O cinema musical está de volta a Lisboa com um grande ciclo na Cinemateca Portuguesa. A partir de segunda-feira, durante dois meses, as duas salas da rua Barata Salgueiro celebrarão um género que, apesar de ter perdido a importância industrial que teve (sobretudo nas primeiras décadas da produção sonora), continua a ocupar um lugar muito especial no imaginário cinéfilo — quando as personagens estão a falar e, de repente, começam a cantar ou dançar (ou as duas coisas ao mesmo tempo), dir-se-ia que o cinema se liberta da “obrigação” de repetir as aparências do mundo, reinventando-o.A sessão de abertura (dia 1, 15h30) envolve a evocação de Marilyn Monroe, já que a data coincide com o 100º aniversário do seu nascimento. Assim, será exibido Parada de Estrelas (1954), uma realização de Walter Lang que foi concebida como uma homenagem às composições de Irving Berlin, um dos nomes nucleares da tradição do musical, cruzando os palcos da Broadway e os estúdios de Hollywood — com Marilyn contracenam Ethel Merman e Donald O’Connor.A produção de Hollywood, precisamente, está representada através de alguns títulos emblemáticos, ou não fossem os estúdios da Califórnia (com inevitável destaque para a Metro Goldwyn Mayer) o sofisticado laboratório de muitos dos grandes clássicos que arrastaram multidões, sobretudo ao longo das décadas de 1930/40. Não Há como a Nossa Casa (1944), de Vincente Minnelli, ou Um Dia em Nova Iorque (1949), de Stanley Donen e Gene Kelly, são marcos fundamentais desses tempos de glória. Seja como for, não faltarão títulos menos conhecidos como Sonho de uma Noite de Verão (1935), realizado pelo grande mestre austríaco do teatro, Max Reinhardt, em colaboração com William Dieterle — Reinhardt exilou-se nos EUA depois da anexação do seu país pelos nazis. Outro caso a merecer destaque será A Valsa do Imperador (1948), com Billy Wilder a dirigir o par Bing Crosby/Joan Fontaine, uma produção tanto mais original quanto se aproxima das regras da opereta.Muito para lá dos contrastes da produção de Hollwyood, as três dezenas de filmes desta primeira parte do ciclo de revisitação do musical apontam também para a redescoberta do género em contextos muito diversos, incluindo Portugal — O Pátio das Cantigas (1942), de Francisco Ribeiro, surgirá, assim, como um objeto marcado pelo cruzamento da comédia melodramática com os artifícios do teatro de revista, além do mais consagrando a dupla António Silva/Vasco Santana.A galeria de clássicos menos conhecidos, sobretudo menos divulgados, inclui O Milhão (1931), do francês René Clair, porventura um dos exemplos mais sugestivos de “transição” do musical teatral para os códigos do cinema, A Verbena de La Paloma (1932), produção do cinema republicano espanhol com direção de Benito Perojo, e ainda A Ópera dos Três Vinténs (1932), de George W. Pabst, lendária encenação do texto de Bertolt Brecht com música de Kurt Weill. Esta primeira parte do ciclo encerra (dia 30, 15h30) com Oklahoma! (1952), adaptação da obra de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II que ficou como a única incursão do realizador Fred Zinnemann no musical.