Revelado no Doclisboa de 2014, Pulp: Um Filme sobre a Vida, a Morte e Supermercados, realizado pelo alemão Florian Habicht, é um objeto insólito que vale a pena ver ou rever. “Filme concerto”, sem dúvida, mas também um registo ambíguo, deliciosamente irónico, capaz de desafiar os modelos correntes deste tipo de produção. Enfim, para os mais saudosistas, ou apenas para garantir alguma objetividade na contextualização deste “concerto final” dos Pulp na sua cidade natal, Sheffield, talvez valha a pena recordar algumas datas. Assim, os Pulp, formados em 1978, lançaram o primeiro álbum de estúdio, It, em 1983. Antes deste concerto, no dia 8 de dezembro de 2012, os seus últimos registos eram This Is Hardcore (1998) e We Love Life (2001), talvez os principais emblemas de toda a sua discografia. Na altura, Jarvis Cocker, fundador, vocalista e símbolo universal da banda, tinha 49 anos — o que quer dizer que está à beira de celebrar 63 radiosas "primaveras” (no próximo dia 19 de setembro)... Quer isto dizer também que a promessa de “eterna juventude”, componente obrigatória da mitologia da música rock (“indie”, “punk”, “alternativa”, ou como lhe quisermos chamar) não nos evita o confronto com a metódica passagem do tempo. Se o filme de Habicht resiste à crueldade do calendário, isso resulta, não exatamente de uma pose nostálgica, mas das singularidades cinematográficas da visão que nos é proposta. Digamos que a associação dos grandes temas existenciais (para evitar confusões, somos mesmo avisados que estão em jogo a “vida” e a “morte”) joga muito bem com as rotinas dos dias (os “supermercados”, pois claro). Ou ainda: Pulp: Um Filme sobre a Vida, a Morte e Supermercados possui a energia de um genuíno retrato documental que, nem que seja pelas ambiências que dá a ver, nos obriga a evocar a herança documental (sempre ativa) do realismo britânico. Que acontece, então? Um ziguezague entre as vibrações do palco e, através das palavras dos elementos da banda, uma visita guiada a diversos cenários de Sheffield. E temos depoimentos de fãs (incluindo o bem disposto proprietário de um quiosque de jornais), um treino de futebol feminino, um ensaio de uma escola de dança e, para ilustrar o humor muito sério de tudo isto, fragmentos de uma conferência sobre “Lugar, Sexo & Classe na Música dos Pulp”. .'Calle Málaga'. A arte de envelhecer não está na moda .'Campo de Batalha'. Uma tragédia moral em cenário de guerra