Regressa a Festa do Cinema Francês com Jean-Louis Trintignant

Começa amanhã a Festa do Cinema Francês. 20 anos de divulgação do cinema francês em Portugal com a garantia de pesos-pesados como Jean-Louis Trintignant, Agnès Jaoui e Anne Fontaine. Celebra também o cinema de Agnès Varda.

É de ausências e de trunfos que se faz mais uma Festa do Cinema Francês, que decorre em várias cidades do país (ver agenda em baixo). Numa altura em que o fluxo do cinema francês é constante no mercado de exibição, esta 20ª edição peca por não conseguir os novos de Olivier Assayas (cineasta que nesta altura já tem dois filmes para estrear nos nossos cinemas: Double Vie e Wasp Network); de Ladj Ly, o cineasta que representa a França nos próximos Óscares com Les Misérables ou de Céline Sciamma, que em Portrait de la Jeune Fille en Feu conseguiu a obra francesa mais consensual em Cannes.

Dá que pensar nessas ausências, mas quem fez a curadoria da mostra não andou a dormir e soube garantir o filme despedida de Agnès Varda, aliás alvo de uma homenagem. Essa despedida tem pelo título Varda por Agnès, documentário pungente que retoma a auto-análise artística desta cineasta belga iniciada em As Praias de Agnès.

Filme lindíssimo que será talvez o grande acontecimento desta festa a par da anunciada vinda do lendário Jean-Louis Trintignant, esperado em Lisboa para uma retrospetiva e para a sessão de Les Plues Belles Années de une Vie, de Claude Lelouche, o seu inusitado reencontro com Anouk Aimée. O ator é esperado na capital já no dia 12 para acompanhar a sessão da noite na Cinemateca.

Destaca-se também desta programação a antestreia de Na Praça Pública, regresso à boa forma de Agnès Jaoui, que em Portugal conseguiu enorme culto com O Gosto dos Outros, estreado há 19 anos. Jaoui deverá marcar presença, tal como Anne Fontaine, cineasta nascida no Luxemburgo e habituée destes encontros. O pretexto é Branco como Neve, mais uma parceria com Isabelle Huppert. O filme chega aos cinemas logo a seguir, mais um a poder provocar um engarrafamento de filmes franceses em outubro e novembro, erro crasso dos exibidores que assim tornam banal a oferta desta cinematografia. É realmente pena que em Portugal haja uma falta de critério de escolha dos distribuidores dos filmes franceses que chegam aos ecrãs. É constante o esquecimento de filmes de qualidade que nunca cá chegam.

Das antestreias anunciadas há que não ter pé atrás com Lola e os seus Irmãos, de Jean-Paul Rouve, delicada teia de relação entre três irmãos em situações diferentes nas suas vidas. Uma comédia amarga com os tons certos tanto no melodrama como na comédia de comportamentos. O mesmo se pode dizer de Os Caloiros da Medicina, de Thomas Lilti, exemplo de uma comédia dramática capaz de clamar por uma ideia de cinema "mainstream" sem nunca perder uma respiração legítima de cinema. Pelo contrário, dispensava-se nesta programação uma obra como O Imperador de Paris, provavelmente o pior filme de Jean-Pierre Richet, cineasta que já fez bem melhor em obras como Mesrine ou o "remake" Assalto à 13ª Esquadra. Cinema de ação tolo e sem uma vontade de ir para além da tarefa mais anónima...

Outro dos bons filmes da Festa é Meu Bebé, de Liza Azuelos, conto de maternidade que em mãos erradas seria uma comédia chorona desnecessária, bem como Os Especiais, de Nakache e Toledano, a dupla de Samba e Amigos Improváveis, aqui a fazer rir em território delicado: o mundo dos adolescentes autistas. Um filme terno e equilibrado que no último Festival de San Sebastián venceu o prémio do público.

Trunfo que mete respeito é Maya, de Mia Hansen-Love, uma viagem espiritual pela Índia contemporânea através de um caso entre um jornalista de guerra e uma jovem indiana. Sobra uma brisa de romance encenada com uma subtileza muito estimável.

E é com expectativa que se espera por 100% Camurça, uma comédia desmiolada de Quentin Dupieux, obra que teve honras de abertura na Quinzena dos Realizadores, em Cannes, e por Tout Nos Separé, de Thierry Klifa, onde é nos proposto um casal improvável: Catherine Deneuve e o rapper Nekfeu. Dos poucos que não tem distribuição em Portugal.

A Festa começou no Cinema São Jorge mas dá a volta ao país, terminando em Beja dia 8 de novembro. Inclui ainda desta vez um foco de filmes que estiveram programados em edições anteriores, onde é importante salientar Hippocrate - Verdade e Consequência, de Thomas Litli, para muitos um clássico do novo cinema francês e Comment J'ai Tué Mon Pére, de Anne Fontaine, êxito no Festival de Locarno que nunca chegou às salas portuguesas.

Estes 20 anos da Festa tem também secção destinada aos mais pequenos. Este ano, todos os caminhos vão dar à antestreia de Remi Sans Familie, de Antoine Blossier, conto infantil feito com olhar artesão. Sem dúvida, uma das mais belas jóias desta edição.

Agenda

3 a 13 de outubro - Lisboa, Cinema São Jorge e Cinemateca Portuguesa

9 a 13 em Almada, no Auditório Fernando Lopes-Graça

4 a 7 em Setúbal, no Cinema Charlot

15 a 19 em Coimbra, no Teatro Académico de Gil Vicente

22 a 27 no Porto, no Teatro Municipal Rivoli

30 de outubro a 3 de novembro em Leiria, no Teatro José Lúcio da Silva e Teatro Miguel Franco

5 a 7 de novembro em Portimão, no Algarcine

5 a 8 de novembro em Beja no Pax Julia - Teatro Municipal

Ver programação completa em https://festadocinemafrances.com/filme/

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