A deriva nazi não deixa de marcar presença no novo romance de João Pinto Coelho, mas é a decadência de uma família o cenário principal de um dos mais interessantes romances recém-publicados.
A deriva nazi não deixa de marcar presença no novo romance de João Pinto Coelho, mas é a decadência de uma família o cenário principal de um dos mais interessantes romances recém-publicados. Foto: D.R.

Perguntem a João Pinto Coelho sobre os esquecimentos da História

Os cenários físicos do novo romance, 'Aguarela de Paris', são vários, mas o da Escócia predomina porque o escritor quis estar num lugar a que queria voltar.
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O mais recente romance de João Pinto Coelho, Aguarela de Paris, é um objeto de leitura muito sedutor para o leitor. Bastam as páginas iniciais para impedir qualquer desistência e para colocar ao leitor a pergunta sobre a ausência na literatura portuguesa atual de romances tão exigentes como bem realizados como os que escreve. Mesmo quem não tenha acompanhado a sua escrita elaborada desde o início, com Perguntem a Sarah Gross (2015), tem neste seu quinto romance uma ótima entrada para o universo do autor. Avisa-se desde já que para se chegar à “ação” neste romance, são muitas as histórias que preparam o leitor para entender o falhanço de uma humanidade como foi o daquelas gerações obrigadas a conviver com o drama da II Guerra Mundial. Ao fazer-se um paralelo com a situação bélica atual em que o mundo vive, João Pinto Coelho aceita que o seu novo romance possa ser um alerta. Considera que “toda a evocação da violência num contexto histórico, seja pela abordagem académica, seja pela ficcional, deve servir de prova. Se aconteceu, pode voltar a acontecer, como lembra Primo Levi”. No entanto, se acha que aquilo que se observa nas guerras em curso “devia bastar para ser tomado como um aviso sério”, essa é “uma expectativa que perdi há muito”.

Decerto que o leitor fiel do escritor ficou marcado pela deriva antissemita da Alemanha como a que era narrada no primeiro, em seguida no romance Prémio Leya, Os Loucos da Rua Mazur (2017); depois, no retrato do ódio legado por Mussolini em Um Tempo a Fingir, (2020), e a procura de respostas para a infância em Mãe, Doce Mar, (2022). Desta vez, não fugindo à sua técnica de enquadramento, o autor passa as primeiras dezenas de páginas num cenário tão realista como delirante da Escócia, que irá desembocar na questão judaica e hitleriana, num “murro” no estômago inesquecível a quem o lê. Quando questionado sobre o fruto dessa técnica, Pinto Coelho passa a resposta para o leitor: “Caberá sempre a quem me ler. Nunca escrevo em função deste ou daquele efeito ou reação, até porque o encaixe da história varia de leitor para leitor. Em romances anteriores acompanhei a fermentação do preconceito e da intolerância, desta vez instalo-os de supetão no cenário da França ocupada, sublinhando mais o colaboracionismo dos agentes políticos e das forças de segurança do que o antissemitismo de outros sectores da sociedade parisiense.”

A narrativa passa também por Portugal, país em que não existe uma família que possa rivalizar com a do barão de Senigallia, que domina a entrada apoteótica de Aguarela de Paris. Servirá de contraponto, pergunta-se ao escritor, ou será o tour de force adequado literariamente para engrandecer o cenário de um romance passado numa outra época escocesa. Pinto Coelho clarifica: “Este é um romance sobre a decadência. Não só a decadência moral e a recodificação de valores à luz de um sistema ideológico, mas a decadência de duas personagens, as gémeas Senigallia. Precisava começar pelo fausto para acabar como queria, na indigência e na degradação mais drástica. O meu ponto de partida foi a opulência de um castelo escocês e o poder de uma família - não houve outra razão.”

O principal cenário nunca é o nacional, que apenas apanha boleia devido às circunstâncias históricas de ter sido o ponto final para múltiplas fugas ao pesadelo do Terceiro Reich, mas em muito o da Escócia. Tal como nos romances anteriores, a escolha não foi por acaso, como recorda: “Às vezes há razões muito primárias e o facto de querer escrever desta vez nos cenários escoceses foi a minha maneira de estar num lugar onde queria voltar. Sempre houve razões para me localizar num ou noutro cenário e não será por acaso, é que todos os anos organizo viagens literárias a qualquer lugar do mundo em que haja um livro ou um autor que nos chame. Cracóvia e Auschwitz por causa do meu primeiro romance, a Toscana levados pelo segundo, mas também os cafés literários de Praga, de Kafka e Kundera, o território Maasai, no Quénia de Karen Blixen, a Irlanda de Joyce, Yeats e Oscar Wilde. Duas delas, em que percorremos o sul da Inglaterra nos trilhos de Jane Austen, Agatha Christie, Virginia Woolf e outros, acabaram num clube literário que atravessou a ilha de comboio, desde King’s Cross, em Londres, até aos confins da Escócia. Foi aí, entre Inverness e o Loch Ness, que reinstalei este romance quando regressei a Portugal.”

Uma das características de Aguarela de Paris é a existência de um grande leque de personagens secundárias. Pinto Coelho concorda: “Os meus livros sempre foram muito populosos.” Mas, específica no que respeita à forma como estrutura essa rivalidade para com as protagonistas Franca e Giullietta: “Cada personagem serve o romance à sua maneira, pois o importante é ser imprescindível. Até as secundárias, as que uso para a caracterização sociológica de um lugar ou de um tempo histórico, existem para que nelas se expressem as principais ou, simplesmente, como instrumentos de ação. O problema é que se acho graça a um revisor de bilhetes ou a um rato de sacristia e lhes dou mais importância do que a que têm para a história, situação para que o leitor, tal como o autor, tem de estar preparado para se despedir delas.”

Não é por acaso que João Pinto Coelho intervala a seguinte frase a dado momento num diálogo deste livro: “Não estamos a falar de romances nem das tuas personagens. Esta mulher [Wallis Simpson] existe, não precisa de um escritor para se tornar extraordinária.” A intenção de incluir esta deixa pretende ser, diz, “a constatação de que existe gente assim: homens e mulheres que habitam fora dos livros e dispensam floreados, mesmo literários, para se descreverem como extraordinários”. É o caso de uma outra frase literária sobre vários pintores, como Chagall, Picasso, Dali e Rivera, e do que numa das páginas é referido assim: “Cada história [deles] dava um conto e não eram os quadros mas as suas vidas que mereciam ser emolduradas”. Pinto Coelho confessa: “É uma frase que decorre do meu encontro com eles, de tudo o que aprendi nos bancos das Belas Artes, ou do que vim a encontrar enquanto chocava com as suas biografias. Por trás do génio, há vidas complexas, paradoxais, fascínios que davam quadros ou romances inteiros.”

Quando se quer saber qual das gémeas prefere como protagonista, João Pinto Coelho garante que essa é uma “pergunta é provocatória, pois não faço ideia a que gémea dei preferência”. No entanto, não evita qualificá-las: “Se for pela voz da Chuva, Aguarela é a favorecida, chegando a admitir ter calhado ser a gémea errada. Se for pela mão do autor, Aguarela, é sempre mais grandiosa do que o mundo que a cerca, é a sacrificada e de longe a mais maltratada. O autor tem outras preferências, contudo deve deixar a empatia para quem o lê.”

Uma segunda pergunta provocatória surge quando escreve “Era a segunda vez que eu ouvia falar de Hitler e da deriva antissemita que a Alemanha cozia.” É hora de saber se as imagens que passam nas televisões sobre a atual atividade militar de Israel lhe fazem lembrar o pesadelo desse passado. João Pinto Coelho recorre à História: “Em 1941, durante a invasão da União Soviética, Hitler enviou os seus esquadrões da morte para chacinar todos os judeus que encontrassem. Estamos a falar dos homens, mulheres e crianças que se achassem no caminho, nenhum deles capaz de constituir ameaça, fosse de que natureza fosse, ao Reich de Mil Anos. Não se descobrem disputas territoriais, preocupações de segurança nem guerras de poder que expliquem a obsessão de uma campanha assim. O Holocausto não tem precedente nem explicação plausível. O que hoje se passa no mundo, em Gaza e noutros lugares de desastre, obriga a uma reflexão urgente, mas a História nunca se deu bem com as equivalências.”

Qual terá sido o cenário que mais trabalho deu a escrever no caso de Paris sob duas épocas: com e sem ocupação alemã. Responde: “Foi muito mais trabalhoso escrever sobre o período pós-ocupação, sobretudo porque, pela primeira vez, abordo uma temática que não conhecia com a profundidade que o romance reclamava: as experiências médicas perpetradas sobre os prisioneiros nos blocos de Auschwitz I e Birkenau. Tanto que tive de recorrer a médicos com as especialidades que me interessavam para afinar a linguagem científica e varrer da narrativa certos anacronismos. Escrever sobre os crimes que aconteceram no bloco 10 do Stammlager não só foi mais trabalhoso, como emocionalmente exigente.”

AGUARELA DE PARIS

João Pinto Coelho

D. Quixote

423 páginas

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PELA MANHÃ COMEÇA O LIVRO

A editora Alfaguara decidiu lançar dois livros para leitura (sugerida) de verão. A justificação é fazer “pontes entre o clássico e o contemporâneo, dando a conhecer algumas das melhores obras da literatura moderna e atual”. Por coincidência, ambos começam numa manhã; em A minha terceira vida é uma ave que desce a pique sobre as galinhas e em O verão em que a minha mãe teve os olhos verdes é a manhã do aniversário da mãe. Coincidências iniciais à parte, os dois romances seguem por caminhos diferentes, mesmo que as coincidências continuem a surgir. No primeiro, Daniela Krien coloca as personagens numa aldeia e no segundo Tatiana Tîbuleac insere-as numa vila costeira – ambas fogem do cenário citadino e usam a solidão e inóspito dos lugares. As coincidências continuam, como a das doenças que alteram as vidas dos protagonistas num e noutro livro, bem como um quotidiano que em nada favorece o regresso a um tempo feliz. Com tantas coincidências a somarem-se umas às outras, tendo em conta a narrativa de ambas as escritoras, o conselho é de que o melhor será juntar os dois romances e levá-los como leitura de férias.

A MINHA TERCEIRA VIDA

Daniela Krien

Alfaguara

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O VERÃO EM QUE A MINHA MÃE TEVE OS OLHOS VERDES

Tatiana Tîbuleac

Alfaguara

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