A irmã Lúcia junto à imagem da Virgem Maria, duas das sete mulheres retratadas por Pedro Vieira.
A irmã Lúcia junto à imagem da Virgem Maria, duas das sete mulheres retratadas por Pedro Vieira.DR/Osservatore Romano

Quem foi Maria, a que visitou Lúcia?

O escritor Pedro Vieira decidiu enfrentar a fúria divina e escreveu 'Vénus em Chamas', uma investigação sobre sete mulheres “instrumentalizadas por Deus”.
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Ainda não começou o texto do ensaio e o autor faz a sua primeira provocação com a epígrafe: “Algumas das melhores histórias não são verdadeiras”. Esta declaração não impede de se avançar com muita curiosidade para as sete histórias que tanto poderão ser falsas como não; a da irmã Lúcia é o melhor exemplo para fazer uma verificação, porque a sua mitologia está bem perto dos leitores portugueses, havendo ainda contemporâneos da solidão da menina que em 1917 falou com a Nossa Senhora e depois foi “presa” em vida. Ou seja, a última história destas investigações “casa” com a primeira, a sobre a Virgem Maria.

Após o romance Maré Alta, em que fazia um “retrato cru e épico” dos portugueses, Pedro Vieira regressa com um ensaio em que não tem a certeza de ser tudo verídico: “Há mulheres de um tempo muito remoto e não se pode ter a certeza sobre o que se escreveu sobre elas.” A primeira figura retratada é a Virgem Maria, provavelmente a mulher mais biografada deste mundo após o seu filho, Jesus. Pedro Vieira não tem dúvida que “sim, deverá ser”, bem como sobre a dificuldade em a esboçar: “Na minha opinião é a figura principal do livro e o que tentei fazer foi ir à procura de falhas numa narrativa que está muito contada, no entanto, também bastante declinada em várias versões. Maria é usada para tudo e mais alguma coisa, é a santa protetora em muitas épocas e culturas. O que fiz principalmente foi ler o Novo Testamento em busca de mais pistas e o que encontrei foram muitos hiatos na sua história, que é toda feita sobre uma biografia muito breve.”

A leitura mostrou ao autor várias situações inesperadas sobre a primeira protagonista: “Jesus nunca lhe chama mãe na Bíblia e, depois de ser crucificado, Maria evapora-se da narrativa, o mesmo acontece a José, e o que resulta desse vazio é muita especulação. Tanto que as versões sobre Maria vão continuando a surgir e até à atualidade vai sendo «reciclada» conforme os tempos, o que não deixa de provocar um certo fascínio.”

Se Maria era uma escolha fácil, se Lúcia era inesperada mas nacional, qual foi o critério para as restantes cinco mulheres retratadas neste Vénus em Chamas: Madalena, Teodora, Joana D’Arc, a cortesã Fillide e a escrava Harriet Tubman. A resposta é: “O denominador comum foi o de estarem em contacto com o universo da religião, total ou parcialmente, e serem mulheres que não contaram as próprias histórias e cujas biografias que se conhecem têm origem noutras pessoas, nomeadamente em homens.” Narradores que acompanharam a “evolução das histórias de cada uma, como é o caso de Maria Madalena: “Desconhecia que só quinhentos anos após a morte é que passou a ser uma prostituta arrependida devido a um engano do Papa Gregório Magno e passou a ser mais uma figura instrumentalizada.”

Qual será a mulher entre as sete retratadas que mais seduziu o autor? Pedro Vieira não hesita: “De todas é Harriet Tubman, pelo percurso extremamente improvável. Sem querer vulgarizar o termo heroína, é, de facto, uma figura absolutamente extraordinária, que nasce escrava, sofre uma agressão brutal de um capataz e as mazelas físicas severas irão ter muita influência na sua personalidade, além de que associa as vozes que ouve à de Deus a ordenar-lhe missões. Por isso, abraçará a missão de resgatar escravos das plantações.” Quem também ouve vozes é a quarta figura do livro: Joana D’Arc. Para Pedro Vieira tem muito a ver com Harriet, pois “também lidera tropas”, mas terá um destino mais trágico por ter vivido na Idade Média: “Nos combates segurava um estandarte em nome de Deus e do futuro rei, inspirando os que guerreavam, mas acabou por ser sacrificada. Também é das mais biografadas e com várias versões do que terá sido a sua vida”.

O autor, Pedro Vieira.
O autor, Pedro Vieira.Foto: D.R.

Se a Joana D’Arc foi difícil convencer as pessoas da época sobre a sua “missão”, também o mesmo acontece com a irmã Lúcia, uma figura dividida entre a dúvida e o que ficou para a história. Porque se questiona tanto Lúcia, pergunta-se. O autor responde: “Porque Lúcia é um 'produto' nacional e somos mais desconfiados. Também porque convivemos com ela e com Joana d'Arc será sempre uma memória distante e mais idealizada do que Lúcia.”

A organização do livro vai além das biografias, com o acrescento do género da ficção, como conta Pedro Vieira: “Não foi por acaso que quis piscar o olho à ficção, antes porque as histórias que estava a contar também tinham por base muitas invenções. Portanto, juntei aos dados ditos históricos um pouco de ficção, contaminando os dois registos. Este não é um livro de História nem sou historiador, o que queria era relatar estas vidas. Creio que o meu contributo ficcionado não adultera as narrativas que estão cheias de ficção e nas quais, em alguma medida, se tem acreditado. Não será por acaso que Pedro Vieira ainda confessará que gosta de experimentar registos: “Tenho um percurso errático na escrita e, se gosto mais da ficção na minha escrita, cada vez gosto mais de não-ficção como leitor. Não sei bem por que razão; se por a ficção estar em perda porque a realidade em que vivemos é tão forte que os escritores não conseguem competir.”

VÉNUS EM CHAMAS

Pedro Vieira

221 páginas

Penguin

TUDO SOBRE O PÃO

Na capa está dito que o Almanaque do Pão, como qualquer bom almanaque, traz ao leitor uma enorme quantidade de informações sobre este alimento fundamental para a humanidade: provérbios, lendas, receitas, histórias e muitas outras curiosidades. Avança-se na leitura e encontra-se a Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, que invoca o pão: “Na cidade não havia trigo para vender, e se o havia era mui pouco, e tão caro que as pobres gentes não podiam chegar a ele”. O autor acrescenta: “Podemos dizer que durante toda a história de Portugal o pão foi a base da alimentação”; também informa sobre o primeiro passo da expansão: “Os vastos campos cerealíferos que rodeavam a cidade (de Ceuta) eram muito atraentes”. Daí que nas quase cem páginas que se seguem se multipliquem os ditados, como “A esperança é o pão dos infelizes”; as lendas, como a do Pão de Santo António”; as receitas, como a das Migas à Alentejana; as histórias, como a da Padeira de Aljubarrota; as do pão na religiosidade popular, entre tradições e festas.

ALMANAQUE DO PÃO

Sérgio Luís de Carvalho (texto)

Dina Pereira (ilustração)

96 páginas

Parsifal

PROJETOS FALHADOS

A confissão do autor vem logo no início: “Cada um dos sete capítulos fala de um livro que eu esperava escrever, mas não escrevi. E tenta explicar por que razão não o fiz.” Um dos melhores exemplos vem no texto sobre as memórias de Joseph Needham e de como elas se frustraram quando referiu que só as escreveria mediante um esclarecimento fundamental sobre uma verdade ou mentira. Esse foi o primeiro livro que não escreveu.  

OS LIVROS QUE NÃO ESCREVI

George Steiner

Gradiva

219 páginas 

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