Se as convulsões mediáticas dos nossos dias obrigam qualquer artista a produzir a sua própria “imagem de marca”, então podemos dizer que a Harris Dickinson (nascido em Londres, em 1996) não têm faltado trunfos promocionais. Ficando pelas referências óbvias, lembremos que o vimos no elenco de Triângulo da Tristeza (2022), de Ruben Östlund, Palma de Ouro em Cannes e, mais tarde, contracenando com Nicole Kidman no muito polémico Babygirl (2024), de Halina Reijn. Além do mais, Sam Mendes escolheu-o para assumir a personagem de John Lennon nos filmes sobre os Beatles que está a preparar. Convenhamos que nada disso levaria a antecipar a sua estreia nas longas-metragens com Urchin, retrato de um toxicodependente à deriva num cenário urbano que está longe de ser acolhedor.Estamos, aliás, perante mais um daqueles casos em que o título original ficou “bloqueado” e, de alguma maneira, resolvido através do subtítulo - Pelas ruas de Londres - com que o filme está a ser lançado. Convenhamos que não era fácil encontrar uma solução que conciliasse a duplicidade da palavra inglesa que tanto pode designar um animal, “ouriço”, como referir-se a uma “criança” de comportamento mais ou menos errático e resistente a qualquer forma de acolhimento. Seja como for, essa duplicidade ajuda a definir o comportamento da figura central, Mike, interpretado pelo excelente Frank Dillane.Quando conhecemos Mike (nas ruas de Londres, precisamente), deparamos com um misto de agressividade e vulnerabilidade condensado na cena em que ele acaba por agredir e roubar um cidadão que se oferecera para lhe comprar algum alimento. Na sua vibração quase documental, essa cena leva-nos a pensar que Dickinson não será estranho à herança plural do realismo britânico cuja energia persiste, ao longo das décadas, através das transformações técnicas da produção cinematográfica - para nos ficarmos por um exemplo próximo, lembremos o notável Verdades Difíceis, de Mike Leigh, também este ano lançado nas salas portuguesas.De uma maneira ou de outra (tentando não revelar mais do que é devido...), podemos perguntar se a intensidade realista da realização de Dickinson resiste aos breves, mas significativos, “desvios” simbólicos com que o seu filme procura sublinhar a dimensão trágica da trajetória de Mike. Seja qual for a resposta, isso não anula a genuína revelação deste Urchin - Pelas Ruas de Londres, e tanto mais quanto o seu realismo, por certo essencial na desencantada contemplação dos lugares, nunca descura o trabalho específico dos atores - sem esquecer que o próprio Dickinson surge num pequeno, mas essencial, papel secundário. .'Dreams'. Oslo, cidade dos sonhos.'As Estações'. Arqueologia e lendas do Alentejo