Quando o feminismo lutou através das canções

Helen Reddy, cantora australiana que foi um símbolo para os movimentos feministas da década de 1970, é evocada agora num filme biográfico. O título cita a sua canção mais célebre: "I Am Woman".

Em tempos futuros, é bem provável que os estudiosos do cinema considerem que as duas primeiras décadas deste nosso século XXI foram especialmente marcadas pela surpreendente proliferação de "filmes biográficos"... É, de facto, impressionante a quantidade de evocações de figuras com alguma ressonância histórica, incluindo a da cantora Helen Reddy (1941-2020), numa realização de Unjoo Moon, agora lançada nas salas portuguesas com o título I Am Woman - A Voz da Mudança.

O subtítulo português condensa a atração, e também os equívocos, de muitos destes projetos. Assim, é verdade que a australiana Helen Reddy foi, de facto, uma "voz" associada a um contexto de "mudança", quando mais não seja porque, sobretudo nos EUA, a sua canção I Am Woman se tornou um símbolo e, mais do que isso, um hino de muitas manifestações dos movimentos feministas da década de 1970. Ao mesmo tempo, não é menos verdade que tal rótulo tende a reduzir a personagem a uma existência que se vai esgotando no seu papel ou valor militante.

Dito de outro modo: estamos perante um convencional "biopic" que vive da chamada reconstituição da época e das singularidades da personagem central, em particular da existência atribulada com o seu marido e empresário Jeff Wald. Nesta perspetiva, não tenhamos dúvidas que a energia da composição de Tilda Cobham-Hervey, atriz australiana que vimos, por exemplo, em Hotel Mumbai (2018), se revela vital para o impacto do filme; acima de tudo, ela consegue devolver-nos uma Helen Reddy que, mesmo quando tratada como "bandeira" ideológica, conserva as marcas de uma humanidade plena de contrastes emocionais.

Vale a pena referir que, de acordo com as informações da produção, I Am Woman foi feito em estreita colaboração com a família da cantora, tendo chegado às salas australianas já este ano, em agosto, cerca de um mês antes do seu falecimento. Como curiosidade, aqui fica a verdadeira Helen Reddy, interpretando I Am Woman, num registo televisivo de 1971.

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