Está a chegar a primeira edição da Polska – Mostra de Cinema Polaco, iniciativa resultante de uma parceria entre a Embaixada da Polónia em Lisboa e a Associação Il Sorpasso. A partir de quinta-feira (até domingo, dia 5), o Cinema São Jorge acolhe um pequeno, mas significativo, conjunto de produções que, por assim dizer, fazem a ponte entre o classicismo e a atualidade de uma cinematografia tão rica quanto contrastada.Vale a pena sublinhar que o evento acontece poucas semanas passadas sobre uma edição do Festival de Cannes em que a Polónia teve uma presença invulgarmente forte, incluindo o admirável Fatherland, filme que valeu o Prémio de Realização a Pawel Pawlikowski (ex-aequo com o espanhol La Bola Negra). Em paralelo, a secção de Clássicos deu a conhecer uma cópia restaurada de O Homem de Ferro (vencedor da Palma de Ouro de 1981), de Andrzej Wajda.. Wajda, cujo centenário se comemora este ano, é a figura homenageada pela Polska, com a passagem de O Homem de Ferro, precisamente, e O Homem de Mármore, produzido quatro anos antes. Retratando momentos emblemáticos da vida de Mateusz Birkut (Jerzy Radziwiłowicz), um operário cuja dimensão heróica foi sendo obliterada pela censura do regime comunista, os dois filmes envolvem também uma subtil reflexão sobre os poderes políticos do próprio cinema, uma vez que a trajetória de Birkut é seguida por Agnieska (Krystyna Janda), uma cineasta – sem esquecer, claro, que O Homem de Ferro é também uma vibrante evocação do nascimento do movimento Solidariedade.A Mostra abre com a passagem de Franz, de Agnieszka Holland, título que representou a Polónia na corrida para o Óscar de Melhor Filme Internacional (não tendo chegado às nomeações). Nele se propõe um retrato de Franz Kafka, a meio caminho entre a reconstituição histórica e a parábola surreal; o protagonista, Idan Weiss, foi distinguido nos prémios do cinema checo como melhor ator – trata-se de uma ante-estreia, uma vez que Franz estará nas salas portuguesas a partir do dia 9 de julho.No campo da ficção, serão ainda exibidos Home Sweet Home, de Wojciech Smarzowski, e Altar Boys, de Piotr Domalewski - o primeiro desmonta uma história de amor nascida numa relação online que, afinal, se revela bem diferente das ilusões do mundo virtual; o segundo segue as peripécias de um grupo de jovens acólitos apostados em denunciar as formas de hipocrisia da sua religião. Altar Boys é um dos maiores sucessos da recente produção polaca, tendo sido eleito como melhor filme do ano no Festival de Cinema Polaco de Gdynia.. O lote de documentários será, talvez, onde poderemos encontrar maiores surpresas, a começar por The Queen and the Smokehouse, de Iga Lis, sobre uma lendária loja de peixe fumado nas costas do Báltico, e Pianoforte, de Jakub Piątek, percorrendo os bastidores do Concurso Internacional de Piano Chopin, em Varsóvia. O destaque vai para Trains, de Maciej J. Drygas, vencedor da edição de 2024 do Festival Internacional de Cinema Documental de Amsterdão: um retrato global, histórico e simbólico, do século XX europeu tendo como base os comboios que o título refere – sem voz off, apenas através de imagens de arquivo.