Definir uma cinematografia através de determinadas constantes “temáticas” poderá ser uma tarefa sugestiva, ainda que condenada a algum tipo de esquematismo. Mesmo assim, fará sentido dizer que, em anos recentes, os retratos de crianças têm pontuado, com rara exuberância criativa e delicadeza moral, a produção da Bélgica. Lembremos os exemplos de A Criança (Palma de Ouro de Cannes/2005), e Jovens Mães (2025), ambos de Jean-Pierre e Luc Dardenne, ou ainda Recreio (2021), de Laura Wandel. De novo com assinatura de Wandel, aí está Pelo Adam, um drama pungente centrado na personagem de um menino de quatro anos, por certo um dos grandes filmes do nosso verão cinéfilo.Dizer que todos estes títulos são “sobre” crianças é uma simplificação que, involuntariamente, pode favorecer uma formatação de pensamento todos os dias reforçada por telenovelas e talk-shows que, perante a nossa chocante indiferença coletiva, se dedicam a explorar o sofrimento humano. Dito de outro modo: qualquer abordagem dos territórios da infância (ou dos tempos da adolescência) envolverá sempre algum tipo de perspectiva sobre o mundo dos adultos.Assim acontece em Pelo Adam. Com uma nuance que começa na estrutura do argumento (também assinado por Wandel). Dir-se-ia que o filme arranca “mais à frente” — o mal está feito e o espetador entra na ação com o mesmo desconhecimento da chefe de enfermagem, Lucy (Léa Drucker), que recebe o frágil Adam (Jules Delsart) na secção de pediatria do seu hospital. Adam sofre de graves problemas de subalimentação, sendo a fragilidade do seu sistema ósseo o sinal mais imediato de tais problemas (descobrimo-lo, aliás, com um braço engessado). A situação é tanto mais desesperada quanto a mãe de Adam, Rebecca (Anamaria Vartolomei), tenta impedir que Adam seja alimentado com a comida do hospital...Este inventário da situação, com inevitáveis prolongamentos conjugais, afetivos e financeiros, é escasso para definir a vibração emocional de um filme como Pelo Adam. A sua intensidade não decorre de sublinhados mais ou menos redundantes — curiosa e, neste caso, sintomática é a ausência de música na banda sonora (o que, bem entendido, não significa que possamos dispensar as matérias musicais para compreendermos a multifacetada história do cinema). Prevalece uma opção de mise en scène que consiste em privilegiar a ação física, como se estivéssemos a seguir uma “reportagem” sobre a frenética atividade de Lucy. Aliás, é a partir dela que Wandel formula o drama, não apenas afetivo, mas também legal, que a direção do hospital terá de enfrentar: uma vez que Rebecca não quer que Adam seja alimentado pelo hospital, faz sentido continuar a autorizar o contacto entre mãe e filho? . A questão fulcral da ação do filme de Wandel será, então, o que é possível fazer para, segundo a terminologia legal, defender “o interesse de Adam”? O título original é mesmo L’Intérêt d’Adam — será um pormenor secundário, mas não creio que a sonoridade do título português seja a mais feliz, ou mesmo a mais certeira (a meu ver, Por Adam seria mais simples e também mais direto).O valor do elencoDeparamos, enfim, com mais um notável exemplo de um realismo que se consolidou como fenómeno transversal na mais interessante, e também mais inventiva, produção europeia dos últimos anos. As suas matérias envolvem uma detalhada e, apetece dizer, obsessiva verossimilhança das ações das respetivas personagens — os espaços do hospital são tratados com uma riqueza de detalhes que tem qualquer coisa de visceralmente documental. Escusado será dizer que nada disso é estranho ao trabalho do elenco, com inevitável destaque para Drucker, grande dama da atual produção francófona, e Vartolomei, que vimos, por exemplo, em O Acontecimento (2021), adaptação do livro homónimo de Annie Ernaux realizada por Audrey Diwan. Sem esquecer, claro, o maravilhoso Jules Delsart, uma criança real e realista, numa personagem alheia à vulgaridade paternalista de muitas ficções de raiz televisiva..'Megadoc'. O caos segundo Francis Ford Coppola.'The Alto Knights'. Robert De Niro em versão dupla