Os primeiros seis filmes de Fernando Lopes (1935-2012), recentemente digitalizados, vão ser exibidos no domingo, 28 de dezembro, no Cinema Ideal, em Lisboa. São eles: Belarmino (1964), Uma Abelha na Chuva (1972), Nós por Cá Todos Bem (1977), Crónica dos Bons Malandros (1984), Matar Saudades (1988) e O Fio do Horizonte (1993). Será uma jornada especial, com entradas gratuitas, para assinalar a data em que o realizador completaria 90 anos. O dia integra-se num programa de comemorações do legado de Fernando Lopes, a desenvolver-se ao longo de todo o ano de 2026, com organização da Midas Filmes. Os trabalhos de digitalização dos filmes foram executados pela Cinemateca Portuguesa com fundos europeus provenientes do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Recorde-se que, no âmbito desse plano, a Cinemateca tem estado a proceder ao restauro digital de uma parte muito significativa do património fílmico português, tendo recentemente dado a conhecer o milésimo título restaurado (Três Dias sem Deus, de Bárbara Virgínia, uma produção de 1946) — os dinheiros do PRR deverão permitir a digitalização de cerca de 1200 filmes. Durante as últimas duas décadas estes filmes de Fernando Lopes tiveram escassa divulgação. Agora, os respectivos direitos foram recuperados pela família do cineasta, incluindo também as suas curtas-metragens e documentários. Os seus herdeiros celebraram um acordo com a Midas Filmes no sentido de a distribuidora e produtora de Pedro Borges se encarregar da difusão de todos esses títulos, tanto a nível nacional como internacional. .Assim, a programação do dia de aniversário de Fernando Lopes integra-se num primeiro ciclo de apresentação das seis longas-metragens que, aliás, começará na Cinemateca, no dia 26 (19h00), com a passagem de O Fio do Horizonte, porventura a sua obra mais mal conhecida. Recorde-se que se trata de uma coprodução europeia de António da Cunha Telles (envolvendo Portugal, França, Espanha e Alemanha), tendo como base o romance de Antonio Tabucchi, com o francês Claude Brasseur no papel central. Entretanto, em três sábados consecutivos, a RTP programou Belarmino (exibido no dia 20), Uma Abelha na Chuva (dia 27) e Nós por Cá Todos Bem (3 de janeiro). Novas edições em DVD Belarmino e Uma Abelha na Chuva são referências obviamente inseparáveis das dinâmicas criativas do Cinema Novo português. O primeiro, tendo como base uma entrevista ao pugilista Belarmino Fragoso conduzida por Baptista-Bastos, discute as fronteiras convencionais entre “documentário” e “ficção”; o segundo, adaptado do romance de Carlos de Oliveira, prolonga a crítica metódica da herança neo-realista através de uma montagem cujo risco e imaginação o tempo não anulou. A multiplicidade criativa de Fernando Lopes está também patente nos restantes títulos, a começar pelo documentário (quase) autobiográfico Nós por Cá Todos Bem em que a evocação da mãe do cineasta se combina com componentes do género musical. Sem esquecer os contrastes de Crónica dos Bons Malandros e Matar Saudades, o primeiro explorando um registo burlesco inspirado no livro de Mário Zambujal, o segundo lidando com fantasmas da guerra colonial e da emigração. .A Midas Filmes que, por delegação da família de Fernando Lopes, acompanhou junto da Cinemateca o processo de digitalização, anuncia também para breve uma edição especial de colecionador, em DVD, com os seis filmes restaurados. Em paralelo, surgirá uma monografia/antologia com entrevistas e textos, alguns inéditos, do próprio realizador. Ao mesmo tempo, está a ser reunida e organizada uma parte significativa do seu espólio pessoal, incluindo imagens das rodagens dos seus filmes — todos esses materiais serão depositados na Cinemateca.