Portugal candidata filme “A Memória do Cheiro das Coisas” a nomeação dos Óscares
O filme “A Memória do Cheiro das Coisas”, de António Ferreira, foi a obra escolhida para representar Portugal na candidatura à nomeação para os Óscares, anunciou esta terça-feira, 15 de setembro, a Academia Portuguesa de Cinema.
“A Academia Portuguesa de Cinema felicita António Ferreira, a produtora, toda a equipa artística e técnica e os restantes profissionais envolvidos na realização de ‘A Memória do Cheiro das Coisas’, desejando-lhes o maior sucesso nesta nova etapa do percurso do filme”, pode ler-se no comunicado da academia.
O filme esteve em votação nas últimas semanas, entre os membros da academia, a par de “18 Buracos para o Paraíso”, de João Nuno Pinto, “Maria Vitória”, de Mário Patrocínio, “Primeira Pessoa do Plural”, de Sandro Aguilar, “Projeto Global”, de Ivo M. Ferreira, e “Terra Vil”, de Luís Campos.
O filme de António Ferreira é uma narrativa ficcional que fala de racismo, envelhecimento e traumas de guerra.
A história centra-se em Arménio que, à beira de completar 80 anos, passa a viver num lar, contrariado por ser tratado como os outros utentes idosos e incapaz de aceitar apoio de uma auxiliar portuguesa negra.
É em Hermínia, a mulher negra, que Arménio descarrega o preconceito e o racismo, ao mesmo tempo que revive, em pesadelos, o tempo em que combateu na Guerra Colonial em África.
À Lusa, antes da estreia, António Ferreira contou que quis fazer um filme sobre o envelhecimento, esse momento irreversível do fim da vida e ao mesmo tempo falar sobre o que ainda subsiste na sociedade portuguesa décadas depois do fim da guerra nos territórios colonizados.
Os militares portugueses “tiveram uma lavagem cerebral para ver o negro como inimigo. Quando a guerra acaba, o país tem uma revolução e ninguém explicou nada a estes homens o que foi aquilo que lhes foi metido na cabeça, nunca ninguém desmontou essas ideias e esses preconceitos que perduram ao longo de décadas”, lamentou António Ferreira.
O realizador, nascido em 1970, fez pesquisa junto de ex-combatentes, de psicólogos e inspirou-se na sua experiência pessoal, enquanto filho de um homem que ficou com marcas de guerra.
“A Memória do Cheiro das Coisas” é protagonizado por José Martins no papel de Arménio, que tenta pacificar-se com o passado e com o envelhecimento enquanto se confronta com Hermínia, papel interpretado por Mina Andala.
O filme valeu a José Martins o prémio de melhor ator no Festival de Cinema de Xangai, na China, e a António Ferreira o de melhor argumento, coescrito com Tiago Cravidão, no festival de cinema de Tânger, em Marrocos.
Coproduzido por Portugal e Brasil, “A Memória do Cheiro das Coisas” chegou aos cinemas portugueses em novembro do ano passado e é quinta longa-metragem de António Ferreira, juntando-se a “A Bela América” (2023), “Pedro e Inês” (2018), “Embargo” (2010) e “Esquece tudo o que te disse” (2002).

