Como é que surgiu esta nova exposição de Miró?Bem, a ideia da exposição foi do diretor, o Philippe Vergne. Ele ligou-me e disse: “O que acha de fazermos uma exposição que mostre o Miró em relação com a coleção permanente?” Achei que era uma ideia maravilhosa.Começou por olhar para a coleção de Serralves?Exatamente. Tinha muitos catálogos diferentes que utilizei, e bases de dados para pesquisar. Analisei toda a coleção. E, à medida que ia olhando para a coleção, ia pensando nas relações com as obras do Miró que temos. E assim, gradualmente, a exposição foi tomando forma. E, claro, houve muitas fases diferentes, em que por vezes coisas que inicialmente queria fazer mudaram, ou desenvolvi novos conceitos para a exposição. Portanto, foi um processo.Há nove capítulos. Em que fase deste processo curatorial é que elas surgiram?Surgiram de forma natural e gradual. Não foram impostas a priori. À medida que ia observando as obras, comecei a pensar em formas, em conceitos através dos quais pudesse organizar a exposição. Havia uma certa lógica no percurso expositivo. E foi o próprio trabalho que sugeriu as categorias, e não o contrário.Há alguma desses nove que gostaria de destacar, um ou dois que considere mais interessantes?Sim. Uma das categorias com que gostei muito de trabalhar é aquilo a que chamo, em francês, peinture en abîme — trata-se de pintura que fala sobre a própria pintura e sobre a mecânica da pintura. Há toda uma série de obras — duas do Miró e depois de vários outros artistas — sobretudo a partir da década de 1960, que analisam e refletem sobre quais são os limites físicos da pintura. Foi uma categoria que me deu muito prazer trabalhar. Outra categoria que achei particularmente interessante foi a ideia do neoexpressionismo, e como o expressionismo é uma tendência que atravessa toda a arte moderna. Mas nos anos 1980, e um pouco antes, muitos artistas regressaram a uma forma de expressionismo. A obra do Miró é muito interessante nesse contexto, pensá-la nesses termos, algo que ninguém tinha feito antes.Há 24 pinturas, desenhos, esculturas e obras têxteis do Miró em exposição. Há obras menos vistas?Toda a coleção já foi mostrada, claro, e toda a gente conhece as obras. Mas tenho algumas peças de grande importância na exposição, e depois tenho outras que não são peças maiores, mas que trazem uma certa profundidade e amplitude à exposição.Como avalia a coleção de arte de Serralves?Acho que é uma coleção maravilhosa. O interessante é que há muitos artistas representados por uma ou duas obras, artistas de renome internacional. Mas, por estar em Portugal, a coleção mostra também muitos jovens artistas portugueses, muitos dos quais eu não conhecia, ou que não são tão conhecidos fora de Portugal. Tudo isso constitui uma excelente representação do seu trabalho.As cerca de 55 obras da coleção que estão em diálogo com peças de Miró são de artistas de várias nacionalidades, incluindo de portugueses. Quis ter artistas portugueses representados?Serralves é um museu em Portugal e é muito importante dar representação aos artistas portugueses. Foi algo natural, até porque há uma excelente concentração de artistas portugueses na coleção. Mas também era importante para mim mostrar arte contemporânea portuguesa como parte deste projeto.Pode nomear um ou dois artistas que lhe tenham parecido mais interessantes?Há tantos. Gosto muito do trabalho da Helena Almeida, que considero uma artista extremamente interessante. E outro artista cujo trabalho eu não conhecia, mas que foi uma verdadeira revelação para mim, foi o Pedro Sousa Vieira. Temos uma obra da Helena Almeida e penso que temos cerca de dez obras do Sousa Vieira.Tem algum conselho para quem vai visitar a exposição? Como é que recomenda que a percorram?Olhar com muita atenção. A instalação foi pensada para tornar visíveis todo o tipo de relações entre as obras. O visitante não deve estar a ler, deve sobretudo olhar — e olhar com muita atenção e cuidado.É um dos grandes especialistas mundiais em Miró. Como surgiu esse interesse?Cresci em Nova Iorque e, quando era criança, ia ao Museu de Arte Moderna e vi obras do Miró. Respondi de forma muito intuitiva a esse trabalho. Mais tarde, muitos anos depois, fui para a faculdade e, quando chegou o momento de pensar na minha tese de doutoramento, soube que queria fazer algo sobre o Miró.E mantém o interesse passados todos estes anos? Ainda há coisas a descobrir?Claro. Isso é verdade para qualquer grande artista. Há sempre coisas novas para descobrir. E há ainda imenso trabalho por fazer sobre o Miró. É um artista extraordinariamente rico que não foi estudado ao mesmo nível que, por exemplo, Picasso ou Matisse.E em que está a trabalhar agora, em relação à obra dele?Daqui a dois anos, em colaboração com a Fundação Miró em Barcelona, vamos fazer uma exposição conjunta centrada na obra do Miró sobre masonite, dos anos 1930 e posteriores. Será uma exposição muito focada.E como começou a sua colaboração com Serralves?Recebi um telefonema da Suzanne Cotter, que era diretora na altura. Ela contactou-me para saber se estaria interessado em comissariar uma exposição da coleção permanente, logo quando o Estado adquiriu a coleção. Mas mesmo antes disso, quando a coleção foi colocada em leilão na Christie’s, em Londres — leilão que, claro, nunca chegou a acontecer — fui convidado, na noite anterior, a dar uma conferência pública sobre a coleção.Qual é a importância desta coleção que pertence ao Estado português?Bem, há várias grandes coleções de Miró na Península Ibérica — em Palma, na Sucessió Miró e na Fundação Miró em Maiorca, e claro, a Fundação em Barcelona. A nossa coleção acrescenta diferentes níveis de profundidade à compreensão da obra do Miró. E não é uma coleção comissariada; foi formada por outro colecionador há muitos anos. O que fizemos foi adquirir a coleção e, a partir daí, estudar as obras e expandir a análise da arte do Miró.