótica. O que é curioso, quando um dos grandes receios é da inteligência artificial e de que forma é que ela pode eventualmente afetar todas as profissões, nomeadamente o jornalismo, os jornalistas em vez de mediarem entre a realidade e as pessoas, fazerem esse papel, não, tornam-se autómatos, tornam-se correias de transmissão. Vês pivôs ou jornalistas de imprensa, em que a única coisa que fazem é pegar num comunicado da GNR e plasmá-lo diretamente.Resulta de haver cada vez menos pessoas nas redações devido às dificuldades económicas das empresas de comunicação social?Tem a ver com velocidade. Não sei se há cada vez menos pessoas nas redações, a questão é o que se espera dessas pessoas nas redações. E há duas imagens das quais eu já falei abertamente, e uma delas tem a ver com 2001, com o aparecimento da SIC Notícias, que eu comentei na altura com o Rangel e com o Balsemão, de que é o princípio, eu não sei de quê, mas o princípio de alguma coisa. A partir do momento em que há a decisão de estar sempre no ar, 24 horas, primeiro um canal e depois os canais sucedâneos, e agora as redes sociais que, por natureza, não têm horário e também estão 24 horas 'no ar', necessariamente as palavras velocidade e quantidade passam a ser as palavras chave. A juntar a isto há a enorme concorrência para me chamar a atenção quando eu estou a navegar no telemóvel... Há cinco anos era impensável ver-se a SIC Notícias ou a CNN Portugal a fazer um título de clickbait, acho que era impossível, e hoje a grande maioria dos títulos são clickbait, são aquele título que te desperta curiosidade, mas não te satisfaz, portanto, tens que mergulhar na notícia, fazes o click, já foste. Não é um jornalismo que mente, mas é um jornalismo que omite. É um jornalismo que já está numa lógica de rede social, e esta é a grande questão. .Não é um jornalismo que mente, mas é um jornalismo que omite. É um jornalismo que já está numa lógica de rede social, e esta é a grande questão.Rodrigo Guedes de Carvalho.E como é que isto se muda?Como é que se sai disto? Eu não creio que seja uma pergunta que muita gente esteja a fazer, quer dizer, eu faço-a. Como é que se combate, como é que se sobrevive aqui no meio? E acho que, precisamente, cada jornalista tem que ter cada vez mais um fator autoral, neste sentido: goste-se ou não de mim, eu sou muito mais difícil de substituir pela inteligência artificial do que colegas meus que debitam telexes. Porque esses serão facilmente substituídos. Até do ponto de vista físico, já há bonecos que fazem isso. Portanto, esses que são vergados àquela opinião pública que espeta o dedo e diz não, o jornalista não tem que ter opinião, tem que ser cinzento e dizer as coisas como são, não sei o que mais, sempre que o jornalista está a falar de uma notícia que não lhe agrada. Repara como entrou no léxico a palavra jornalixo. Agora toda a gente se acha no direito de chamar jornalixo ao jornalismo, que é normalmente um jornalismo que reflete algo que não lhe agrada. Mas eu não tenho a certeza de que toda a gente que está dentro do jornalismo ou das empresas de comunicação pense como eu, que estamos num ponto em que é preciso reagir. Se calhar acham que assim é que está bom, que o que estamos a fazer que é trazer o público para nós. Eu só vejo conversas sobre audiências, a quantidade de pessoas que viu a SIC Notícias, ou que viu a CNN, ou que viu a RTP, este é o único critério neste momento. Mas eu acho que devia haver outros. .Cada jornalista tem que ter cada vez mais um fator autoral, neste sentido: goste-se ou não de mim, eu sou muito mais difícil de substituir pela inteligência artificial do que colegas meus que debitam telexes.Rodrigo Guedes de Carvalho. E a literatura? Também falas, nesse mundo distópico, do fim, não do livro, mas da literatura. Sobre o jornalismo falava muito com o Balsemão, por exemplo, da inteligência artificial, foi das últimas conversas que tivemos, ele era um grande entusiasta, mas isso enquadrava-se num pack de eterno jovem que ele foi sempre. E ele chamava-me Velho do Restelo por causa da inteligência artificial, porque eu acho que tem muito mais perigos do que benesses, por agora. E, na questão dos livros, falava com o Pedro Sobral [antigo presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros], que morreu de forma trágica.E a quem dedicas este romance.A quem é dedicado o livro, e é exatamente aquilo, deixámos uma conversa a meio, e nós estávamos a ter uma conversa. O Pedro Sobral foi a primeira pessoa a quem eu falei sobre o que é que ia fazer neste livro. E disse-lhe, tu, e a Leya, e as jovens autoras que vais trazendo, porque estão nas redes sociais e têm seguidores e não sei o que mais, não vão ficar muito bem na fotografia. E ele disse, faz à vontade, acho muito bem que faças. A literatura, para mim, tem um L grande, desde miúdo. A literatura é o livro que é bem escrito, que tem qualidade de escrita. A literatura não está nos temas, já todos os temas foram tratados. O meu receio, quando morre Saramago, e quando morre Lobo Antunes, e outros que tais, é que a estética da literatura, a beleza da literatura, está a perder-se. Os livros não estão a perder-se, há cada vez mais livros, toda a gente edita um livro. Toda a gente acha que a sua história merece ser contada. E a grande maioria dos livros, obviamente que estou a generalizar, não posso falar deles pormenorizadamente, mas eu folheio os livros que vão saindo, vou olhando, e são geralmente fracos, são maus, são básicos. É o modelo de negócio dos editores, lançamentos sucessivos?Eu penso que sim. É um pouco como o jornalismo 24 horas. É uma absoluta loucura. Mas as editoras aí têm culpa. Há tempos saiu uma reportagem feita em Espanha de que a maior parte dos livros não vendiam 500 exemplares. Mas que raio de modelo de negócio é este em que se estão a lançar livros que sabem que vão ser insucessos ou que vão ser comidos pela voragem? Porquê? Essa resposta não sei dar. A única coisa que eu faço, e não tenho nenhum contrato com nenhuma editora, é, livro a livro, telefonar à minha editora da D. Quixote, e perguntar se quer ser a primeira a ler o livro. O meu contrato é feito livro a livro. Eu já atravessei várias crises da literatura e vários booms da literatura. Eu escrevo livros e escrevo romances porque é a minha forma favorita de me expressar enquanto pessoa. E não vou deixar de o fazer. Agora, eu próprio acho uma loucura a quantidade, os livros estão a acotovelar-se nas livrarias. Se daqui a três semanas fores a uma livraria à procura do meu livro ele já não estará à vista. .Acho uma loucura a quantidade, os livros estão a acotovelar-se nas livrarias. Rodrigo Guedes de Carvalho. Também escreves crónicas. O que é que a literatura te permite dizer que um artigo de opinião não deixa?A literatura é um espaço de liberdade total. Eu não comecei nela à procura desse espaço, porque eu comecei na literatura antes de ser jornalista. Não sonhava a ser jornalista quando escrevi o primeiro livro que foi o meu arranque com 19 anos, muito a imitar Lobo Antunes. E a partir daí fiquei com o chamado bichinho e quis sempre expressar-me através da literatura. E depois aconteceu-me na vida ser jornalista. Quando isso me aconteceu, reparei que de facto estava em dois planos completamente diferentes. No sentido em que o jornalismo é uma caixa fechada pela realidade. Ou deve ser. Temos que cingir-nos àquilo que realmente acontece. O que se passa é que eu, enquanto pessoa, para a minha realização, preciso de mais. Preciso de me exprimir de outra forma e não me basta contar as histórias que acontecem no jornalismo. Como eu só escrevo ficção, não escrevo ensaio, não escrevo poesia, escrevo romance, que é o terreno da liberdade total, posso erguer quem me apetecer. No jornalismo, por mais interventivo que eu às vezes pareça, é apenas a intervenção de achar que o jornalismo, apesar de tudo – e é por isso que o jornalismo só existe nas democracias –, é uma atividade que tem como raiz a decência e a humanidade. Ao dar uma notícia, por vezes, acho que posso e devo chocar-me com um certo tipo de coisas e ser mais acintoso em relação a outras, porque acho que nós temos essa obrigação, porque se não, como eu disse ao Balsemão, despeça toda a gente e ponha já robôs e pronto, já poupa. Eu estou a sentir, ao fim de 40 anos de jornalismo, uma necessidade: e se trocássemos, como dizia o Mário de Carvalho, umas ideias sobre o assunto, vamos conversar um pouco sobre isso. Nada me daria maior prazer do que juntarmos 500 jornalistas numa sala e falarmos sobre o que é que andamos a fazer e qual é o futuro da nossa profissão.Já estás a escrever outro livro?Não, não estou, mas tenho uma ideia sobre um livro, que não sei se se vai materializar, que seria uma grande mudança de tom. O que estou a pensar fazer é uma coisa mais, não direi dramática, mas um bocadinho mais pesada e mais curta. Não sei se será uma novela ou um romance pequeno, uma espécie de uma enorme carta. Mas fiquei com cócegas deste registo mordaz. E provavelmente vou lá regressar. De distopias estou arrumado, mas este registo mordaz, mais sardónico, mais gongórico, mais anedótico, gostava de voltar lá. .Carla Pais: "Gosto de resgatar as pessoas que ficam para trás, que ninguém quer ver" .Filipa Martins: "Há causas que merecem que os factos sejam contaminados pelas emoções, através de histórias reais" .Patrícia Reis: “Todos têm razão e não há espaço para a dúvida. É como se a incerteza fosse uma fragilidade”