Padrão dos Descobrimentos. A nau da discórdia

Construído em materiais perecíveis em 1940, para a Exposição do Mundo Português, o Padrão dos Descobrimentos tornou-se parte da paisagem ribeirinha de Belém em 1960. O deputado Ascenso Simões "envolveu-o" numa polémica.

Teve imponência e beleza a cerimónia de inauguração do Monumento dos Descobrimentos", lia-se na primeira página do Diário de Notícias de 10 de agosto de 1960. "Os chefes de Estado do Brasil e de Portugal, os ministros e embaixadores estrangeiros", continuava o repórter no local, "os chefes de missões especiais, todas as entidades que se deslocaram ao nosso país para assistir ao ciclo maior das comemorações, assim como os membros do governo e as mais altas entidades, assistiram à cerimónia inaugural do Padrão dos Descobrimentos, na Praça do Império defronte do Tejo."

Momento alto das comemorações do quinto centenário da morte do infante D. Henrique, que passaram ainda pela realização de congressos internacionais e o lançamento de várias edições de luxo, a data da inauguração do monumento fora escolhida em função da visita de Estado do Presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek (que ocupou o cargo entre 1956 e 1961). Chamado, como impunha o protocolo, a discursar na cerimónia, Kubitschek diria ser "o mar a base da glória de Portugal", mas não deixava de frisar: "Exaltamos os nossos heróis pretéritos, não declinamos porém, do dever de participar dos eventos do nosso tempo."

Com esta caravela estilizada, levando à proa o infante D. Henrique, o grande patrono das viagens de descoberta que pessoalmente nunca foi mais longe do que Tânger, o governo atribuía caráter definitivo, através do betão e da cantaria de pedra rosal de Leiria, ao monumento em gesso e outros materiais perecíveis que, 20 anos antes, integrara a Exposição do Mundo Português. No final dos anos 1930, o monumento começou a ser pensado pelo arquiteto (mas também realizador de cinema, figurinista e até autor de banda desenhada) Cottinelli Telmo como uma homenagem ao infante
D. Henrique, na sequência de vários projetos e concursos idealizados para Sagres, sem que nenhum chegasse a ser construído. Por ocasião da Exposição do Mundo Português - de que Cottinelli Telmo foi arquiteto-chefe -, esta intenção daria lugar ao Padrão dos Descobrimentos, celebrando não apenas o infante mas também outras grandes figuras dos Descobrimentos esculpidas por Leopoldo de Almeida (ao todo, são 35): entre outras, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Fernão de Magalhães, Bartolomeu Dias, Diogo Cão, o infante D. Pedro, Filipa de Lencastre, Camões, Gil Eanes ou Nuno Gonçalves.

Segundo Leitão de Barros, realizador de cinema, mas também cenógrafo e cunhado de Cottinelli Telmo, tudo teria nascido numa das visitas de Duarte Pacheco, ministro das Obras Públicas, ao ateliê do arquiteto e de uma sugestão do próprio Leitão de Barros, que anos depois evocaria o momento na revista Turismo: "Acho que é uma "Exposição dos Portugueses", que foram ao mundo inteiro - resmunguei eu. Tem muitos palácios, muitos pavilhões parados, muitas relíquias... Mas falta-lhe o sentido de PARTIDA! É estática, vertical, terrestre. Ao contrário, eu quereria alguma coisa que desse a sensação de deslocação, de movimento, de arranque para a aventura. Mais D. Henrique - e menos para o seu homónimo D. Duarte"...

Erguido em oito meses, o Padrão foi considerado uma peça emblemática da Exposição do Mundo Português, e foi amplamente elogiado por críticos de vários quadrantes estéticos e políticos como Fernando de Pamplona, na revista Ocidente, a Costa Lima, na Brotéria, ou mesmo por Adriano de Gusmão no jornal O Diabo, que já nessa ocasião desejou, como outros, vê-lo "para sempre transposto para o mármore ou granito". Esclareça-se que O Diabo, que teve diretores como o escritor Ferreira de Castro, era um jornal tão pouco alinhado com o regime que viria a ser definitivamente encerrado pelo governo em dezembro desse ano de 1940.

O caráter provisório desse primeiro padrão ditou a sua remoção do local em 1943. Em 1959, quando se decidiu a reconstrução, Cottinelli Telmo já tinha morrido (aos 50 anos, em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas no mar de Cascais) e a conceção da obra foi entregue a Pardal Monteiro, que voltaria a chamar Leopoldo de Almeida para assumir a estatuária. Tinham passado 20 anos, o mundo mudara, as vanguardas artísticas também, e as reações já não seriam tão unânimes como em 1940. Apontava-se, antes de qualquer outra coisa, o classicismo desusado das figuras representadas.

Completado o conjunto com um painel em mosaico no chão fronteiro à entrada do Padrão, com uma rosa-dos-ventos de 50 metros de diâmetro, oferecido pela África do Sul a Portugal, o interior do monumento seria intervencionado, em 1985, já em democracia, quando se transformou em Centro Cultural das Descobertas, dotado de um programa de animação cultural. Hoje (ou melhor, antes que a pandemia ditasse a todos, turistas e residentes, uma brutal mudança de comportamentos), o Padrão dos Descobrimentos é, até pela paisagem que se divisa do seu topo, um dos monumentos mais visitados de Lisboa. Segundo dados da EGEAC (empresa municipal que gere o espaço), em 2019 o Padrão recebeu 309 159 visitantes, 90% dos quais turistas estrangeiros.

A polémica frase de Ascenso Simões

O Padrão dos Descobrimentos foi nesta semana envolvido numa polémica provocada por um artigo de opinião do deputado Ascenso Simões que, no Público, escreveu que este monumento, tal como os brasões florais na Praça do Império, também poderia ser destruído: "Mesmo o Padrão, num país respeitável devia ter sido destruído." Foi o suficiente para desencadear uma polémica entre direita e esquerda.

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