Percorrer Istambul com Orhan Pamuk

Pode-se conhecer uma cidade com a ajuda de um escritor? Sim, é a resposta que o livro do Prémio Nobel turco, Orhan Pamuk, demonstra bem. Um guia literário para uma Istambul mais profunda e menos turística.

Dificilmente se poderá conhecer melhor uma cidade como Istambul do que através do livro que Orhan Pamuk escreveu sobre ela. Chama-se Istambul - Memórias de Uma Cidade e ao longo de 360 páginas o escritor passeia-se pela cidade como se fosse através de um romance onde muitas personagens da sua família se confrontam com a visão do protagonista, o próprio autor.

O volume tem ainda uma coleção de fotografias que permite comparar a cidade do passado com a atual, que ilustra as histórias que Pamuk vai contando de uma forma muito literária. Basta ler a primeira frase do livro para o comprovar: "Desde a minha infância, sempre tive num cantinho da cabeça a ideia de que existia, algures nas ruas de Istambul, outro Orhan que era igual a mim, ou mesmo meu duplo."

Esse duplo de Pamuk é um dos guias para o leitor conhecer Istambul, a cidade que está colocada entre o Ocidente e o Oriente e que é tão misteriosa como incompreensível para um visitante que a tenta conhecer sem uma boa preparação. Um bom exemplo é quando o escritor explica como os habitantes olham para os relógios que estão em ambos os lados da Ponte Karaköy e o que eles significam para os locais que "se impacientam quando o barco está ainda tranquilamente amarrado ao embarcadouro". O turista dificilmente o perceberia se não ficasse horas a observar essa situação.

Ou quem são aquelas pessoas com que o turista se cruza ao visitar a cidade: "Ahmet Rasim descreveu infatigavelmente todos os aspetos de Istambul: dos diferentes tipos de bêbados aos vendedores de rua dos bairros afastados, dos merceeiros aos saltimbancos, dos músicos aos mendigos, da beleza dos bairros à beira do Bósforo às tabernas, dos boatos aos menus dos restaurantes."

Orhan Pamuk sobre a visita de Flaubert:

"Duzentos anos antes do meu nascimento, Flaubert visitou Istambul e, impressionado com as gentes e a originalidade da cidade, escreveu numa carta que, no espaço de um século, pensava ele, Constantinopla se tornaria a 'a capital da Terra.'"

Orhan Pamuk sobre o Bósforo:

"Em boa verdade, desde que me conheço, conto os barcos que atravessam o Bósforo de uma ponta à outra. Conto os navios-cisternas romenos, as fragatas soviéticas, os barcos de passageiros búlgaros, os taka dos pescadores provenientes de Trabzon, o elegante transatlântico italiano."

Orhan Pamuk sobre Melling:

"Entre as obras de artistas ocidentais que desenharam as paisagens do Bósforo, as que mais gosto de ver e as que me parecem mais convincentes são as de Melling. Estes desenhos, que eu olhava horas a fio até aos mínimos pormenores, dão-nos a ideia exata do que era a impecável Istambul otomana no passado."

Orhan Pamuk sobre a cidade:

"A pobreza, a confusão mental e a preponderância do negro e do branco, que se inscrevem na vida de Istambul como uma doença vergonhosa, que não se podendo debelar e são vistas como um destino, não são vividas como um fracasso ou uma incapacidade, mas como uma honra."

Istambul - Memórias de Uma Cidade

Orhan Pamuk

Editorial Presença

360 páginas, com muitas ilustrações

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