Os títulos portugueses dos filmes continuam em estado de algum sobressalto. Agora, é Mr. Nobody Against Putin que surge nas salas (a partir de amanhã) com o título... Mr. Nobody contra Putin. Uma vez mais, convém lembrar que um filme não é “melhor” nem “pior” por causa do seu título português - estamos mesmo perante um notável documentário, aliás nomeado para o respectivo Óscar (a atribuir no dia 15 deste mês). Acontece que, no plano da comunicação, esta tradução “híbrida" não será uma ideia muito feliz. Até porque este é mesmo um filme sobre alguém que se torna “ninguém”, quer dizer, uma figura que, à partida, parece não ter qualquer poder para lidar com a situação que está a viver — parece mesmo condenado a ser um “Sr. Ninguém” face às múltiplas formas de poder ao alcance de Vladimir Putin...Que poder tem, então, Pavel Talankin? Ele não passa de um típico professor da Escola Primária de Karabash, uma cidadezinha mineira no coração da Rússia, próximo dos Montes Urais. O seu gosto pelas câmaras de filmar deu-lhe o lugar de organizador dos eventos escolares, incluindo a responsabilidade de registar, em vídeo, tais eventos.Talankin mantém com os alunos uma relação aberta, fundamentada numa pedagogia de diálogo que faz com que o seu pequeno gabinete seja o mais acolhedor (por vezes também o mais ruidoso) de toda a escola. O seu obstinado liberalismo suscita reticências de vários colegas, o que não impede que o dia a dia seja preenchido com dedicação e alegria, não pondo em causa o funcionamento normal das aulas.Até que, a 24 de fevereiro de 2022, Putin mobiliza as tropas russas e invade a Ucrânia... O facto instala um perverso paradoxo na vida de Talankin e, nessa medida, na narrativa do filme. Assim, ele não pode deixar de manifestar o seu desencanto: há colegas a celebrar a acção militar da Rússia, mas quase todos partilham o desgosto de Talankin, embora receando explicitar os seus pontos de vista. Ao mesmo tempo, por determinação vinda de Moscovo, o quotidiano escolar passa a ser pontuado por discursos de propaganda (por vezes envolvendo as mais disparatadas mentiras) e atividades oficiais que promovem a “justiça” da invasão da Ucrânia. Com uma ordem explícita: tais atividades devem ser registadas em vídeo... Ora, quem do corpo docente tem capacidade para executar tal tarefa? Talankin, pois claro!Vemo-lo, assim, como uma espécie de “agente duplo”, não à maneira de um filme de espionagem, antes assumindo com total transparência a sua função de “videógrafo” oficial da escola de Karabash. Fá-lo com disciplina e agilidade, registando a “nova vida” de uma escola transfigurada em aparelho ideológico estatal, para depois enviar o material recolhido para uma base de dados do governo de Putin. Dito de outro modo: Talankin vai percebendo que a responsabilidade de dar a conhecer no estrangeiro as imagens (e sons) que foi registando implicará, mais cedo ou mais tarde, a sua saída da Rússia,,,Imagens & políticaUma velha máxima cinéfila, em particular da cinefilia crítica, recorda que, de forma direta ou metafórica, um filme contém sempre a história da sua própria produção - de onde vem, como foi fabricado, que aconteceu para se transformar em narrativa. Ora, Mr. Nobody Against Putin apresenta-se como a história muito concreta de um processo de gestação de um olhar documental.Com a sua câmara de vídeo (e mais uma máquina fotográfica que também permite fazer registos videográficos), Talankin conta-nos a história da descoberta do valor político das suas imagens. O filme é co-assinado pelo americano David Borenstein - que o ajudou a organizar o material recolhido em Karabash -, mas esta é a saga muito particular de Talankin e do valor universal do seu testemunho..'A Uma Terra Desconhecida'. O cinema da Palestina no exílio