Mesmo que fosse possível obter um autorretrato do poeta José Carlos de Vasconcelos através da obra publicada desde 1960, a imagem estaria sempre desfocada porque cada vez que faz uma recolha de poemas e os publica, o que se lê vem de um retalhar até ao osso do poema original. Dá como exemplo um poema que escreveu durante uma viagem de comboio entre a Póvoa de Varzim e Coimbra e que continha mais de cinquenta versos, no entanto, quando o publicou, só permaneceram sete. Mas o poeta não evita esse autorretrato, e no mais recente livro, Os Sete Sentidos e Outros Lugares tem logo no início uma Tentativa de autorretrato em que se descreve como “lírico, não imbecil”. Uma justificação para a sua publicação bissexta. Vasconcelos publica a sua primeira poesia em Canções para a Primavera (1960), um livro que tem duas recensões muito positivas: uma do poeta António Ramos Rosa na Seara Nova e outra de João José Cochofel na Gazeta Musical. É surpreendido por essas críticas porque, diz, “comecei muito cedo; esse meu primeiro livro saiu tinha 19 anos e ninguém sabia quem eu era, mas foi muito bem recebido”. A partir desse lançamento irão suceder-se cinco livros nos quinze anos seguintes: Tempo de elegia (1961), Corpo de esperança (1964), Elegias (1965), De poema em riste (1970) e Poemas para a revolução (1975). Depois, abre-se um hiato de 26 anos até O mar a mar a Póvoa (2001), tornando-se a partir desse momento menos desaparecido do panorama editorial, mesmo que os dedos de uma única mão sejam suficientes para enumerar os livros que existem até se chegar a este Os Sete Sentidos.Recentemente, com a suspensão do Jornal de Letras, Vasconcelos teve o tempo suficiente para reunir uma seleção do seu trabalho resguardado ao longo de décadas, após uma intensa pressão da editora Maria do Rosário Pedreira, situação que já vivera com o editor José da Cruz Santos, responsável por vários livros anteriores. Um regresso que deverá ter uma continuação nos próximos anos, mais intensa do que a entrega aos leitores de um livro quase a cada sete anos. Que justifica com a recusa de escrever poesia durante a ditadura salazarista: “Era uma traição moral andar a publicar problemas líricos. Depois, em 1964, publico Corpo de esperança, que é um livro muito marcado pelas lutas estudantis desses anos, em que tive uma intervenção bastante ativa. Até ao 25 de Abril pouco mais publiquei…»Interrompe-se a história de uma ausência para questionar o poeta sobre este novo livro. José Carlos de Vasconcelos explica o seu modo de criação: “Para mim, o poema parte de um núcleo central, um ato que o faz nascer e pode continuar ao longo dos anos. Essa é uma das razões por que, em geral, só publico o poema muito tempo depois da primeira versão, após várias alterações no sentido de lhe dar claridade e concisão.” Aproveita-se a palavra “claridade” para se comparar com a obrigação de existir clareza na sua outra profissão, a de jornalista. Conseguirá o poeta e o jornalista separar essas duas escritas? Responde: “Sim, porque são duas linguagens. O que distingue a poesia é que o que está no poema não pode ser dito com outras palavras, pois cada palavra é como uma pedra fundamental na estrutura de uma casa. No entanto, creio que o meu olhar e a minha essência de jornalista também estão em muitos dos meus poemas. Não é por acaso que um dos meus livros tem como título Repórter do coração; contudo, serão sempre duas linguagens distintas, apesar de o que chamo claridade na poesia corresponder em muito à clareza no jornalismo. A luminosidade na poesia tem quase sempre alguma coisa de oculto, de só poder ser dito por aquelas palavras.”Apesar de fazer essa separação entre as linguagens do poeta e do jornalista, Vasconcelos abrirá uma exceção para um poema que incluiu no seu novo livro, Romance do dia em que se fazia a marmelada: “O João Cabral de Mello Neto, um dos poetas de que gosto muito, dizia que há poemas que têm alguma coisa de descritivo. É o caso deste, que tanto poderia dar uma crónica jornalística como um poema, e que tem uma história antiga pois a sua base data dos anos 1970 e nunca parei de o trabalhar, muitas vezes em partes mínimas, porque a beleza da poesia tem muito a ver com esse esforço continuado”.Nem todos os poemas de Os Sete Sentidos se apresentam graficamente de forma tradicional, antes erráticos na distribuição dos versos. Não sendo capaz de justificar plenamente o porquê de alguns serem assim, Vasconcelos tenta explicar: “A forma do poema nem sempre é a normal, mas não sei explicar exatamente o porquê. Como a visualização é importante, nuns poemas é tudo como habitual, noutros umas linhas são maiores, outras com outra métrica, mesmo que a sonoridade tenha um significado especial para mim pois o ritmo é fundamental. Quando escrevo sinto certas rimas internas, trações, a necessidade de pôr em evidência uma certa palavra, aquela que dá o ritmo certo de leitura; nunca tive nada a ver com a poesia concreta e a visual, mas não posso evitar modificar ou substituir uma palavra para que a mancha gráfica do poema se coadune com a forma como eu o sinto – não pode é prejudicar a essência do poema, antes aumentar a sua eficácia.”O poeta bissexto não deixará de confessar que tem um novo projeto, o de um dia não muito distante publicar um livro com bastantes dos seus poemas inéditos: “Que têm a ver muito diretamente sobre a minha vida e que fui escrevendo ao longo dos anos”. Fica uma pergunta: será esse livro um reencontro com a tradicional existência de um ilustrador nos livros de José Carlos de Vasconcelos, como Cipriano Dourado, Graça Morais e Júlio Resende? .OS SETE SENTIDOS E OUTROS LUGARESJosé Carlos de VasconcelosD.Quixote166 páginas ANDANÇAS PELO METO gigantesco Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque é o cenário que Patrick Bringley utiliza para este seu livro. A história é simples: após a morte do irmão do autor, este emprega-se como vigilante do museu. A partir daí, tudo se desenvolve como num romance em que os visitantes geram pensamentos, os quadros exigem descrições, as alas pedem explicações, e o espaço egípcio pede reflexões de ordem civilizacional. A leitura deste livro é um prazer entre tantos volumes desnecessários e fúteis que ocupam os expositores das livrarias e, apesar da temática, nada lamechas ou sentimental. A não perder. .TODA A BELEZA DO MUNDOPatrick BringleyMinotauro247 páginas AS VIDAS DE UM FILÓSOFOJosé Jorge Letria tem vindo a construir um património de testemunhos de protagonistas nacionais na sua coleção o fio da memória, que se tornou de consulta indispensável para a história social e intelectual portuguesa. O volume de diálogos mais recente é com José Barata-Moura e intitula-se As Vidas de Um Filósofo, no qual se pode ler a opinião do entrevistado sobre vários temas, como, por exemplo, “faz falta pensar”. .JOSÉ BARATA-MOURAJosé Jorge LetriaGuerra & Paz237 páginas