Há uma palavra que Roberta Medina repete vezes sem conta quando fala do Rock in Rio Lisboa: sonho. Não como um conceito abstrato ou um slogan vazio, mas como matéria-prima de um projeto que, duas décadas depois de ter chegado a Portugal, quer continuar a reinventar-se, crescer e ganhar escala. À entrada de uma nova edição, a vice-presidente executiva do festival fala de um evento que já não quer apenas trazer grandes nomes da música internacional, mas consolidar-se como um fenómeno cultural, familiar e económico, capaz de marcar Lisboa e de se afirmar como um dos grandes momentos do verão europeu.“O maior marco é 2024. A mudança inaugura uma nova etapa do Rock in Rio Lisboa”, afirma Roberta Medina, numa conversa onde revisita os últimos 20 anos do festival em Portugal, sem esconder o entusiasmo pela nova fase. Para a responsável, a mudança de recinto representa muito mais do que uma alteração logística: é um reposicionamento estratégico, uma oportunidade de crescimento e um novo horizonte para um projeto que, admite, começava a encontrar limitações no antigo espaço da Bela Vista.“Com todo o amor que temos pela Bela Vista, já não conseguíamos pensar em ousar muito mais”, diz. “Era um espaço pelo qual temos enorme carinho, mas já havia limites para aquilo que conseguíamos fazer. Agora temos literalmente um horizonte mais alargado para sonhar.”E é precisamente essa ideia de “sonhar” que surge como fio condutor da visão que Roberta Medina tem para o futuro do Rock in Rio. “O sonho alimenta o futuro, alimenta a nossa energia. Se não soubermos sonhar, não desenhamos futuro nenhum”, afirma. Num tempo marcado por discursos negativos e saturação informativa, a empresária defende que os grandes eventos têm também uma responsabilidade emocional e simbólica. “O nosso cérebro gosta de más notícias, mas isso não quer dizer que tenhamos de viver nelas. Precisamos de sonhar com coisas boas para termos força para correr atrás delas.”Mas antes de olhar para a próxima década, Roberta Medina revisita a chegada do Rock in Rio a Portugal, em 2004, um momento que recorda como quase improvável. O festival vinha do Brasil, onde já tinha peso e notoriedade, mas Portugal era um território desconhecido. “A gente não fazia ideia do que vinha fazer”, admite, entre risos,lembrando as dificuldades práticas dos primeiros tempos. “Lembro-me dos desafios para comprar uma simples fita métrica. Medimos o Parque da Bela Vista com uma fita pequena, praticamente à régua”, conta. Houve também obstáculos burocráticos inesperados: “Nem sabíamos bem o que era o IVA. Descobrimos a meio do caminho e foi um prejuízo gigantesco.”Apesar dos tropeços, a aposta acabou por mudar o panorama dos festivais em Portugal. E Roberta Medina acredita que houve um momento fundador dessa transformação: a escolha de Paul McCartney para a primeira edição. À época, a decisão parecia arriscada. “Paul McCartney não era coerente para um festival de música num parque relvado. Era um público mais velho, parecia não fazer sentido para Portugal naquela altura”, lembra. Ainda assim, acabou por se revelar um ponto de viragem. “Foi um choque. Mas abriu uma nova oportunidade de fazer o mercado crescer.”.A partir daí, diz, o Rock in Rio começou a provar que podia ser muito mais do que um festival para jovens. “Ali percebemos uma coisa importante: afinal, não era só para um público novo. Desde que se atenda às necessidades desse público mais velho, tudo funciona”, explica. “A cerveja tem de estar gelada, as casas de banho limpas, não pode haver confusão excessiva. Isso não funciona nem para crianças nem para pessoas mais velhas.”Duas décadas depois, Roberta Medina acredita que o grande trunfo do festival está precisamente na sua transversalidade. “O Rock in Rio consolidou-se em Portugal como o primeiro festival das famílias”, afirma. “É muito bonito porque, invariavelmente, acaba por ser a estreia das crianças num festival. E o mais interessante é ver que muita gente que esteve connosco em 2004 continua a vir, agora numa fase diferente da vida.”Essa lógica intergeracional é visível no cartaz e na forma como a organização pensa a curadoria artística — um processo que Roberta Medina rejeita simplificar como um mero equilíbrio entre artistas internacionais e portugueses ou entre diferentes géneros musicais.“Não se trata de equilíbrio, trata-se de curadoria”, insiste. “Eu ouvi uma frase uma vez de que gostei muito: ‘equilíbrio é tão difícil que só existe no circo’. Aqui trata-se de perceber o que o público quer ver e também de garantir que conseguimos viabilizar financeiramente toda esta operação.”Ao contrário de festivais mais especializados, explica, o Rock in Rio nunca poderia limitar-se a um único género musical. “Desde 1985 percebemos isso. Nunca daria para ser apenas rock, apenas pop ou apenas outra coisa qualquer. Sempre foi um ‘mix’”, diz. E Portugal acabou por confirmar essa estratégia. “Quanto mais conseguimos variar aentrega para diferentes perfis de público, mais felizes as pessoas ficam e mais forte o evento se torna.”O cartaz deste ano é, para Roberta Medina, um reflexo dessa visão. Há um dia pensado para famílias e públicos mais jovens, com nomes como Katy Perry, Pedro Sampaio e Kalema. “É o dia de trazer as crianças”, resume. Depois surge o rock, género que continua a ter enorme peso no mercado português, com Linkin Park como um dos nomes mais desejados. “Há uma energia muito particular nesse dia, porque temos uma banda muito desejada, mas também nomes como Cypress Hill ou Sepultura, que fazem sentido dentro daquela atmosfera.”Segue-se aquilo que descreve, em tom descontraído, como “o dia dos sábios e maduros”, protagonizado por Rod Stewart e Cyndi Lauper. “É o dia para deixar as crianças em casa”, brinca. “É claro que há famílias que vêm, mas é um dia mais pensado para um público que quer aproveitar sem estar preocupado com os filhos.”No último dia, a aposta recai sobre nomes como Central Cee e 21 Savage, num alinhamento mais virado para os mais novos. Ainda assim, Medina sublinha que continua a existir uma preocupação com públicos cruzados. “Sabemos que muita gente vem em família, por isso tentamos garantir que há sempre diferentes experiências dentro do mesmo dia.”Mas a ambição do Rock in Rio Lisboa vai muito além do alinhamento musical. A responsável acredita que o festival pode tornar-se ainda mais relevante para a cidade e para o país, sobretudo num contexto em que Portugal se prepara para receber grandes eventos internacionais, incluindo o Mundial de Futebol de 2030.“Quero que o Rock in Rio Lisboa seja de facto um ponto alto do verão europeu, não só em Portugal”, afirma. O objetivo, explica, passa por consolidar a marca como um destino obrigatório na agenda cultural europeia, trazendo mais impacto económico, mais turismo e maior projeção internacional para Lisboa.Ao mesmo tempo, sonha com algo ainda maior: um Rock in Rio que ultrapasse os limites físicos do recinto. “Quero que ele já não esteja restrito ao espaço do festival, que seja uma festa da cidade e do país”, diz. “Gostava que o projeto fosse cada vez mais sólido, porque se for mais sólido para nós, também é mais sólido para todo o ecossistema à volta.”.A expectativa para esta edição é alta. A organização já soma dias esgotados e espera, no mínimo, repetir os números da última edição, ainda que tudo aponte para crescimento. “A capacidade aumentou, já temos dois dias esgotados”, lembra. “Pelo menos não vamos andar para trás. Acho que vamos crescer.”Ainda assim, Roberta Medina rejeita olhar para o passado com triunfalismo ou reescrever os erros dos primeiros anos à luz do presente. “Não costumo julgar o passado a partir do presente. Acho isso injusto”, diz. “A gente faz o melhor que pode naquele momento. Depois aprende e vai fazendo cada vez melhor.”É essa ideia de evolução contínua que quer ver perpetuada dentro da organização. Sonha com uma nova geração de lideranças pronta para continuar a renovar o festival e a reinventar o seu propósito. “Espero que tenhamos cada vez mais equipas preparadas para tocar o projeto e renovar esse sonho.”No fim, quando confrontada com uma pergunta simples — o que diria a alguém que nunca ouviu falar do Rock in Rio —, Roberta Medina responde quase sem hesitar: um dia bem passado, música, emoção e energia coletiva.“Se quer passar um dia feliz, com amigos, num ambiente acolhedor, este é o lugar certo”, garante. Há concertos, espetáculo, momentos de partilha, mas sobretudo uma sensação difícil de replicar. “Não há nada mais potente do que a energia de muita gente a vibrar positivamente no mesmo lugar"..Rock in Rio Lisboa movimenta 120 milhões de euros na economia nacional, diz Roberta Medina.Roberta Medina promete anunciar "até ao final do ano" os cabeças de cartaz de todos os dias de Rock in Rio