O realizador francês Sylvain Chomet (nascido em Maisons-Laffitte, em 1963) tornou-se uma referência internacional do cinema de animação graças a Belleville Rendez-Vous (2003), uma aventura mais ou menos burlesca tendo as peripécias da Volta à França em Bicicleta como pano de fundo. O Mágico (2010), baseado numa história escrita por Jacques Tati, consolidou o seu prestígio. Agora, reencontramos o seu peculiar labor em Marcel e Monsieur Pagnol, evocação de Marcel Pagnol (1895-1974), autor lendário do cinema francês.Convenhamos que Pagnol como figura para ser “biografada” em desenhos animados está longe de ser coisa óbvia. Afinal de contas, ele pertence a uma certa idade clássica do cinema francês em que uma peculiar visão “poética” do povo francês se enraizou, em grande parte, na popularidade de atores como Raimu, Pierre Fresnay ou Fernandel. Marius (1931), Fanny (1932) e César (1936) serão exemplos emblemáticos da sua obra, todos baseados em peças de sua autoria, o primeiro dirigido por Alexander Korda, o segundo por Marc Allégret, o terceiro pelo próprio Pagnol.O filme de Chomet procura encontrar o seu equilíbrio dramático através de uma conjugação problemática, ainda que original. Assim, por um lado, o desenho tenta preservar uma certa “verosimilhança” física das personagens, distante da alegria burlesca dos filmes anteriores — dir-se-ia uma “reconstituição” de época à maneira de um telefilme competente, mas convencional. Ao mesmo tempo, por outro lado, as memórias da vida pessoal e artística de Pagnol são tratadas através do diálogo imaginário entre Pagnol criança e Pagnol adulto — um artifício que, em última instância, parece concebido menos para servir o espetáculo e mais para acumular informações de carácter biográfico.Será que tudo isto consegue “passar” para o espetador? De facto, a história de Pagnol está longe de se manter atualizada junto dos públicos contemporâneos. Chomet parece ter consciência do problema e, em alguns breves momentos, arranja soluções visuais para dar a ver algumas imagens a preto e branco de filmes de Pagnol. Seja como for, o tom demonstrativo, por vezes desnecessariamente pomposo, das situações não será a forma mais eficaz para atualizar a herança de Pagnol. É pena, já que, para todos os efeitos, Marcel e Monsieur Pagnol nasce da vontade de partilhar e celebrar um belo capítulo cinéfila..'Memórias do Teatro da Cornucópia'. Quando o cinema é cúmplice do teatro