Fernando Pessoa. "É desonesto dizer que ele era racista e esclavagista"

O investigador José Barreto trabalha há 15 anos no espólio de Fernando Pessoa, escreveu livros e artigos sobre o poeta e é profundo conhecedor da obra. Garante que nunca viu os documentos em que se baseiam as acusações de racismo e esclavagismo ao poeta.

"Mais cedo ou mais tarde tinha de acontecer...", refere o investigador José Barreto sobre a polémica em torno da acusação de que Fernando Pessoa era racista e apoiava a escravatura a propósito da intenção de se lhe dar o seu nome a um programa de intercâmbio académico dentro dos países da CPLP.

A razão é simples, explica o investigador José Barreto: "Como desde os anos 1980 se tem vindo a publicar muitas centenas de coisas que Pessoa nunca pensou publicar, muitos leitores simplesmente não distinguem entre o que ele deu ou pretendia dar à estampa e o que atirou simplesmente para a mala em que guardava tudo o que escrevia, mesmo certas parvoíces (acontece a todos) que rabiscava em papelinhos, eventualmente com uns copitos já bebidos. Pessoa não atirava nada fora: podia era escrever outros papelinhos a dizer o contrário do que tinha dito nos primeiros. Acontecia-lhe isso muito frequentemente."

Para este especialista em Fernando Pessoa existem de facto "vários escritos", quase sempre "fragmentários e meros pequenos esboços de coisas que nunca levou avante" em que Pessoa defende a "escravatura". Avisa, no entanto, que isso acontece "numa espécie de exercício dialético ou retórico íntimo, às vezes irritado, sempre provocatório".

É óbvio, refere, "que Pessoa nunca pensou publicar essas coisas. Na maioria desses escritos (melhor seria chamar-lhes fragmentos) sobre a escravatura, Pessoa não se refere nem a negros nem a raça alguma, sublinhe-se isto bem. Ele era vincadamente classista e elitista, certamente, mas não era propriamente racista, se descontarmos alguma contaminação pela mentalidade racista mais ou menos inconsciente do ambiente em que viveu, inclusive na África do Sul."

Num texto inédito, acrescenta José Barreto, "Pessoa explica que quando fala em escravatura não se está a referir literalmente ao sistema esclavagista do passado, mas à 'plebe', ao operariado moderno, do qual fala quase sempre com desprezo, traumatizado como ficou pelo sindicalismo revolucionário e pelo anarquismo bombista da I República. Ele simplesmente chamava 'escravos' aos operários em geral e dizia que os sindicalistas tinham mentalidade de escravos, ou que eram 'carneiros verticais', porque se submetiam à autoridade dos seus chefes políticos sem pensarem. Daí a defender que eles deveriam ficar sempre 'escravos', porque nasceram para ser 'escravos', o passo é pequeno".

"Mas há também escritos de Pessoa a condenar as teorias raciais e até... o colonialismo!" José Barreto recorda o seu artigo, Fernando Pessoa e a invasão da Abissínia pela Itália fascista, (que se pode encontrar online), no qual, em anexo publicou textos de Pessoa inéditos, "mas que ele destinava a um artigo. Nesses trechos, ele comenta os argumentos com que o fascismo imperialista italiano justificava a decisão de invadir a Etiópia. Para a época (1935), alguns dos comentários que Pessoa tece a tal respeito eram até bastante avançados. Na fase de plena maturidade, anos 1920-1930, Pessoa deixou completamente de escrever aquelas parvoíces sobre a escravatura que escrevera na década de 1910. Essa é a outra pecha grave da edição dos escritos da arca a granel, isto é, sem datação, nem enquadramento cronológico, nem contextualização. O pensamento sociopolítico de Pessoa evoluiu bastante com o tempo e não se podem citar textos como quem tira coelhos da cartola."

De acordo com o investigador, "fica muito por dizer sobre o tema, mas, além dos rabiscos 'exclavagistas' atirados para a arca, Pessoa nunca teve publicamente, que se conheça, qualquer atitude racista, nem nunca publicou uma linha de doutrina racista. É verdade que, em Portugal, naquela época, o racismo nem sequer era um tema, como hoje notoriamente é. Quanto ao estrangeiro, o racismo dos fascistas e dos nazis era para ele desprezível. Mais, Pessoa era amigo do jornalista e escritor são-tomense Mário Domingues. Sê-lo-ia se achasse que os negros só servem para escravos?"

O investigador trabalha há 15 anos no espólio de Fernando Pessoa e nunca encontrou o trecho em causa sobre a escravatura dos negros: "Não posso negar que ele lá esteja, escondido no meio das dezenas de milhares de páginas que o compõem, mas dificilmente se encontrará no espólio mais alguma tirada de teor semelhante. Fazer disso uma opinião característica de Pessoa é desonesto, sobretudo quando se sabe que ele registou outras opiniões bem diferentes, como aquelas sobre a Etiópia, que ele queria publicar (um primeiro artigo seu sobre a Etiópia foi cortado pela censura salazarista, pelo que ele desistiu de acabar o segundo). Curiosamente, Mussolini justificava a invasão da Etiópia com o argumento de que havia lá uma escravatura ancestral, por isso os fascistas italianos eram representados por ele como libertadores. E, para supostamente os libertarem das grilhetas de escravos, mataram um milhão de etíopes, fazendo bombardeamentos indiscriminados e gazeando maciçamente as populações com gás asfixiante. Pessoa fez um poema contra o tal argumento da escravatura na Etiópia, em que terminava dizendo que escravatura era o que existia na Itália fascista..."

Sobre o tema particular da escravatura dos negros nas colónias portuguesas, José Barreto adianta: "Há uns apontamentos de 1909-10, em que Pessoa se insurgia patrioticamente contra o que a imprensa inglesa escreveu então sobre Portugal, quando se fizeram umas denúncias de trabalho forçado em S. Tomé. A firma de chocolate Cadbury tinha contratado um tal Joseph Burtt, que percorreu as colónias portuguesas, de São Tomé a Angola e Moçambique, para averiguar se nas roças do cacau era empregada mão-de-obra escrava levada de Angola para lá. O que Burtt descobriu foi relatado num interessante livro de 2005 intitulado Chocolate Islands: Cocoa, Slavery, and Colonial Africa, que surpreendentemente não despertou qualquer interesse na comunicação social portuguesa até hoje. A campanha da Cadbury contra o trabalho escravo em São Tomé surgiu porque essa empresa inglesa, que se gabava de ser modelar no tratamento do seu pessoal, foi acusada por um jornal londrino de hipocrisia, pois o seu chocolate era fabricado com cacau da colónia portuguesa, onde havia trabalho escravo. Pessoa, movido por uma indignação patriótica, rabiscou então uns apontamentos, de que nunca chegou a fazer um texto. Nele, não negava que houvesse casos de escravatura em São Tomé, que deplorava, mas a sua preocupação principal era a de devolver a acusação aos hipócritas ingleses, que usavam trabalho escravo nas minas de ouro sul-africanas. Outro dos argumentos de Pessoa era que a Inglaterra confundia Portugal com o regime monárquico português, que segundo ele era cruel e decadente. Os casos criminosos de escravatura não eram, para Pessoa, representativos do caráter dos portugueses, mas sim da Monarquia."

Barreto indica sobre este tema um artigo de Ana Maria Freitas, intitulado Fernando Pessoa e a polémica Cadbury. "Como resultado dessa campanha em Inglaterra, a Cadbury passou a boicotar São Tomé e a comprar o cacau na colónia inglesa do Ghana", recorda o investigador

Outras reações à acusação

A acusação é também negada por vários especialistas na obra do poeta, como as abaixo reproduzidas. É o caso de Teresa Rita Lopes, uma das principais investigadoras da obra do poeta que explica o equívoco de se atribuírem essas afirmações falsas ao poeta por se encontrarem de forma errada e sem uma contextualização correta no volume Fernando Pessoa - Uma quase-autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho, que o autor brasileiro "encomendou, porque precisava de ter um livro na sua biografia para se candidatar a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras". Explica como foi: "Contratou uma equipa que lhe escreveu o livro - ele nunca o escondeu - e do que resultou um disparate total e cheio de inverdades".

Segundo Teresa Rita Lopes o equívoco acontece porque "as pessoas esquecem que quando atribuem frases ao poeta estão a tirá-las de uma das suas personagens, porque toda a obra do Pessoa é uma obra de teatro. Pessoa desdobrou-se em personagens que, naturalmente, se contrariam umas às outras." Explica: " Se nos apoiarmos numa, por exemplo, ela é contra todos os patriotismos e nacionalismos e isso não é verdade como se sabe, pois demonstrou durante toda a sua vida amor pela dita pátria. O que acontece é que Pessoa inventou um personagem chamado António Mora, que também era pagão como Ricardo Reis, e para alguém assim a escravatura era algo natural. Mas, o Mora é uma das pessoas a quem Pessoa chamou o drama em gente."

Também o especialista Jerónimo Pizarro é claro e em poucas palavras recusa a mesma acusação de Fernando Pessoa ser racista ou apoiar a escravatura. Para Pizarro a acusação "está fora de contexto" e afirma mesmo que está "politizada".

O filósofo e especialista no poeta José Gil considera que é uma inverdade e adianta: "Apesar de não conhecer os textos referidos, conheço muitos outros textos de Pessoa e não vejo nenhum reflexo nem de racismo nem de defensor da escravatura na obra. Não há esse traço!" Para José Gil, diz, "o que posso imaginar é que possivelmente - e não passa de uma especulação se é verdade que os escreveu - trata-se provavelmente de uma ilação dentro de um contexto teórico como os que fazia sobre as civilizações e a evolução da humanidade e não correspondia a nenhuma crença."

Para Richard Zenith, um dos grandes conhecedores da obra do poeta, a questão tem contornos diferentes e que devem ser tomados em conta. Afirma que pode dizer-se que "Fernando Pessoa era imperialista e defensor de classes e da escravatura na sua república platónica ideal", mas nega que o poeta "tenha aderido às ideias racistas de Ernst Haeckel e outros, que acreditavam na inferioridade genética de certas raças, nomeadamente a raça negra."

Explica, no entanto, que Pessoa "escreveu aquelas coisas citadas, o que, a meu ver, desqualifica o seu nome para ser associado a iniciativas da CPLP. O seu pensamento evoluiu, felizmente, e em 1935 não teriam subscrito àquelas afirmações de circa 1918, mas também não chegou a renunciá-las. Aliás, pode nem se ter recordado de as ter escrito. Escreveu-as, porém, e compreendo e concordo com a revolta das pessoas cuja dignidade feriu."

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