A passagem a livro da peça com que Tiago Rodrigues regressa obriga a uma leitura feita numa única vez.
A passagem a livro da peça com que Tiago Rodrigues regressa obriga a uma leitura feita numa única vez. Foto: D.R.

Pai na Terra e filha em Marte

A peça 'A Distância' de Tiago Rodrigues já tem a versão livro. Uma leitura vertiginosa sobre uma crise geracional num futuro que é demasiado atual. 
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É impossível fugir ao formato teatro quando se lê o novo texto de Tiago Rodrigues, A Distância, porque a marcação está bem presente, mesmo que o leitor desconheça que o cenário possa ser uma base circular que roda e vai dando vez a dois atores para as suas falas. A verdade é que este novo livro, que poderia ser uma excecional novela, imprime o texto da peça de teatro que esteve até ontem em Lisboa e estará alguns dias em Guimarães, sempre com salas esgotadas, situação que vai obrigar o leitor que não conseguiu bilhete a usar a imaginação. Que nem é assim tão necessária porque o texto, além de fundamentalmente teatral, é tão cinematográfico e literário que se interioriza rapidamente o que se estaria a passar no palco e torna desnecessário qualquer visualização. Ou seja, para os leitores, o livro A Distância dispensa outras modalidades. 

A Distância conta a história de uma filha que decide partir para Marte sem avisar o pai e este é confrontado com uma decisão que o coloca perante a impotência total; resta-lhe a tentativa de fazer com que a filha desista, depois os lamentos, o dar a volta através das memórias e a definitiva perda. Diga-se que o assunto teria tudo para raiar a lamechice e o verter de abundantes lágrimas, no entanto o que acontece ao leitor é sentir-se como num tribunal a ouvir a defesa e a acusação e dividir-se entre argumentos do pai, Ali, e da filha, Amina. Sendo que tudo se passa entre dois planetas do sistema solar e não por perto.

O facto de conter alguma ficção científica para dar corpo à história também poderia resultar num tratamento literário conflituoso, contudo esse é um pano de fundo que não preocupa o leitor. Decerto que tudo poderá acontecer da forma como o dramaturgo relata, sendo que a introdução de um tempo vertiginoso que acelera as comunicações Terra-Marte faz com que não exista possibilidade de o leitor se desfocar do que se passa nas páginas do livro.  

Tiago Rodrigues estranha que haja uma editora, a Tinta da China, que mantenha uma coleção de teatro. Também estranha que os textos que escreve para teatro sejam transformados em livro e que haja quem considere essa situação como obrigatória. Explica: “Continuo a manter grandes reticências sobre a ideia de ver um texto meu num livro com o nome na capa como se fosse um autor a sério. No entanto, a experiência tem-me dito que é no livro que fica a arqueologia e a consequência daquilo que foi o espetáculo.” Acrescenta que após a edição de duas peças anteriores, Catarina e A Beleza de Matar Fascistas e Na Medida do Impossível, sente que se pode praticar uma outra proximidade através do texto: “Na sala de teatro, o público compra o bilhete e oferece o tempo aos artistas; já no contacto com o texto em livro, o público tem outra relação no que respeita ao tempo, talvez mais literária, solitária e menos política, mas com uma outra profundidade e a possibilidade de controlar o tempo no ato da leitura. Ou seja, o texto pode ter outra vida e esse encontro com o público fora do palco pode ser uma porta de entrada no teatro.”

A experiência da escrita de uma peça é para Tiago Rodrigues um trabalho mais coletivo do que se imagina, como refere: “Deve muito a muita gente, mas primeiramente às pessoas que participam na construção do espetáculo”. No caso de A Distância aponta os atores que representam este texto, Alison Deschamps e Adama Diop, que participaram das discussões e reflexões que lhe deram origem: “O texto é escrito durante os ensaios e, portanto, é muito enformado pelas nossas conversas, bem como resultado de um encontro não só artístico e profissional, mas também humano. Ou seja, tento que o espetáculo e o texto sejam uma fotografia sincera, mesmo que metafórica, do que foi estarmos juntos a construir um espetáculo.”

Revela sobre a elaboração de A Distância: “A minha filha Beatriz esteve sempre próxima durante a escrita, fosse fisicamente ou à distância. Seria incoerente que um espetáculo sobre um pai que ficou no planeta Terra em 2077 enquanto a filha partiu para Marte não necessite de um diálogo pessoal e íntimo como é o da nossa relação de amor filial.” Quanto à origem do texto, Tiago Rodrigues regressa à importância da filha na sua conceção: “Posso partir para os meus projetos com algumas ideias, mas são sobretudo as pessoas que me rodeiam que estão na sua origem. Fazer teatro exige muito de nós em termos profissionais e artísticos, mas também de sociabilidade e de entrega aos outros. No trabalho artístico há sempre essa vulnerabilidade e em A Distância não faltou quando decidi voltar a trabalhar com o ator Adama Diop e nos debates sobre o que tínhamos em comum e nos interessava trabalhar enquanto artistas; por exemplo, a distância em relação aos nossos países de origem, a pessoas, amigos e família que nos são muito próximos e se mantêm próximos mas à distância. Daí que um dia surgisse a ideia sobre um pai e uma filha que estavam mesmo muito separados, que exigiu uma ruptura na forma de ver o mundo: ela acha que é preciso mudar o mundo, ela acha que já não é possível. Numa descrição muito simplista, estas são as duas visões filosóficas e quase antagónicas que estão presentes, só que num conceito futurista da colonização de Marte.”

A DISTÂNCIA

Tiago Rodrigues

Tinta da China

55 páginas

LANÇAMENTO 

UM LEGADO ATERRADOR

O físico italiano Carlo Rovelli tem vindo a publicar vários livros sobre a sua área de estudo, no entanto outras preocupações próprias do tempo em que todos vivemos infletiram, ou sublinharam, a necessidade de um desvio no tema dos seus livros. Daí que Rovelli coloque em A Consciência Pesada dos Físicos um subtítulo inesperado: Um manifesto antinuclear. Recorre a um facto que considera perigoso no atual estado do mundo, o da possibilidade de a situação desembocar em conflitos para que não há volta a dar a não ser uma grande destruição do planeta e dos seus habitantes. Em oposição ao “equilíbrio do terror” pelas potências que possuem a bomba nuclear, Rovelli desmonta o erro que é esta “lógica de dissuasão” e para isso regressa aos primórdios do tempo nuclear: recupera a descoberta de Enrico Fermi que permitirá criar a bomba, o encontro entre Niels Bohr e Werner Heisenberg numa recriação do clima internacional inflamado como o de hoje. Situações, entre outras, que desaguaram numa sucessão de mal-entendidos e más escolhas e que fazem com que o físico receie uma repetição na atualidade, após os físicos teóricos terem oferecido à humanidade o presente envenenado que é o arsenal atómico. 

A CONSCIÊNCIA PESADA DOS FÍSICOS

Carlo Rovelli

Penguin

105 páginas

Diário de Notícias
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